14.4.07

O ACROBATA DOS CIGARROS





Todos os dias ao final da tarde íamos tomar café ao Imperial. Que agora já não existe e transformaram em mais um MacDonalds. São os espelhos antigos, os lustres e é o empregado a gritar “Sai mais um simbalino”, que para quem não sabe é um café com cheiro e sabor a Porto. Ali não se bebiam cafés. Bebiam-se “simbálinos”! Tu também costumavas lá ir, embora eu não soubesse quem tu eras. As gargalhadas do nosso grupo evidenciavam-nos e claro que o facto de estarmos todos vestidos de pretos com uns penteados que poderiam muito bem terem sido feito por aranhas, e umas pastas enormes especificas para folhas A3 ou A2 denunciavam que durante o dia estávamos numa Escola de Moda. Não sei porquê o Bruno, que gostava que o chamassem de Piérre, vá-se lá saber porquê, um dia disse-me que tu olhavas para mim. Achei disparatado mas quando dei conta, na tarde seguinte entre um simbalino e um pastel de nata, já estas sentado na nossa mesa. Já todos trocavam bilhetinhos por debaixo da mesa apostando quanto tempo demoraríamos a começar a sair juntos. E eu que nem te levava nada a sério, ria-me. Nessa tarde, ou melhor dizendo, noite, porque entretanto já eram 20h30 o Bruno, desculpa, o Piérre, disse-me: “Amanha quando for a tua casa acordar-te para irmos para o curso, até aposto quem lá esta! Beijinhos, até amanhã!” Eu disse-lhe que ele era muito disparatado, porque nem sequer fazia parte dos meus planos fazer serão, até porque tínhamos um trabalho mesmo muito importante para entregar no dia seguinte. E confesso que o meu ainda estava no estado de fecundação. De maneira que tudo aquilo me parecia muito disparatado. Ofereceste-me boleia até casa. Desconfiei. Resisti. E quando dei conta estavas sentado no meu sofá a ajudar-me a escolher as cores e a decidir a gola que melhor se adequava aquela camisa. Não preciso dizer que passamos a noite entre aguarelas, carícias, pincéis e muitos beijos, e de facto quando o B…, Piérre chegou deu uma gargalhada que nos serviu de despertador e anunciou a hora da primeira aula. Uma semana depois levaste-me a jantar a um restaurante chinês giríssimo de dois andares. Lembro-me que quis ficar na parte de cima porque parecia uma espécie de varanda e achei aquilo muito romântico. Passados uns dias estávamos em minha casa e disseste-me “Tenho pensado muito em ti.” Eu não quis ouvir, e devo ter respondido qualquer coisa como “Não digas isso, não sejas disparatado!” Eu no fundo não te achava disparatado mas não queria mesmo era entregar-me e fazia um esforço enorme para que não acontecesse. Ali estávamos nós no Imperial a rir, quando tu apareceste e me disseste que domingo passavas à tarde por minha casa e me irias levar a dar um passeio muito especial. E ali fiquei eu a tomar simbálinos e a rir-me com Piérre, à espera de Domingo. Não sei bem porquê antes de Domingo foste a minha casa com a Mónica, que era uma colega do curso de manequim do Piérre, não sei fazer bem o quê, alguma coisa disparatada certamente. E enquanto a Mónica e o Piérre davam gargalhadas estrondosas na cozinha apanhei-te a sós no quarto e disse-te “Tenho pensado muito em ti, sabes?” Tu afastastes-te e disseste “Não digas isso.” Não percebi, quem tinha receio de me entregar no inicio era eu, mas se tu já pensavas em mim então eu podia-me permitir pensar em ti e baixar um bocadinho as defesas. Esperei a tarde toda de Domingo por ti. Não apareceste. Afinal a especialidade desse passeio parecia se o facto de não existir. Fui ter com a Sara, conversámos. Tentei que ela me ajudasse a descortinar aquele mistério que eu sinceramente não entendia, já que nem sequer o teu telefone tinha. E o Bruno dizia que não mo dava sem a tua autorização. Bruno, porque quando estava zangado com ele, chamava-lhe Bruno. Passou uma semana e não sabia nada de ti. O único sitio onde costumava ver-te era no Imperial. De maneira que, em vez de ir saborear gargalhadas e simbálinos, comecei a ir todas as tardes, mas para ver se te via. Um dia a Mónica disse-me que tinha descoberto que a tua relação estava quase acabada. “Ah, ele é comprometido?” Foi quando percebi que aquilo ainda era mais disparatado do que eu pensava, e não imaginava eu o desfecho disto tudo. Uma semana depois vejo-te a entrar no Imperial. Trazias uns jeans coçados e uma camisola branca de malha tricotada, daquelas da Serra da Estrela. Aproximaste-te da nossa mesa. Eu disse: “Senta-te.” Ao que tu respondeste: “Vou só ali à Sá da Bandeira comprar tabaco, venho já!” E nunca mais voltaste. Acabei o curso. Nunca mais vi nem o Piérre, nem sequer o Bruno, nem a Mónica nem a Sara. Já não bebo simbálinos no Imperial, até porque o Imperial já nem existe. No outro dia passei por lá, comprei um Sunday de chocolate e lembrei-me de ti. Será que ficaste pendurado nalgum dos prédios de Sá da Bandeira a enrolar cigarros?

5 comentários:

Denise disse...

Desculpa-me a curiosidade, mas aconteceu mesmo!? LOOL...parti-me a rir com o fim - apesar de não ter graça nenhuma.
Às vezes é assim, as pessoas surpreendem-nos pela negativa. E ficam a enrolar cigarros para o resto da vida. Coitados!

pedropina disse...

yeap, denise! aconteceu mesmo!!!!!!

Denise disse...

Ok...então não tem assim tanta graça.
Juro-te que enquanto lia tentava imaginar as situações - como se tivesse criado as minhas personagens e estivesse a ver o filme.
Sendo verdadeira a história - o que me pareceu na altura e que agora tenho a certeza - apenas digo que existem pessoas no mundo com muita falta de carácter e vergonha na cara.
São pessoas assim, que quando aparecem na nossa vida, ou as topamos logo ou estamos lixados...Viram tudo do avesso.
Enfim...Quando estiver pelo Porto a ver s passo pela Sá da Bandeira pa ver se lhe peço um cigarro. Pode ser que na altura os esteja a dar!!!

Beijinhos =)

pedropina disse...

será k está?

é k entretanto passaram mais de 10 anos dp desta historia ter acontecido....ups tou a ficar antigo....


bjuuu

Anónimo disse...

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