27.7.09

PEDRO A DORMIR ACOMPANHADO



Durmo numa cama enorme. Uma cama apenas com um corpo é uma cama vazia. Desde criança que durmo numa cama grande. Era adolescente e imaginava-me a dormir acompanhado. Imagino ali um outro corpo. Imagino o espaço que ocupa. Imagino abraçar esse corpo. Imagino o seu rosto. Na minha imaginação dormir acompanhado seria tão perfeito, que as duas pessoas estariam toda a noite aos beijos, olhando o rosto um do outro. Mas na minha imaginação faltava o pormenor do dia seguinte. Uma noite sem dormir implica um dia seguinte e todas as consequências de trabalhar à base de cafeína numa tentativa de me manter acordado. Na minha imaginação os dois rostos estariam virados um para o outro, sempre na comunhão e certeza da presença um do outro. No entanto, na minha imaginação faltava o pormenor da respiração. Dois rostos virados um para o outro, faz-me faltar o ar. Começo a ficar ofegante, numa tentativa árdua de beber algum oxigénio. Então na minha imaginação um dos corpos estaria de costas, porém estaríamos abraçados toda a noite. Mas na minha imaginação faltava o pormenor da temperatura. A meio da noite temos de retirar um cobertor, a manta. Seguidamente os lençóis serão também retirados tal como os pijamas que estão ensopados. O que a meio da madrugada origina a imagem de dois corpos a tremer de frio. Na minha imaginação, dois corpos abraçados seria a perfeição do aconchego. Porém na minha imaginação faltava o pequeno pormenor físico da posição em si, mais propriamente: o braço. Existe um braço que efectivamente abraça o outro corpo. No meu caso é o esquerdo. E o outro? O que se faz com o braço direito? Fica por baixo do outro corpo, sendo completamente esmagado e acordar dormente a meio na noite? Coloca-se por cima correndo o risco de cair na cara da pessoa? O que se faz com o braço direito? Então a minha imaginação de dormir acompanhado começa a ficar agravada com imagens de cabelos na minha cara, um ressonar que levemente entra no meu ouvido até me fazer acordar e adoptar a técnica do encontrão. Ranger de dentes. Empurrões. Cair da cama. A imaginação de dormir abraçado torna-se num verdadeiro pesadelo sem conseguir pregar olho toda a noite. Esqueço completamente toda a minha imaginação e aceito e declaro que é de facto completamente impossível dormir acompanhado. E um dia conheço-te a ti. E um dia sem imaginação, sem programar ou pensar e analisar posições abraço-me a ti e dormimos todas as noites abraçados. O que faltava na minha imaginação era o pormenor do ritual do beijo de boa noite e desta sensação de partilha do teu corpo com o meu corpo. Hoje sei que dormir abraçado não é imaginação e até hoje o meu braço direito nunca se queixou. Mas hoje tu não estás. O teu corpo abandonou a minha cama. Esta cama tornou-se fria, sem ar. O meu braço direito sente-se perdido à tua procura num escuro vazio. Hoje, continuo a dormir numa cama enorme. Mas uma cama apenas com um corpo é uma cama vazia.



(ao meu chocolatinho)

26.7.09

PEDRO, O COMBOIO E AS PERNAS DA SENHORA

Um comboio em movimento tem por fim chegar ao seu destino. Os corpos cansados desejam abandoná-lo, na não saudade do regresso. O comboio pára. Duas horas depois o comboio pára. Vejo o revisor quase arrancar a alavanca de emergência. O comboio pára. A viagem é como que suspensa e o ambiente ganha uma cor que não se entende. Os corpos cansados levantam-se repentinamente. As caras coladas às janelas anseiam perceber o motivo desta súbita paragem. Os corpos cansados, agitam-se. Braços gesticulam pelas carruagens. As caras ganham expressões de preocupação. As vozes não se percebem. O comboio está parado. Levanto-me. Saio do Comboio. Um aglomerado de pessoas, gesticulando culpados, não me deixa perceber o motivo pelo qual estamos parados. “A senhora caiu”, ouço uma voz explicar. O meu cérebro é abordado por memórias de histórias de pessoas que caíram debaixo do comboio. Mas esta não é uma história arquivada nas gavetas da minha memória. Esta história é aqui e agora. É uma tarde de Verão de muito calor. O comboio está parado. As horas passam. Faltava apenas uma hora para chegar a casa. Sinto-me egoísta com estes pensamentos. “A culpa foi do revisor, mandou o comboio partir, a senhora ainda não tinha descido”, ouço vindo de uma outra voz. Mas onde estava a senhora? Quem é esta senhora? A minha curiosidade pega-me nas pernas e avanço até perto da fita que nos impede chegar até aquele corpo. Vejo uma cabeça que se diz cheia de sede. Alguém lhe arranja uma garrafa de água. As suas mãos recebem a água. Aquela cabeça de aparentemente 40 anos, que se mostra calma, não olha para traz e espera pacientemente por aquilo que os próximos minutos lhe tragam. Espera também que ambulância seja o seu próximo transporte. Aquelas mãos pacientes que bebem água, não têm a consciência da imagem que vejo daqui de cima. Olho para o seu corpo. Entre as suas pernas e os seus pés falta um pequeno espaço. Os seus pés estão um pouco mais à frente. Fecho os olhos. Não quero ver. A imagem é desconexa. Não consigo fixar a imagem no meu cérebro. Uns pés fora do sítio. Afasto-me. Pego no telemóvel e aviso que vou chegar algumas horas atrasado. O comboio está parado. As pernas duma senhora estão por baixo. Os braços continuam a gesticular culpados. As vozes adivinham situações. A senhora ia a sair do comboio? A senhora ia a entrar no comboio? Se ela está de costas, ela caiu a sair do comboio. A mala dela está perto dela. As vozes concluem que aquelas pernas que agora estão por baixo do comboio, iam a sair. Saiu antes? Saiu depois? Quem viu? Quem não viu? Afasto-me. Entro novamente no comboio parado. Sento-me no meu lugar. Eu não quero saber do culpado. Eu não quero saber do calor que está. Eu não quero saber que estamos aqui há duas horas num comboio parado. Eu até já nem quero chegar a casa. Eu apenas quero esquecer aquelas pernas e aqueles pés fora do sítio. Porque eu, quando o comboio voltar ao seu movimento, vou chegar ao meu destino, com as minhas pernas, mas sei nas próximas viagens, não voltarei a esquecer aqueles pés que não chegaram ao seu destino.

25.7.09

PEDRO E A NOSSA NOITE DE NATAL COM OS BOMBEIROS


A tua avó morreu. É Natal e a tua avó morreu. Seis anos depois regresso a esse Alentejo. Na mesa, as rabanadas, os sonhos e a morte da tua avó. Essa avó morta que ainda há seis anos atrás nos dava biscoitos enquanto brincávamos aos Bombeiros no seu quintal. Os miúdos brincam. Os miúdos rasgam papéis de embrulho numa alegria tímida e controlada por um sentimento de vazio. Nós já não somos miúdos. Eu tenho dezoito anos. A família divide-se entre um velório e o final de uma ceia de Natal. Nós ficamos com os miúdos a ver filmes. Bissexualidade é o nosso tema nocturno. Não sei como aterra na conversa, mas desperta toda a tua curiosidade. Digo-te que ser bissexual é brincar ao Natal todos os dias. É ser o pai Natal e é ser a criança. É ter os dois lados que se complementam. Tens catorze anos, uma namorada e uma curiosidade fascinante. Fazes-me tantas perguntas que esquecemos as casas a arder na televisão e os miúdos a brincarem aos Bombeiros como nós, há seis anos atrás. Não fomos ao velório, ficamos esta noite de Natal a falar sobre corpos, sobre corpos de homens. Parto o Bolo-rei. Encontro uma fava. Digo-te que é sorte e que esta fatia é tua. Esta noite de Natal ainda não terminou. Ainda não te ofereci o meu presente. O velório também não terminou, mas a minha mãe rasga um intervalo para vir a casa dos meus avós. Diz-me que esta noite é melhor tu dormires no meu quarto, os teus pais vão passar a noite com a tua avó. Olhas para mim. Sei o que estás a pensar. Imaginas-nos certamente a brincar novamente aos Bombeiros. Os Bombeiros chegaram. Foi a minha mãe que os chamou. Um papel de embrulho atirado para a lareira ateou fogo. A casa da minha tia estava a arder. A casa cheira a filhoses. Comemos Bolo-Rei e não dizemos nada aos miúdos. Não contamos do Velório, da casa a arder, nem dos nossos olhos que se despedem do Pai Natal e ardem num fogo Natalício em palavras quentes, curiosas e codificadas. Desligamos a luz do quarto. Sinto o peso dos cobertores sobre o meu corpo. Sinto a tua mão. A tua mão quente pesquisa a minha carne. Beijamo-nos. Arrancamos o pijama um ao outro, numa necessidade faminta de nos enroscarmos. Não existem Bombeiros capazes de apagar o fogo desta cama. É aqui que te ofereço o meu presente. É aqui que te desejo Feliz Natal. No dia seguinte ao almoço, a minha avó diz qualquer coisa sobre gargalhadas a noite inteira no meu quarto. Sorrimos um olhar cúmplice de silêncio secreto. É o dia de Natal. É o funeral da tua avó. É este cemitério que substitui filmes familiares numa tarde de Domingo. E enquanto o caixão desce, olhamos um para o outro e ainda sentindo a memória do calor dos nossos corpos, um no outro, sentindo também o silêncio do segredo que dez anos depois perdura. Tenho vinte e oito anos. Sento-me nessa mesa de Natal, onde um dia me olhaste de soslaio. Não me olhas. O silêncio. Outros miúdos rasgam presentes de Natal, brincam aos Bombeiros e a casa ainda cheira a filhoses. E apesar de não olhares para de mim, sinto ainda a memória daquela que foi a nossa noite de Natal.

24.7.09

PEDRO E UM PEIXE CHAMADO VANDA


10h da manhã. Entro no atelier, cheio de sono. Sei que o cheiro a tintas me vai acordar. Subo as escadas. Entro no gabinete e ali está ela. Não são as tintas que me despertam, é novamente a presença dela, ali no meu estirador. Coloco a mochila e o casaco nas costas da cadeira, viro as costas ao estirador. Viro as costas e finjo não a ver. Vou à outra sala buscar as amostras de tecidos. Entre as amostras encontro um tecido sem amostra nenhuma em forma de meias de criança. Volto. Ali continua ela às voltas circulares em cima do meu estirador. Porquê em cima do meu estirador? Porque é aquele que está mais perto da janela que dá para o jardim? Sim, eu gosto de pintar a olhar a natureza. Sim, gosto de receber luz natural enquanto escolho os tons das aguarelas. Mas isto é um peixe, não uma planta. Não me parece que precises de luz natural. Vais para a mesa do computador, é artificial mas também tens luz. Desculpa, não percebi? Estás com fome? Coloco alguns pedaços de comida própria da embalagem. Sento-me. Levanto-me. Vou ao estirador lá do fundo e tento resgatar as aguarelas nos escombros de croquis e borrões. A caixa das aguarelas está aberta. As aguarelas estão secas. O pincel com pêlo de marta além de ter o pêlo cheio de tinta-da-china e guache está também roído na ponta. Um pincel de pêlo de marta não serve para pintar casinhas em guache. Tenho três croquis para pintar esta manhã e as aguarelas estão secas. Olho o aquário. Um aquário redondo revestido todo ela a papel escrito: Vanda. Nem assim a criatura se vai recordar do seu próprio nome. É um peixe. Tem segundos de memória. Sem memória queria eu ficar desde que ela acolheu aqui as filhas para viverem no atelier. Que culpa tenho eu que o pai não queira ficar com as crianças? Estás com fome Vanda? Despejo da embalagem um pouco mais de comida. Vou ao Show-room buscar uma das peças da última colecção. Deparo-me com um cenário digno. Dois tímidos toalhões de banho amarrotados, nas trincheiras do sofá. Sento-me no meu estirador, e tento que o lápis e a minha mão me acalmem a respiração artística, terminando o esboço do croqui que comecei ontem. Olho os traços no papel branco. Não os consigo decifrar. Estão completamente esborratados em forma circular. Curiosamente este circulo ocupa o mesmo espaço que o Estúdio da menina Vanda. Estás com fome Vanda? É a quarta vez, esta semana que o nosso encontro se dá em cima do meu estirador, e existem mais três nesta sala. Estás com fome Vanda? O esquadro está partido. As revistas rasgadas. Os lápis sem bico. Sento-me no meio do atelier. Olho em volta. Aprecio todo o cenário. Não reconheço o meu gabinete de design. Onde está a magia criativa que me faz borbulhar a imaginação? Onde está o stress dos prazos de entrega dos projectos? Onde está o nervosismo da véspera dos desfiles? Olho em volta. Não vejo o meu atelier. Vejo o meu local de trabalho transformado em restos de um acampamento de crianças despoletado de um divórcio do qual eu não tenho culpa. Eu levanto-me de manhã para criar. Estudei design de moda, não educação infantil. Estás com fome, Vanda? Ainda estás com fome, Vanda? Não acredito que ainda estejas com fome, Vanda? Tens a certeza de que ainda estás com fome, Vanda? Oh, desculpa Vanda mas a embalagem está vazia. O quê? Estava cheia? Oh Vanda, não te preocupes amanhã quando eu vier trabalhar às 10h da manhã, já não terás fome.

23.7.09

PEDRO E DESARRUMAÇÃO COMPANHEIRA


Coloco a chave na fechadura. Rodo para a esquerda. Entro em casa. Silêncio. Na sala, estão depositados restos de um casaco abandonado na noite anterior. As costas dessa cadeira, são testemunhas da minha semana. Arrumo, não arrumo. Não posso arrumar. Arrumo qualquer coisa. Nunca arrumo tudo. A t-shirt cheira a cigarros. Ou é o cinzeiro por despejar? Existe uma espécie de silêncio inevitável que contamina esta casa. O que fazer? Depois de jantar, não há nada para fazer. Existe um ponteiro enorme e pesado que se desloca vagarosamente em silêncio. O tempo é sempre tão grande aqui em casa. Pensar no dia seguinte? Arrumar os jeans que descansam sobre a cadeira? Lembro-me que nesse outro quarto, existia um armário, no qual camisas e calças, ordenadamente organizadas por cores, tamanhos e feitios, me ditavam uma espécie de lista calendarizada. Não, não foi sempre assim. Houve um tempo, mais pequeno, no qual estes casacos se encontravam distribuídos em cabides de tamanhos apropriados. Agora descansam onde podem, lutando entre si, as costas da mesma cadeira. Quando chego a casa, tenho sempre qualquer coisa por arrumar. Arrumo qualquer coisa. Nunca arrumo tudo. Não posso arrumar. Existe sempre algo por fazer, que me espera quando chego. Preciso de saber que algo está desarrumado. Necessito a desarrumação. Faz-me companhia. Essa camisola enrolada no sofá, precisa que eu a arrume, antes de me sentar a esquecer-me de mim. E encontro-me nos restos de uma semana cansada. Preciso duma casa desarrumada. Os livros deverão estar amontoados sobre uma mesa. Nunca ao alto numa estante. Os sapatos no corredor. E sempre um prato sobre a bancada da cozinha. Uma casa arrumada, não é habitada. É um hotel frio de emoções, sem lágrimas nem, risos. Uma cadeira vazia, espera eternamente o calor de alguém. As minhas cadeiras cheiram a mim. Cheiram a gente. Quando o relógio me manda embora, preciso de uma casa quente, desorganizada de emoções, recordações, memórias testemunhas da minha existência. Ocupo este fim de dia a fingir que arrumo qualquer coisa. Nunca arrumo tudo. Não posso arrumar. Que vou eu fazer sozinho numa casa friamente organizada? Arrumada? Cheirosa? Não! Preciso que falte sempre fazer qualquer coisa, para distrair e enganar o tempo antes de me deitar. Engano esta solidão que recorda as gavetas que outrora se pareciam com um jogo de xadrez, e que agora fechadas, escondem em silêncio, chaves enroladas em papeis, sobre lenços, canetas, rebuçados, um clip, um recado e uma factura em atraso de electricidade. Coloco a chave na fechadura. Rodo para a esquerda. Vejo a porta fechada em silêncio. Vou-me deitar. Enganei o tempo e fechei mais um dia de solidão. Não arrumei tudo. Nunca arrumo tudo. Quero ter sempre a certeza que quando chegar a casa, tenho companhia.

22.7.09

E ENTÃO? QUERES NAMORAR COMIGO?


Foi há um ano atrás que tudo aconteceu. Claro que este dia já era muito especial para nós, tal como para todas as pessoas que se gostam. Mas para nós era mais. Porque somos os dois muito românticos, e ligamos a estes dias que as pessoas inventam para receberem presentes e que nós aproveitamos para nos olharmos com um sorriso cúmplice que só nós sabemos o que quer dizer. E também só nós, é que sabíamos o que queria dizer a tatuagem provisória em forma de carácter chinês, que fizemos nesse dia à tarde no tornozelo, tu no esquerdo e eu no direito. É quase meia-noite quando a caminho da praia te ofereço as nossas pulseiras em forma de algema. Eu coloco-te uma e tu fazes-me o mesmo. Sabemos que estarmos juntos não é uma prisão, mas algemamo-nos um ao outro como símbolo de união, e assim também sabemos, que cada vez que olharmos o pulso, do outro lado existe alguém muito especial que encaixa perfeitamente na ranhura desta algema. Ofereces-me um bouquet de flores, que não é um bouquet de flores, mas de uns bombons com o sabor do teu sorriso e do teu olhar de criança doce. Doce e misterioso, consegues guardar e esconder nesse olhar, tão bem as surpresas, que por momentos pensava eu que não tinhas nada para me oferecer, e afinal não sabia mesmo o que me esperava. Escolhemos uma duna num canto na noite, eu estendo o cobertor vermelho, deitamo-nos a ouvir as estrelas e a ver o barulho do mar nas nossas bocas e percebo que naquela se fez magia. Alguém tinha estado ali antes de nós, tenho a certeza, e tinha pintado aquelas estrelas, e a areia e o mar, e pintou-te a ti também, pois era tudo tão perfeito, que temi que este romance não fosse real. Mas o que eu não sabia é que o pintor tinha mais uma tela, e te pintou um embrulho que me dás para a mão e dizes: isso não é para ti, é para nós usarmos. E desembrulho dois flutes vermelhos em vidro tosco, e vejo surgir da paleta uma garrafa de Moe Chandom. Não digo nada. Ficamos nos olhos um do outro a brindar aquela noite, e quase que me esqueço do bouquet. Esse bouquet que não é de flores. Esse chocolate que te ponho na boca, é feito da magia desta noite, e este que derrete na minha, és tu, chocolatinho. E se eu desenhasse uma música, esta noite, as notas eram as estrelas que saltitavam a cada onda do mar e se afundavam na areia para desaparecerem no Champanhe, num refrão de chocolate. E em arrepios de frio, abraçamo-nos, fechamos os olhos escondidos neste cobertor e quase que conseguimos ouvir essa musica. E também ouvimos a voz do homem que aparece não sabemos muito bem de onde e que admirado de nos ver ali, aquela hora a comer bombons e a beber champanhe, e sem perceber nada nos pergunta qualquer coisa que também nós não percebemos, mas respondemos-lhe que não, e que deve ser muito longe dali. E não sabia eu, que muito longe dali havia mais surpresas, uma janela em postal onde vejo esse coração vermelho que espanta todos os espíritos à janela do meu quarto, depois de um ano. E antes do frio apertar, e o teu corpo começar também a arrefecer e já não conseguir aquecer o meu, e antes de irmos pendurar o coração, fecho os olhos, ouço o mar, vejo as estrelas, sinto a tua mão, e sei que sou feliz. Tu olhas-me entre dois bombons e perguntas-me: e então, queres namorar comigo? E eu beijo-te que sim. Que sim. Sim. O que esperavas que te respondesse? O que é que se responde quando se está deitado na praia à meia-noite do dia de São Valentim, a ouvir o mar, a ver as estrelas, a comer bombons de chocolate e a beber Moe Chandom? Se te dissesse que não, no mínimo deixavas-me ali na praia deserta ao frio, pegavas no carro e ias-te embora para sempre. Mas para sempre quero eu ficar contigo, e vamos no bom caminho porque já estamos juntos à um ano e a tua rosa está em água para não desmanchar o arranjo, o poema no postal, os chocolates da Godiva no saco, e o restaurante à nossa espera. E quando for quase meia-noite deste ano, vou-te dizer que sim, que então, ainda quero namorar contigo.
ao meu chocolatinho
escrito em 11.05.07

20.7.09

MILKA, A VACA QUE DÁ CHOCOLATES!


"Temos de passar a correr em minha casa, esqueci-me de uma coisa! Não te posso dizer o que é! É surpresa!”

Assim que acordei, pus na aparelhagem o primeiro cd da Madonna de 1982 com a música HOLIDAY, bem alto. Toda a vizinhança tem de saber que estou de férias! Estou feliz e gosto de partilhar a minha felicidade! Fomos comprar umas t-shirts à última da hora. Tu, porque disseste que precisavas MESMO de umas t-shirts, e eu, aproveitei a onda e comprei não-sei-quantas! Estavas na fila para pagar e fui ter contigo, colocando no balcão as minhas mais recentes não-sei-quantas t-shirts. O funcionário olha para ti muito sério:


“tá?”

“Está!”


Olha-me este a querer conversa, pensei eu! Claro que está! Mas que raio de código morse é este? Desde quanto é que eu preciso de autorização monossilábica, para passar à frente da fila toda e ir pagar ao mesmo tempo que o meu namorado? Não me quero irritar! Estou de férias e vamos hoje para o Funchal! Daqui a 4horas já estaremos dentro do avião. É a primeira vez que vamos passar férias juntos e estamos os dois excitadissimos! Vamos para o Free Shop passear e experimentar perfumes. Estou tão feliz que me apetece comprar tudo. Compro uma t-shirt que diz “SEX INSTRUCTUR- first lesson free”. E não resisto a comprar uns chocolates. Mas a oferta é tanta que me dificulta a escolha e MUITO. Pareço uma criança a olhar para tanta marca de chocolate. Mas porque é que só têm embalagens tão grandes? Nunca percebi porque é que no Free Shop se vendem os chocolates em embalagens industriais. Será que todos os passageiros são considerados hiper gulosos ou quando viajamos passamos a depender exageradamente de chocolate? Queria comprar uma embalagem mais pequena! Mas que chatice! Não me vou irritar, afinal estou de férias! Compro uma mega embalagem de mini Tablerones que fomos comendo enquanto esperávamos pelo bording. Fizeste olhinhos de carneirinho mal morto quando olhaste a vaquinha da Milka e não resisti em oferecê-la, recheada de chocolates. Vai ficar a sorri no quarto abraçada ao Snoopy! Porque é que nas férias nos tornamos nuns compradores compulsivos? Quem é que disse que a alegria das férias se festeja a gastar o dinheiro que passamos o ano todo a poupar? Mas eu não resisto em te oferecer o peluche quando vejo esses olhinhos. Estou tão feliz por estar contigo e por irmos de férias juntos que se pudesse te oferecia uma vaca Milka em tamanho real para ficar lá em casa. Claro que ou era o sofá ou a vaca, alguma coisa tinha de sair, que a casa é pequena, mas eu sei que tu escolherias a vaca. E assim teríamos chocolates o ano todo. Sim, porque se as galinhas dão ovos de ouro, as vacas dão chocolates! Como quero ter tudo aquilo a que tenho direito, vamos buscar as revistas todas que nos pertencem! Quando finamente chegamos à Gate, estou a morrer de sede. Afinal ainda não parei de comer Tablerones e Milka, a vaca que dá chocolates! Meto uma moeda na máquina e compro uma garrafa de água! Impressão minha ou aqui no aeroporto é tudo muito mais caro? Não quero saber, estou de férias! Finalmente no avião olho para ti.

“Sim, podes ir tu à janela!”

Comigo tu podes fazer tudo aquilo que quiseres. Até podes ir deitado no meu colo o voo todo se o quiseres. É tão bom poder viajar contigo. Sei dentro de mim que esta é apenas a primeira de muitas viagens que faremos juntos. Vamos conhecer a Madeira toda. Queríamos ir também a Porto Santo, mas fica para o ano que vem! Dou-te a mão, olho para as nuvens e umas horas depois estamos no nosso quarto com vista para o mar azul. Azul como a Milka, a vaca que nos dá chocolates. Compro-te chocolates, e compramos bilhetes de avião, e t-shirts absurdas, e um jantar caríssimo na Marina do Funchal, porque na primeira noite estamos perdidos e não conhecemos nada. Mas não me importo de parecer um típico gastador compulsivo de férias, porque estou contigo, estou feliz e nós merecemos tudo. Lembraste? Foi há um ano atrás? Hoje estamos novamente de férias e cumprindo a promessa, vamos apanhar o avião para Porto Santo! Achas que a Milka, a vaca que dá chocolates está à nossa espera no aeroporto?


.(ao meu chocolatinho)

escrito 06.06.2007

19.7.09

O TEU OLHAR



Quando te conheci, olhei para ti, e tu olhaste para mim. Eu vi-te, mas hoje percebo que tu não me viste. Pelo menos não me viste da mesma maneira que eu te vi a ti. Mas viste algo que eu não vi. Viste a minha luz por dentro. Viste-me a mim. Como naquela noite em que passeámos juntos naquela praia. Viste-me a mim. E eu não me via. Mas tu ensinaste-me a olhar para mim. Ensinaste-me a gostar de mim, ensinaste-me a ver-me. E hoje vejo-me. Vejo-me porque tu me ensinaste a ver. E eu vi-te como alguém perfeito cuja calma e o sorriso declaram sempre paz. E eu vi-te com os olhos mais doces que eu já conheci. E eu vi-te com o olhar mais terno. E eu não sabia que tu não vias o mesmo que eu. Estávamos a ouvir aquela música da Bjork e eu pensei: “e se tu um dia deixares de ver completamente?” E não me respondi. Não sabia o que responder. O que se responde? Quando te conheci, olhei para ti, e tu olhaste para mim. Eu vi-te, mas hoje percebo que tu não me viste. Viste uma imagem desfocada. Olho para os teus olhos e parecem-me tão vivos, tão cheios de brilho. Olho para os teus olhos e vejo-os tão iguais aos meus. Não vejo qualquer diferença. Os teus olhos são iguais aos meus. A mesma cor, o mesmo brilho. Como podem não ver o mesmo? Não consigo imaginar o que estejas a ver. Não imagino sequer o que seja olhares para mim e veres a minha imagem desfocada. Às vezes tapo os meus olhos para imaginar o que tu vês. Mas não é a mesma coisa. Porque quando eu quiser posso voltar a destapá-los, e tu não. Porque se eu quiser posso focar a imagem que vejo. E tu não. Quando os meus olhos olham os teus olhos, eu vejo-te a ti e talvez tu não me consigas ver a mim. Quando te conheci, olhei para ti, e tu olhaste para mim. Eu vi-te, mas hoje percebo que tu um dia poderás não me ver. Tenho medo que um dia não possa dizer: “ vês, ali, aquela árvore tão grande!” porque nessa altura poderás não ver, e o “grande” será relativo à memória que ainda guardas de dimensão. Tenho tanto medo que um dia abras a janela e não vejas o sol. E que nesse dia seja noite para sempre. Mas eu vou acender-te a luz tal como tu um dia acendeste a minha. Porque eu estarei lá, contigo. Mesmo que um dia para ti seja escuro, eu estarei lá. Descrevo-te as pessoas a passar, a roupa delas, um menino que deixou cair o gelado, o velhote que vende cautelas, a rapariga que passeia o cão, o rapaz que pede um cigarro e uma moeda. E ouves todos estes sons. E o teu mundo será feito de sons. E será feito também da minha voz. Porque a minha voz estará lá sempre. Mesmo que um dia seja escuro, a minha voz está lá. A minha voz será os teus olhos. E os meus olhos serão os teus olhos. E se tu um dia deixares de ver, eu vejo por ti. Tal como no início tu viste por mim. Tu que vês tão mal ensinaste-me a ver tão bem. Como é que alguém que vê tão mal pode ensinar alguém a ver tão bem? Talvez seja esse o teu dom. O dom de ver, mas por dentro. Talvez seja isso. Viste a minha imagem desfocada, e isso fez-te olhar para dentro de mim e não te prenderes apenas a uma imagem. Porque afinal trata-se apenas de uma imagem. E agora percebo que tu vês muito mais com um olho do que as outras pessoas vêem com dois. Agora eu sei que não irás nunca precisar que eu te descreva as pessoas a passar e o barulho das árvores, e o som da chuva, porque tu vês muito mais do que eu. Vou deixar de ter medo que tu um dia deixes de ver. Porque eu sei que aquilo que tu vês, ninguém vê. E vou deixar de ter medo que um dia quando os teus olhos olharem os meus já não os vejam, porque eu sei que tu conheces a cor dos meus olhos, o brilho deles, e conheces de cor a maneira como os meus olhos olham os teus. Quando te conheci, olhei para ti, e tu olhaste para mim. Eu vi-te, mas hoje percebo o teu olhar.

(ao meu chocolatinho)

escrito a 29.07.2007

THE BEAUTY AND THE DATE




Hoje vamos oficialmente sair juntos. Quer dizer, não será bem oficialmente, porque será às escondidas, e ele não sabe. Mas será a nossa primeira saída a sério, juntos. É o nosso primeiro verdadeiro encontro, mas às escondidas. Como os americanos dizem “a date”. Tonight I haver a date. Dei-te a certeza de que ia ter contigo às 20h, de maneira que é melhor despachar-me, não quero chegar “leite” ao date! Já desliguei o telemóvel, e na ponta da língua está já colada “Fiquei sem bateria, e adormeci no sofá, a ver televisão!” para quando ele amanha me fizer o interrogatório diário. Mas eu não quero saber dele, nem dos interrogatórios, nem das prisões. Talvez se ele não me tivesse prendido tanto, eu hoje não tinha tanta necessidade de fugir. Fujo até ao Chiado à procura de alguém que me salve de tudo isto, e sobretudo de dele. O sobretudo, continua preto, deve ser tradição, mas hoje é a minha vez. Não tão comprido como o teu, mas com uma vontade imensa de te ver depois deste tempo todo. Combinamos na estátua do Camões, às 20h. E exactamente à hora marcada, estou literalmente em pé no último degrau da estátua. Vejo-te ao longe. Lindo. Caminhas, numa elegância aparentemente calma. Mas só aparente, pois os teus olhos vibram e espelham um forte abraço, de quem quer esmagar o meu corpo contra o teu, e permanecermos assim toda a noite, fundidos um no outro, a fingirmos que a realidade não existe e que tudo nos é permitido. O teu sorriso pinta-te a cara de todas as cores e quase te faz voar até à estátua e pegar na minha mão. E eu penso, quero que todos os nossos encontros sejam tão mágicos como este nosso primeiro encontro. Olhamo-nos. Ficamos parados a olharmo-nos com cara de parvos e a sorrir. Levas-me a um restaurante Indiano, ali no Bairro Alto, e sentados num tinto óptimo, começamos como que a falar. Provavelmente devemos estar a falar, as nossas bocas mexem-se, temos quase a certeza que por cima da Chiken Masala ecoa um som, acompanhado ao ritmo da gesticulação das nossas mãos. Mas os nossos olhos fundem-se. Cruzam-se e faíscam. Existe uma luz, um brilho tão intenso que daria para iluminar toda a cidade. Parece que alguém faz uma semana depois a árvore de Natal, mas que coloca a estrela no topo da nossa mesa. E uma semana depois da consoada, este jantar é o nosso presente de Natal. Não sabemos os que dizemos. Parece que é a primeira vez que estamos juntos e soltamos em liberdade palavras e frases nem nexo, mas que preenchem a mesa do jantar. Estarmos aqui, finalmente juntos, já tem nexo suficiente, as palavras não importam. O sentido somos nós e os nossos olhos, que de seguida vão olhar o écran de cinema num escuro aconchegante. Mas antes levas-me a tua casa. É no teu sofá cor-de-laranja que finalmente nos abraçamos e damos o nosso tão esperado beijo. Adorei conhecer a tua casa. Adorei estar nos teus braços, nesse sofá que ainda há-de marcar as nossas vidas. Continuamos sentados, mas agora não estamos abraçados, mas é como se estivéssemos. É um filme com a Sarah Jessica Parker, que nos faz rir das mesmas piadas, soltar uma lágrima contida e envergonhada, e apertar as mãos um do outro, como se nunca mais nos quiséssemos largar. Talvez a magia desta noite esteja na efemeridade de tudo isto, e vivemos cada segundo como se fosse o último, pois tememos não nos voltarmos a ver, ou pelo menos desconhecemos a data de um próximo date. Estar contigo no cinema, e ambos somos apaixonados por cinema, deitar a cabeça no teu ombro, dar-te a mão, olhar para ti de soslaio numa cena mais calma ou mais escura, ouvir a tua gargalhada colar-se à minha, sentir a tua mão apertar a minha com mais força numa cena mais romântica, parece tudo tão perfeito, que não consigo distinguir se sou eu que estou no cinema, ou se é a Sarah Jessica Parker que está aqui sentada a ver um filme de um sonho perfeito num écran apaixonado de duas pessoas que temem não voltarem a verem-se. Levas-me a casa. Estacionas do outro lado do prédio. O silencio penumbra o teu carro. A hora da despedida é sempre a mais cruel do relógio. O nosso até já, pode tornar-se num até sempre e um medo terrível invade-nos. As minhas lágrimas dizem-te que te quero muito, mas não desta maneira proibida, às escondidas. Ainda me sinto numa prisão, e é preciso primeiro libertar-me dela para poder deitar-me finalmente no teu peito e adormecer, sem sentir culpa. Tu entendes. Tu entendes sempre tudo. Foste tu que criaste a compreensão. Entro em casa e só penso em ti. Penso que quando eu menos esperava, o sonho de criança se materializou em ti e nesta noite. És tu a imagem dos meus sonhos e criações imaginárias de adolescente. Mas será no tempo errado? Ou não existirá erro, e o sentido de tudo isto, é causa-efeito, ou depois da tempestade vem a bonança, e é preciso um príncipe para nos mostrar que nos podemos libertar das garras de um beast do alto da masmorra, para que beauty posso viver o grande amor da minha vida, que és tu?


(ao chocolatinho)
27-02 - 07

O LUAR, O MAR E NÓS



E um dia tu telefonas-me. Era uma sexta à noite. Eu estava em minha casa, na solidão do meu sofá azul. Eu tinha-te dito uma vez numa mensagem que um dia ia dia passear à noite à beira-mar com alguém especial. Tu, como um verdadeiro príncipe, disseste-me que gostarias de me realizar esse sonho. Tive algum medo quando o disseste. Tenho a certeza que esse tal alguém especial de que eu estava a falar, sem eu saber, eras tu. Mas existia um pequeno pormenor que não permitia a este encontro a perfeição de um filme cor-de-rosa ao fim de tarde de sábado. O meu namorado. Ali estava eu sem saber o que fazer. Ele não estava comigo, para variar. Desta vez estava de fim-de-semana em casa dos pais. Quando não era trabalho, era a casa dos pais. Quando não era ir aos pais, era ir ao Porto, a trabalho. Incrivelmente nessa noite lembrou-se – estranho milagre assombrava os arredores de Lisboa – de me ligar a desejar uma boa noite. Como se fosse possível ter uma boa noite neste sofá azul solitário, quando a pessoa que nos pediu em namoro hà um ano atrás nem sequer faz um esforço para fingir que tem saudades e se esqueceu do meu aniversario, e pela noite numa pizza manhosa aquecida no microondas lá diz: hoje fazes anos, não é? Parabéns. Digo-lhe que me vou deitar e desligo o telemóvel. A tremer aceito o teu convite. Perto da meia-noite estacionas o carro à minha porta. Desço e deparo-me com o mesmo sobretudo preto, alto, comprido e entroncado de barba de três dias. Depois de tanto tempo voltámo-nos a ver. O cavaleiro andante de sobretudo preto vinha-me buscar às masmorras da minha solidão para uma noite de sonho. Demasiado irreal para ser possível? Troco o sofá azul pelo teu carro. E ali estamos nós. Sorris uma calma tão doce que me apetece deitar no teu calo, aninhar-me e adormecer nesse sorriso. Eu estava dentro do teu carro. Nós os dois a partilharmos um pequeno espaço apertado, que nos empurra um para muito perto do outro. Respiro fundo. Estamos os dois nervosos. Eu sento-me como que uma espécie de adolescente em ebulição, que coloca almofadas na cama a simular um corpo, e que salta às escondidas pela janela, para um encontro proibido. Isto era mais do que proibido. Se chegasse à cama dele a noticia de que estou aqui contigo, ele rapidamente se lembrava que eu existia – talvez pela primeira vez no nosso namoro – e logo tratava de me avisar que te mandava partir as pernas. Como era seu costume ameaçar toda a gente. Isto porque já deve ter percebido que os seus insultos quotidianos já não fazem efeito, não por eu ter descoberto qualquer vacina, mas por terem entrado em rotina. Mas eu não queria saber nada disso. Nem se ele ia descobrir ou se eu ia sentir culpa. Culpa de quê? De caminhar na praia? Nunca li em lado nenhum que é crime passear na praia. Sim, é de noite, e sim, vou contigo. Mas é exactamente isso que torna a noite tão mágica e tão especial. Se o tempo parasse, queria que o bloqueio fosse nesta noite, aqui nesta praia. Caminhamos contra o escuro à procura de umas pequenas estrelas coladas estrategicamente a nossa frente. Temos um imenso painel perfeito à nossa volta e estamos envolvidos nesse cenário brilhante e misterioso. Passeamos abraçados à beira-mar. Tu colocas o teu braço à volta dos meus ombros e eu encaixo o meu na tua cintura. Não teria coragem de o colocar discretamente no bolso detrás dos teus jeans, por isso ainda bem que vens de sobretudo. Caminhamos tanto nessa areia e esse sobretudo fica-te tão bem. Ficas misterioso, elegante. Belo. Será que é isto que se diz quando alguém se sente apaixonado? Estávamos completamente sozinhos. Não existia linha do horizonte. E nós não tínhamos destino. O nosso único propósito era aproveitar o melhor possível, este nosso passeio ao luar. Do nosso lado direito estava o mar. As ondas de água abençoavam o nosso encontro. Havia uma magia nessa noite, nessa praia, nesse mar, que a melhor das fadas não conseguia compreender. O teu corpo quente abraçado ao meu. O teu braço forte a proteger-me. O teu cheiro. O som das ondas era a música que nos fez por uma noite levitar. Desabafei contigo. Chorei. Falei-te que vivia uma relação já morta, e que eu esticava um pouco mais a corda na inocente esperança de aquilo se vir a tornar em qualquer coisa. Desprovida de qualquer romance, paixão ou emoção. Que os meus dias nasciam gastos e anoiteciam sem qualquer sabor. Mas que temia desistir. Apenas porque não me dava bem com esse verbo. E tu, como o verdadeiro cavalheiro que és, não comentaste. Poderias ter dito: “Estás assim porque queres. Larga-o. Eu estou aqui à espera que me dês a oportunidade de te fazer verdadeiramente feliz!” E estavas. Mas não. Não disseste nada. Mordeste o lábio e ficaste em silêncio. Nunca te pronunciaste sobre ele. Sabias que me amavas, mas amavas-me em silêncio. E aceitavas. Nunca pisaste o risco. Nunca tentaste fazer nada que eu não quisesse. E disse-te, que por mais que me apetecesse beijar-te, e aquele era o cenário perfeito para aquele que seria o nosso primeiro verdadeiro beijo, eu não o poderia fazer. E tu percebeste. Eu tinha um compromisso e não ia traí-lo. Apesar de saber que esse compromisso não tinha qualquer validade, e que estava mais do que caducado, senão eu não estaria ali. E cumpri a minha palavra de honra e não traí. E o mar foi minha testemunha. E não te beijei. Mas o importante não era o beijo em si, ou a falta dele, mas a emoção de estar ali, contigo. Nós os dois, à noite, a passear abraçados à beira-mar. O cenário magicamente perfeito e romântico, mas sem um beijo. E o importante a reflectir, é que eu tinha aceite o teu convite, e procurado a tua companhia, porque algo não estava bem na minha relação. Aliás, estava tudo errado. E quando alguém procura alguma coisa, a questão a perceber é: o que é que lhe falta! Infelizmente muitos apegam-se ao orgulho ferido de uma suposta traição – se é que esta noite se pode considerar traição, não penso que não – e esquecem-se de tentar perceber a origem do problema. E a origem do problema era ele, e o modo como me destratava. E isso é que era necessário ser resolvido. Esta noite não era o problema mas uma consequência do mesmo. Mas ele nunca se debruçou sobre isso. Nunca se questionou se me faltava alguma coisa e se me a poderia dar. Ele queria lá saber do romance. Ele jamais passeou comigo na praia à noite. Alias, nem sequer de dia. Quando me deitei, não conseguia deixar de pensar em ti e na noite perfeita que tinha tido ao teu lado, apesar de não ter sentido os teus lábios. Só mesmo alguém muito especial e muito sensível para me fazer viver uma noite assim sem ter tido em troca um beijo. Sabemos que termos sempre o luar à nossa espera, e o mar será nossa testemunha. E pensei, se eu ficasse contigo, seria sempre assim?

(ao meu chocolatinho)
escrito em 11.09.2006

18.7.09

NUM ALGODÃO DOCE COR-DE-LARANJA





Estás deitado na tua cama. Há quanto tempo estás deitado nesta cama? Não sabes. Mas hoje, este pequeno cor-de-laranja parece ter um outro brilho. Hoje, a cama parece mais pequena. Todas as noites, a cama parece-te tão grande. Ficas perdido numa grande cama cor-de-laranja. Mas hoje, esta cor, mudou de cor. Trazes contigo os meus olhos doces e deixas pintar toda a casa com o meu olhar que guardas em ti. Sabes que um dia eu me vou deitar nesta cama, aqui mesmo ao teu lado. Vou deitar a minha cabeça no teu peito, e vou dar-te um beijo de boa noite, e será um adormecer terno em algodão doce cor-de-laranja. Quando viste o meu olhar, sentiste que era eu. Ficaste por mim. Temeste não voltar a ver-me, e por isso ficaste disfarçadamente a contemplar os meus olhos doces. Os meus olhos tristes a pedirem colo. Tu dás-me colo. Vem. Vem para mim, pensas. Deita-te aqui ao meu lado. Vejo-te aqui na minha cama, como nesse dia me vi a mim mesmo deitado na tua, dizes. E que um dia eu irei dormir nessa cama, abraçado a ti. E pedes a Deus que me leve para a tua vida. Pedes-lhe todas as noites. Deitado no cor-de-laranja da tua cama, pedes-lhe. Perguntas-te se eu penso em ti. Pensas em mim? Viste os meus olhos a olharem os teus? Percebeste o meu olhar? Percebeste que entraste em mim e que jamais irás sair? Perguntas muitas coisas e tens-me dentro de ti. Sabes que eu penso que não olhaste para mim. Mas olhaste. Olhaste e viste os meus olhos doces. É assim que os chamas. É assim que me chamas. Sabes que penso que não falaste comigo, mas falaste. Talvez eu não te tenha ouvido, mas falaste muito mais do que eu possa imaginar. Mas não podias dize-lo por palavras. Era-te proibido. Tal como te é proibido quereres-me, sonhar-me. Não querias que ele desconfiasse que desejas fundir-te em mim e trazer-me para a tua vida. Por isso fingiste não me ver. Mas tu viste-me. Viste tudo. Viste que eu não estava feliz. Viste que preciso urgentemente de colo. E viste que estás aqui, de braços abertos, à minha espera. E pedes a Deus que me traga para a tua vida. Pedes-lhe todas as noites. Sabes que te é proibido amar-me. Mas também sabes que vivo na tortura de alguém, que não me faz sorrir. Eu não sorri uma única vez. Deixa-me ensinar-te a sorrir, pensas. Eu seguro na tua boca com as minhas próprias mãos. Moldo-te um sorriso feliz e seguro nas pontas da tua boca até elas terem vida própria e esse sorriso nunca mais sair de ti. Tens uns olhos doces de criança frágil. Eu dou-te colo. Sento-te no meu sofá cor-de-laranja, dou-te pipocas à boca enquanto rimos beijos a noite inteira. Podemos até adormecer cobertos de pipocas. E as pipocas serão cor-de-laranja, de um alaranjado doce neste algodão. Depois levo-te ao colo, nos meus braços, bem perto do meu peito, até ao outro algodão doce, a minha cama. Dizes tu baixinho na tua cama cor-de-laranja. Vês, como te desenho eternas noites de paz? É proibido pensar em ti? É proibido sentir o meu peito ofegante e um brilho nos olhos que me traz os catorze anos, cada vez que penso em ti? Perguntaste. Talvez seja proibido. Mas amar não pode ser proibido. Desenhares-me um sorriso não pode ser proibido. E a lei que não te permite aproximar de mim, não será mais forte que a lei que me permite ser feliz. E sabes que a minha felicidade é ao teu lado. Porque sabes, que a tua felicidade é ao meu lado. E hoje, que sabes, não vais desistir. Não vais desistir de mim. Não vais desistir daquilo que sentes. Vais lutar por mim. Vais lutar por mim. E sabes que lutas por um “nós” que se há-de aproximar. Tu nunca vais desistir. Ouves-me? Eu nunca vou desistir de ti. E peço a Deus que te traga para a minha vida. Peço-lhe todas as noites. E deito a cabeça nesta almofada, e abraço-me a esta outra, esperando o dia em que me possa abraçar a ti. E adormeço nos teus olhos, e percebo que foi essa mesma doçura, que transformou o meu sofá, a minha cama, a minha vida, num eterno e fofo algodão doce cor-de-laranja, pensas tu enquanto adormeces abraçado a essa grande almofada cor-de-laranja.




(ao meu chocolatinho)



escrito dia 21.08.2007

17.7.09

NUM GRANDE CENARIO DE PAPELAO




Um dia acordas de manhã e percebes que perdeste tudo. Perdeste o comboio, perdeste as horas, perdeste o tempo, perdeste a tua vida, perdeste os teus sonhos, perdeste até a única e grande oportunidade de seres feliz. E perdeste o amor. É de manhã mas é como se fosse noite. O sol já não existe e não tem qualquer importância. Olhas para a janela e é como se tivesse sido invadida por uma cor estranha que não consegues decifrar e que talvez nem sequer exista. Porque lá fora já não existe nada. Essa janela de que falas, é apenas cenário de cartão, numa parede falsa que te mostra uma fotografia mal tirada daquilo que tu sonhaste que poderia ser a realidade. Pensas que nem sequer vale a pena levantares-te do sítio onde estás e tentares tocar-lhe porque vais cair num vazio mais profundo do que aquele onde estás. Então não te mexas. Não faças absolutamente nada. Se é nisso em que acreditas, fica nesse buraco absurdo que tu construíste e de onde já não te consegues levantar e não faças nada. Já nem sequer existe nada a fazer porque as tuas pernas também não se querem mexer. Talvez nem sequer sejam pernas. Talvez sejam pedaços de um manequim de roupa em exposição com restos de uma colecção passada em cheiros de naftalina e suor, carcomidos por bichos e pelo tempo. E apercebes-te que a realidade, afinal não existe. Tudo não passa de um grande cenário mal construído. E até tu talvez não estejas aí. E agora? Essa crucial pergunta que separa o passado do futuro e tenta por em causa um presente. E agora? Levantas-te e tentas rasgar o cenário e caminhar até encontrares uma pedra por mais pequena e sozinha que seja, para começares a construir uma realidade. E se nunca chegares a encontrar uma pedra? A estrada dos tijolos amarelos foi pintada noutro sítio. E se não existirem pedras? E se essa estrada não existir? E se não existir nada? E se de facto já nada for possível? A Dorothy estava apenas a sonhar ou tinha tomado demasiados calmantes. Então deixa-te estar para aí deitado nesse buraco que tu construíste ou que algum cenógrafo construiu para ti. Porque até esse buraco vai desaparecer um dia. Porque o papel desfaz-se. Tudo se desfaz e se torna num imenso nada. E aí, vais tentar olhar essa janela da fotografia com uma cor que não consegues decifrar, e já não existirá janela. Já não existirá nada. Todo o cenário foi convertido em pó. E um dia apercebes-te que é tarde demais. Que tudo acabou. Que até o cenário falso se desfez e foi transformado num outro cenário para outros personagens. Porque tudo é cíclico. E voltamos sempre ao mesmo. Mas a mesma cena não é filmada duas vezes. Aproveita o cenário enquanto o tens, pois depois de dizerem: “corta” acabou a tua cena, a tua oportunidade e nem sequer resta a esperança de tornar esse cenário realidade, como que por um golpe de magia ou por trabalho árduo de esperança e luta. Vais continuar aí deitado? Ainda aí estás? Esperas o quê? Um sinal? Que te toquem à campainha e te digam: cheguei, sou eu, a realidade! Vim-te buscar! Então deixa-te aí estar à espera. Quando a campaínha ensurdecer ou tu próprio entrares num estado de decomposição zombie, já nada terá importância. Mas o que fazer? E agora? Outra vez essa pergunta? Essa pergunta, para a qual desconheço resposta, caso contrario não estaria aqui. E agora? E agora só tens de decidir se queres continuar nesse buraco ou se ainda te resta uma esperança de tentar demover esse cenário de papelão mal construído, e tentares primeiro derruba-lo e segundo, ir devagarinho encontrando pedras verdadeiras, amarelas ou de uma outra cor qualquer, que a pouco e pouco o transformem na realidade que sempre sonhaste para ti. E se nunca chegares a conseguir, pelo menos tentaste. Não te esqueças disso. Nem que morras a tentar. Segue o meu conselho. Talvez o comboio ainda passe outra vez. E quando entrares iras perceber que afinal era o teu relógio que estava mal sincronizado. E lá ao fundo estará alguém com uma caixa-surpresa para ti. A caixa dos teus sonhos. E essa caixa não será de papelão, nem será apenas um adereço. Será a possibilidade de seres feliz de verdade. E agora? Só te resta tentar.

(ao meu chocolatinho)

escrito em 10.09.2006


CONICA DO GRILO E DA AREIA



Quando me levantei sentia que o chão me estava a fugir dos pés. Como se a cada passo que desse sentisse o solo a tremer, prevendo a qualquer momento que a madeira toda estalasse e todo o prédio desabasse mesmo ali diante dos meus pés. É a mesma sensação de que quando tentamos agarrar areia com as mãos. É impossível. Ela esvai-se. Existem coisas assim na vida. Que são como areia. Queremos agarrá-las, mas não é possível. E parece que por mais que tentemos ou arranjemos soluções e estratagemas para que fiquem na nossa mão, vemo-las escorregar por entre os dedos. Assim são as relações. Às vezes parece que a única maneira que temos de as segurar é pegar numa pequena caixinha e guardar a areia lá dentro. Mas isso seria prender uma relação à nossa disponibilidade, à nossa vontade. Seria como prender um grilo numa caixinha de fósforos. Quantas vezes em criança não guardámos grilos em pequenas caixas de fósforos coloridas, e sem percebermos porquê um dia abrimos a caixa e o grilo não está lá? Não entendemos porquê. Porque temos a certeza que fizemos tudo o que podíamos, o que devíamos, e que o fizemos bem feito, mas o grilo arranjou uma maneira de nos escapar. Porque o grilo não nos pertencia, nem nos queria pertencer. Todas as pessoas são livres, mesmo aquelas que prescindem da sua própria liberdade. Um dia vão reclamá-la. E quando confrontadas com a falta dela, apenas um objectivo de se torna como meta: o de se libertarem. Podemos esperar que o grilo volte. Podemos por uma canção perto da caixa, uma luz de uma vela, prometer-lhe que a caixa vai ficar sempre aberta e que não vai ficar aprisionado a nós, mas com a escolha de entrar e sair pela sua vontade. Podemos fazer tudo. Mas também temos de aceitar que um dia a caixa pode ficar vazia para sempre. E não vale a pena substituir o grilo, porque tal como tudo e como todos, os grilos são insubstituíveis. Então o que faz o chão ganhar novamente estabilidade para se caminhar? A esperança? A honestidade? A pureza de sentimentos? Não esperar nada e aceitar simplesmente as dádivas da vida e do amor? E às vezes percebemos que afinal era tão simples. Estava mesmo ali ao lado e não nos demos conta. Olhamos a nossa mão e ficaram perdidos alguns grãos de areia. A areia afinal não escorregou toda. Alguns grãos ficaram na nossa mão e esses são preciosos. Ficaram porque queriam ficar. Ficaram porque tinham de ficar. E quando nos apercebemos que afinal temos nas mãos uma preciosidade é importante cuidá-la, porque as preciosidades são raras e devem ser cuidadas como uma borboleta, como um malmequer ou como uma música. E se cuidarmos, e não pedirmos nada, numa entrega absoluta de silêncio e dedicação, percebemos que por mais que lavemos as mãos, encontramos sempre um grão de areia colado. Aí podemos abrir a janela e ver que a borboleta se passeia pela nossa janela enquanto as pétalas do malmequer sorriem para o sol ao som da música. Claro que tudo isto dá muito trabalho. Mas nada se faz com muito esforço e as certezas absolutas não existem, muito menos a curto prazo. Mas se eu não te pedir nada em troca, se te der num silêncio puro de esperança, se te trouxer a água e o sol, se te prometer que nem sequer haverá caixa, porque o teu espaço no meu coração é do tamanho que tu quiseres ocupar, ficas comigo? E um dia, como que por magia, a areia que estava nas nossas mãos, e que tinha acabado de escorregar, volta a subir novamente. E nesse dia de milagre da natureza, sabemos que podemos caminhar novamente sem temer o próximo passo, pois sabemos que percorremos um caminho sólido sustentado pelo amor.
(ao meu chocolatinho)
escrito 10.09.2006

16.7.09

A NOSSA REDE CORDELARANJA



Está um passarinho mesmo na minha janela a cantar. As janelas todas abertas. Uma luz irradiante dum sol que me sorri, entra pelo quarto. Ontem atei um lenço que comprei, à tua cabeça e disseste: “É assim que eu me imagino! Numa cabana, com um lenço!” Eu sei. E sonho com o dia em que possamos abandonar tudo isto e viajamos para essa praia. Não existirá nem tempo, nem horas e o mar será todo nosso. Acordamos de manhã e vemos o mar. Caminhamos à beira mar depois de eu ter feito sumo natural de laranja com maçã. Tu ensinas-me a nadar. Subo às árvores para apanhar um coco, eu que não gosto nem do cheiro do coco, mas tem de ser feito. E tu dizes com esse teu sorriso perfeito e esses olhos meigos que tu tens: “Pareces mesmo uma criança!” Pareço, e sou. E ao teu lado não tenho medo de o ser. Ao teu lado não tenho medo de nada. Nem da criança espontânea que salta aos gritos de dentro de mim, que se esquece de tudo em todo o lado, e que diz que tu estás com “gripe interna”, o que te faz rir desalmadamente. Sei que te divirto. Sei, porque tu me fazes feliz. E nessa cabana, onde tu me vais ensinar a gostar de comer peixe, deitamo-nos na rede cor de laranja, que eu ainda não consegui pendurar na nova casa, por ser demasiado pequena – o que é uma chatice pois logo eu que sempre quis ter uma rede – e adormecemos abraçados enquanto eu te canto uma canção de embalar. Pode não ser uma canção mesmo de embalar, pode até ser uma canção qualquer, escolhe tu, mas cantada ali na rede, contigo, será a mais perfeita canção de embalar. Porque o que o que dá sentido às coisas não são mesmo as coisas, mas o contexto que está à volta delas. E essa rede cor de laranja embala-nos num sono tranquilo. Eu vou deixar crescer os meus caracóis para tu dizeres “menino dos caracolinhos!” e vou oferecer-te muitas calças de linho branco. E nas árvores mesmo à volta da nossa cabana, muitos pássaros vão cantar. Vão cantar para nós. Vão cantar uma canção qualquer, qualquer que seja, não importa, porque cantada ali para nós, será uma canção perfeita numa magia paradisíaca nessa ilha de luz e cor. Não precisamos de nada, temo-nos um ao outro. Nem de cama vamos precisar, temos a nossa rede cor de laranja para dormirmos abraçados. E realmente não precisamos mesmo de muito espaço porque dormimos a noite toda colados e agarrados. Como almas gémeas. Como corpos que nunca se querem separar. Como duas crianças que caminham de mão-dada num jardim de malmequeres e amores-perfeitos e nunca querem largar as mãos. E hoje que olho esta janela pintada de uma luz que me enche o coração e me faz suspirar, penso que tenho de conseguir pendurar a rede, mesmo aqui no quarto, para podermos começar a sonhar com esses momentos na ilha o mais depressa possível. Pois acredito que quanto mais depressa sonhamos os momentos, mais rapidamente eles acontecem. E vou sonhar muitos momentos contigo. Porque me trazes paz. Quando comprei essa rede à três anos atrás, não sabia eu que era contigo que a queria dividir. Ou se calhar sabia, mas não sabia que sabia. Porque partilhar uma rede com alguém é partilhar o mundo, o amor, um pássaro que canta, ver o céu e as estrelas, sentir o embalar do vento, adormecer como numa cama de bebé, é voltar ao colo, é sorrir, é sentir paz, é ver o sol a entrar e a pintar tudo de uma luz mágica brilhante como se tudo tivesse sido pintalgado de purpurina e adquirisse o brilho das histórias de encantar. E todas as tardes e noites em que me balançava nessa outra casa, na rede, sentindo o vento fresco que vinha da varanda, sentia que um dia te ia encontrar. Vieste como esse passarinho veio cantar à minha janela. Entraste na minha vida, sorriste-me, fizeste-me sorrir, dás-me paz e alegria e sei que nunca mais te iras separar de mim. Porque o passarinho não está preso numa gaiola. Pode voar, voar por todo o lado, mas livremente volta sempre à minha janela. É essa a paz e a liberdade do nosso amor. É a liberdade do passarinho que aqui canta, sem prisões, sem obrigações, sem explicações, apenas o sonho de uma rede cor de laranja pendurada numa cabana de uma ilha regada por um mar imenso de harmonia. E quando sairmos daqui, sei que já aproveitamos o que daqui queríamos e poderemos partir. Tudo na hora certa. E nem sequer teremos que questionar essa hora, porque saberemos que é a hora certa. Existe uma hora certa para tudo. E essa hora não explica, sente-se. Tal como tu entraste na minha vida na hora certa, não vejo a hora de chegar a hora de pegar nessa rede cor de laranja e ir pendurá-la contigo nessa ilha. Achas que quando sairmos daqui em Setembro, voltamos? Ou talvez seja melhor continuarmos a sonhar abraçados juntos a ouvir este passarinho que nos canta à janela irradiada pela luz purpurinada do sol e esperarmos pela hora certa de partirmos para sermos livres, livres de tudo e sentirmos que voamos em paz e amor?


(ao meu chocolatinho)

escrito em 10.09.2006

27.6.09

A MINHA CAMA

Quando te vi pela primeira vez, penso que não te vi. Ele convidou-te para apareceres lá em casa. Deve ter sido uma conversa agradável, daquelas conversas amenas e simpáticas, que não põem muita coisa em causa. Mas eu não me lembro de uma única palavra. Lembro-me que eras muito calmo. Que tinhas um olhar sereno e que mal olhavas para mim. Vocês falavam e eu, eu devia olhar o vago como é meu costume. Devia estar a pesquisar uma nova racha na parede branca ou a tentar contar os segundos que aquela mosca demora a levantar voo. Sou uma daquelas pessoas que levanta facilmente voo. Em criança quando não conseguia dormir, contava sapos às riscas e às bolinhas de todas as cores. Uma espécie de cruzamento de sapo com smarties. Quando de repente ele: “Não tens outro tipo de música, aqui em casa?” Aqui em casa, era minha e eu ouço aquilo que me apetece, que é o mesmo que ele faz na dele e me faz acordar às 8h da manha dentro de uma bola de espelhos em I Will Survive com We Are Family dos anos 70 a 80, numa década de gritos regada a Júlio Iglesias. Não percebo porque razão, ele ouve essas músicas, e não entendo certamente porque é que eu tenho de acordar com a Gloria Gaynor numa coreografia aos saltos, nos meus ouvidos. Quantas vezes, me imaginei a levantar da cama em direcção à aparelhagem e dar-lhe um murro certeiro mesmo em cima cd, para depois ir-me novamente para a cama. Isto depois de passar pelo w.c. e dizer “Ups, parece que a musica avariou, amor!” Se queria ouvir musica logo de manha então, pelo menos que pusesse algo mais budista ou yoga, quem tem muito mais a ver comigo. Quantas vezes, pensei que eu deveria era ter ficado na minha cama! A minha cama ali, numa solidão profunda e eu a adormecer quatro horas depois na cama de alguém que nem sequer boa noite me dizia. Mas uma vez mais, não disse nada e seleccionei no pc uma pasta qualquer para reproduzir aleatoriamente. Em toda a conversa, lembro-me de uma coisa, o teu peito. Eu observava com atenção o teu peito. Lembro-me de o ter imaginado derretido na minha cama e pensado que era um peito definido, e que bom deveria ser afundar-me nele e adormecer. Assim, a minha cama já não se ia sentir tão sozinha, à noite. Mas tu, mal me olhavas. Mas mesmo assim, percebeste tudo. Que eu estava com alguém que não me fazia feliz e isso transbordava pelos meus olhos como flechas a pedirem ajuda. Tiveste vontade de me salvar. Vinhas no teu alto, entroncado e elegante sobretudo preto comprido e na tua barba de três dias, salvavas-me daquele terrível monstro que me tinha aprisionado, e levavas-me para a minha cama. Eu não sabia, mas teres ficado ali, naquela desinteressante conversa, sem teres inventado à pressa um pretexto ou a morte de um parente qualquer para desapareceres, era o teu primeiro passo para me salvares. Ficaste ali sentado por minha causa. Não tinhas o menor interesse em estar a falar com ele. Mas como tinhas medo de não me voltar a ver, ficaste. Nunca vou esquecer essas palavras. Um dia alguém ficou, apenas por mim. Para estar comigo. Para olhares, sorrateiramente para mim, sem que ele percebesse. Aproveitando este, quem sabe, último e único momento para me poderes ver. Mas afinal que conversa era essa? De que falava ele sozinho, se afinal, nem tu o ouvias? Que queria ele de ti? Conseguiste escapar à conversa e a caminho da casa de banho, passaste pelo quarto. Olhaste a minha cama e pensaste: “Um dia, vou dormir ali!”. Devias ter-te deitado e nunca mais saído. Deitavas-te na minha cama e recusavas-te a sair. Como uma criança mimada que faz birra e esperneia que não se quer levantar. E assim éramos crianças novamente e como que por magia passavas a fazer parte da minha cama. Eu ia ao quarto e encontrava-te ali deitado. E sem perguntas, afundava-me no teu peito e adormecíamos em paz. Mas não te deitaste. Foste-te embora. Era noite. Quando te despediste olhaste para ele e disseste: “Depois telefona, um dia destes!” E eu senti-me tão invisível. E eu era de facto invisível. Nem sequer ali estive. Só depois compreendi porque fingias que não olhavas para mim. Por respeito. Porque não querias que ele se apercebesse de que te estavas a apaixonar por mim. Que cada vez que olhavas os meus olhos, te perdias ainda mais neles e te imaginavas deitado na minha cama. E houve um momento perdido no tempo e na conversa, em que tu, sem querer, deixaste escapar um olhar. Olhaste bem no fundo dos meus olhos e deixaste-me ver o fundo dos teus. Lembro-me desse olhar. Foi como sentir o fundo do mar. Eu vi o fundo do mar nos teus olhos. E tu sabias, que este, era apenas o primeiro passo para um dia te deitares na minha cama e eu adormecer no teu peito.

(ao meu chocolatinho)
27.09.2006

24.12.07

A ARVORE DE NATAL



Fazer a árvore de Natal e o Presépio, sempre foi uma tradição lá em casa. Desde pequenos que o fazíamos. O acontecimento passava-se geralmente ao Sábado. Levantávamo-nos cedo, íamos até à floresta mais próxima, que é como quem diz duas ruas mais abaixo, depois do liceu à direita. Cortávamos uma árvore pequena. Finalmente, a árvore passou a ter cheiro, o que não acontecia antes, mas a grande árvore artificial desmontável depois da viagem da Alemanha para cá, só se aguentou mais um ou dois anos e depois retirou-se. Retirávamos então algum musgo do chão ou das pedras, que guardávamos numa caixa. Nessa altura, vivia lá muito pouca gente, pois os primeiros presépios tinham muito poucas figuras. A minha mãe tinha-nos comprado a Nossa Senhora, o São José, o menino Jesus, a Vaca, o Burro e os três Reis Magos. Estes oito eram toda a população habitante. Encontrávamos no sótão algumas fitas e bolas vermelhas, que já vinham de quando vivíamos na Alemanha, combinadas com mais 2 ou 3 novas, de outras cores. Geralmente eram prateadas e azuis, mas as vermelhas eram sempre mais. Porque para mim o Natal é vermelho. Além de ser uma cor de força, é também uma cor muito quente, que me aconchega e me faz sentir protegido e em casa. Talvez por isso, anos mais tarde eu tenha pintado algumas paredes de vermelho em minha casa. Mas, os primeiros presépios e árvores de Natal eram assim, simples. Moravam num cantinho da sala e era sempre um entusiasmo e emoção construí-los. Principalmente porque sabíamos que em breve, ao lado do presépio, iria ser construído um novo condomínio pós-moderno, pintado, todo ele em cores brilhantes, motivos natalícios e muitos laços. Depois mais figuras imigraram, instalando-se na nova morada do presépio. A própria árvore começou a ficar mais vestida. Um ano, comprámos umas luzes que piscavam alternadamente a noite toda, que iluminavam a árvore e davam uma luz de mistério e magia à sala de estar, onde eu adorava estar à noite deitado no sofá a cantar, e a sentir a sala a mudar de cor a cada 5 segundos. Depois eu cresci, e um ano saí de casa. Quando voltava na altura do Natal, a árvore continuava lá, um pouco mais depenada, e a pouco e pouco o presépio foi demovido. Naquele canto da sala morava agora simplesmente uma espécie de árvore que simbolizava a sombra e recordação daquela que em tempos tinha sido uma verdadeira árvore de Natal. Na esperança e tentativa de recuperar alguma magia, comprei para minha casa uma árvore artificial e muitas bolas e fitas, mas que apenas esticou os braços duas vezes. Depois escondeu-se ela própria numa caixa, na qual permanece à 8 anos. Já mudou várias vezes de casa e de cidade na vã esperança de se poder esticar e exercer alguns exercícios de yoga. O Natal perdeu todo o sentido, e penso que acabei por hibernar com a própria árvore. Numa casa solitária, uma árvore não tem encanto, nem magia. O Natal prende-se exactamente com a união das pessoas, e na solidão de um sofá azul não é possível vivenciar esse espírito. Para que haja união, são precisas pelo menos duas pessoas. Mas este ano tudo mudou. Este ano, vou novamente comprar pais-natal de chocolate. Músicas de Natal vão soar e dançar nas paredes vermelhas. As bolas e fitas vão brilhar e reluzir e a adormecida árvore vai finalmente acordar depois de um longo Inverno de 8 anos. Vai descer ao solo, esticar-se à vontade, porque a união, esse tal espírito de Natal, pintou-me um sorriso e um brilho no olhar. Este ano, a árvore vai ser esticada e decorada a 4 braços, entre muitas gargalhadas, músicas de natal, muitos beijos e chocolates. E porque por mais romântico que seja ter uma árvore natural com cheiro a pinho, isto de cortarmos todos os anos milhares de árvores de Natal, está a matar a nossa Natureza e o espírito natalício prende-se mais com o nascimento. E ainda que seja uma árvore sem cheiro aparente, e de um plástico artificial, está tudo lá. Porque tu existes, e vieste dar sentido ao meu Natal. Feliz Natal!

18.12.07

DUAS GRAMAS DE TEMPO


Há quinze dias que nunca tens tempo para estar comigo. Tempo. O que é isso do tempo? Eu não sei o que é o tempo. É algum postal com números às cores ilustrado que tu não tens para me dar? O que é não teres tempo? Tempo, não é algo material para tu teres para me dar. O teu dia tem as mesmas 24h que o meu. Portanto, eu não tenho mais tempo do que tu. Talvez tu dividas as tuas 24h a que tens direito por dia, mal divididas. E de certeza que no final do dia, mesmo antes de te deitares, arranjas uns minutos para dispensares numa mensagem escrita de “olá! Saudades! Beijo!” Mas não, não tens tempo. Então vou eu atrás de ti, arranjar-te o tempo. Não levo um relógio especial – eu nem sequer uso relógio – nem um calendário, nem agenda. Vou simplesmente a tua casa, olhar para ti. Tenho saudades tuas. Sabes o que é? E isso não é algo que se mede como o tempo, mas algo que com o passar do tempo, aumenta. Hoje vou ver-te. Toco à campainha. Não atendes. Meto a chave na porta mas está torta, não entra. Uma porta pode ser um grande obstáculo, quando temos uma chave na mão que não roda e que impede de te ver, de matar as saudades, matar o tempo perdido. Abre a porta, vamos matar o tempo. Vamos matá-lo para que ele deixe de existir, e assim já não tens a desculpa de dizer que não o tens, porque ele não existirá. Coloco o dedo na campainha e deixo-o ficar. Não sei quanto tempo. Abres-me a porta. Estavas a dormir. Fazemos amor no sofá preto da sala. Dizes-me que é melhor darmos um tempo. Agora não entendo. Se tu não tens tempo, como é que de repente queres dar tempo? Como é que me vais dar algo que não tens? O que é isso de dar um tempo? Eu tenho-te dado todo o tempo que tenho. O tempo útil e o tempo de espera. O meu tempo é o teu tempo. E tu o que tens para me dar? Um tempo? O que significa um tempo? É uma nova expressão para me fazer ficar no meu sofá azul à espera que o telefone me diga que tem saudades minhas? Tu não me vais dar um tempo. Tu não me vais dar nada. Tu nem sequer tens nada para me dar, pois não? O tempo a que agora te referes é simplesmente o segundo passo assumido para o afastamento total dos nossos corpos, não é? Foi a última vez que fizemos amor, não foi? Não te pergunto nada disto. Aceito o tempo, e saio. Ou finjo que aceito. Olho a árvore Natal de Maio. Está assim porque ainda não tirámos fotografias com ela e com os nossos pais de natal de chocolate. Porque não tiveste tempo. Eu não quero que tu me dês tempo, ou um tempo, eu só quero que me abraces e que não digas nada. Abraça-me. E vais ver que no silêncio o tempo não existe. Antes de sair olho a tua cama. A minha fotografia que tentei que morasse ali, a olhar para ti a dormir, continua sem abrigo. Dizes que não queres que a tua empregada de limpeza saiba da tua vida pessoal, por isso a escondes no dia em que ela vem limpar. Curiosamente a semana tem 7 dias. Tens tanto tempo para a voltares a colocar no sítio. No meu sofá azul ainda ouço a tua voz que me explicas que continuamos namorados, e que continuas a gostar de mim, mas apenas estamos mais afastados. Então, qual é a diferença? Nos últimos quinze dias o único contacto que tive contigo foi “beijos” num sms. Qual é a diferença? Quem me dera encontrar uma caixinha azul cheia de tempo lá dentro para te oferecer. Uma semana depois vou a tua casa com o pretexto de ir buscar a minha toalha de praia. Recebes-me no escritório. Fechas a porta que dá para os quartos e vais tu buscar a toalha. Tenho a certeza que tens alguém em casa. Olho o chão do escritório inundado por sacos e malas. Vais mudar de casa? Não, é a minha sobrinha, vai aqui passar um tempo comigo a viver. E nós? Ah, é verdade! Nós demos um tempo. Não me beijas. Viras a cara. Cobarde. Sei que tens alguém dentro de casa e não assumes. Vou para a praia pensar sobre o tempo. Uma outra semana depois vou a tua casa. Meto a chave que me deste na porta mas por coincidência, ou não, nesse preciso momento estás a sair de casa. Fechas a porta atrás de ti e saímos. Conversamos no teu carro. Tenho saudades tuas. Está a passar tanto tempo. Dizes-me de novo que não, não terminámos o namoro. Digo-te que gosto muito de ti. Olhas-me nos olhos. Também gosto muito de ti. Era a última vez ía ouvia isto moldado pela tua voz. Perguntas-me se tenho dinheiro para o comboio. Saio. Não entendo a tua preocupação. Não entendo para perpetuas um pouco mais aquilo que sabes que é eu nunca mais te ver. Porque arrastas o tempo? Porque me mentes? Porque me dizes gosto de ti, se no fundo nem sequer me queres ver? Porque finjo que acredito em ti? Porque me calo com pena de mim? Porque não tomo uma atitude e desenho eu o fim? Porque perpetuo um pouco mais este sofrimento? É tudo uma questão de tempo. Não sei quanto tempo é que este tempo que tu queres dar tem. Mas eu espero. Já estou à espera há tanto tempo. Vou procurar a tal caixinha azul cheia de tempo. E se a encontrar posso telefonar-te? Sabes, eu ainda não sei o que é o tempo, mas lembro-me em criança de ouvir que o tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem, e que o tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.

5.10.07

ESTÁ TUDO ÓPTIMO!

Eu costumava ser daquelas pessoas que quando lhe perguntavam “está tudo bem?” respondia sempre “mais ou menos” ou então o típico “vai-se andando” ou “assim, assim” ou melhor ainda “cá estou, na minha vidinha de sempre”. Como se viver fosse um fardo terrível de aguentar, ou como se de facto tudo me corresse mal e fosse a pessoa mais triste e com menos sorte do mundo. Era a típica pessoa que se lamentava, que se queixava, que nunca estava bem e que não só deixava transparecer isso aos outros, mas principalmente se esforçava para que fosse percebida esta eterna angústia de viver em permanente estado de não-estar-bem. Talvez o fizesse para que tivessem pena de mim, já que eu própria vivia nessa eterna pena de mim. Agora não percebo sinceramente o que ganhava eu com isso. Talvez uma certa simpatia ou compaixão por certas pessoas, e uma tentativa de cumplicidade em ouvir por vezes “coitadinha” ou então “como eu te percebo”. Mas de facto agora percebo que as pessoas ao fim de algum tempo se cansavam desta minha eterna tristeza e nostalgia e se afastavam. E de repente comecei a transmitir essa imagem às pessoas, uma imagem de alguém eternamente triste, sempre a lamentar-se, incapaz de sorrir, a quem tudo corria mal, e a quem parece ser impossível satisfazer, agradar, fazer sorrir ou fazer feliz. E o mais incrível é que agora percebo que não só eu tinha prazer em me sentir assim, e prazer em falar de mim nesses termos tristes e de me lamentar, como também o facto de estar constantemente a faze-lo provocava e originava ainda mais tristeza. Realmente não somos aquilo que somos, mas aquilo que demonstramos ser. E passamos a ser aquilo que os outros vêem. Um dia ensinaste-me a dizer “está tudo óptimo” mesmo que não estivesse. Percebi que deveria fingir. De facto ninguém tem nada a ver com as minhas tristezas, principalmente aquelas pessoas que não queriam realmente saber como eu estava, mas apenas faziam a típica pergunta género frase-feita “está tudo bem?” mas não queriam mesmo saber se estava tudo bem comigo, apenas o perguntavam por hábito. Então comecei a defender-me dessa frase feita que não era de facto uma pergunta e que não queria dizer absolutamente nada, e comecei a responder com algo que igualmente nada queria dizer: “está tudo óptimo”. E percebi que deste modo as pessoas continuavam a sorrir para mim. E incrivelmente eu começava também a sorrir. Apesar de saber que era mentira, que eu estava a fingir, porque de facto não sentia que estivesse tudo óptimo, mas continuava a dizê-lo. E explicaste-me que nunca deveria dar o flanco, nem permitir que as pessoas soubessem como realmente me sentia. E a pouco e pouco quando me perguntavam “está tudo bem?”, naturalmente respondia “está tudo óptimo”. E o mais incrível é que quanto mais digo “está tudo óptimo” mais começo a familiarizar-me com esta frase que começou por ser uma defesa, uma mentira, e a pouco e pouco começo a acreditar nela. E agora percebo que quanto mais o digo, mais provoco a que de facto esteja tudo óptimo na minha vida. E isso faz-me sorrir. Já não tenho pena de mim. Já não me lamento. Caminho com um sorriso pela rua, de cabeça erguida e sinto-me feliz. Sinto-me feliz apenas porque passei a acreditar e a demonstrar que sim, que “está tudo óptimo!”

19.9.07

24HORAS DEPOIS

Este era o dia mais feliz da minha vida. Já há algum tempo que não via os meus pais. Eles vieram de propósito para a estreia. Apresentei-te a eles. Finalmente conheceram-se. Claro que tu como tens esta estranha relação com o tempo, esta tarde fizeste-me chegar mesmo em cima da hora. Claro que não me fica nada bem chegar atrasada à estreia do filme no qual sou protagonista, mas como estou muito feliz não quero estragar a noite com os teus atrasos. No final do filme, quando todos aplaudiram, os meus pais tiveram logo de se ir embora porque a viagem ainda é longa. E tu, que tinhas umas coisas para terminar no escritório, também te despediste e combinamos às 22h30m da noite em minha casa. E aqui estou em minha casa na noite da estreia do meu filme, a noite mais feliz da minha vida, sozinha. Uau! Sinto-me tão feliz! Que feliz que eu estou! Acho que neste momento, se fosse um bocadinho mais feliz, rebentava de tanta felicidade! Telefono ao meu ex-namorado, que está a jantar com uns amigos num restaurante Chinês, e vou lá ter. Depois vamos ao cinema, mas desta vez a protagonista não sou eu. Se bem que não me importava nada de dividir o écran com o Di Caprio, em “A Praia”. Estranho estar no cinema outra vez, no mesmo dia, em que, há poucas horas atrás, eu era a protagonista. Também há poucas horas atrás, este era o dia mais feliz da minha vida, e agora aqui estou eu. O filme acaba às 22h e não aceito o convite para ir beber um copo. Vou logo para casa, porque tu estás quase a chegar para terminarmos o dia mais feliz da minha vida com uma noite perfeita. Faço um chá e preparo uns bolinhos. Ligo a televisão. Tomo um banho. Perfumo-me. Espero por ti, que já estás outra vez atrasado, pois quando olho para o telemóvel este diz-me que já é quase meia-noite. É uma coisa que nunca vou perceber, porque é que os homens têm esta estranha relação com o tempo. Nunca conheci um homem que chegasse a horas. É isso que vos ensinam na escola quando estão a jogar futebol? “Nunca se esqueçam de chegar atrasados, e de deixarem as raparigas à espera!” E a verdade é que nós esperamos por vocês. Porque, já lá vão duas idas ao cinema no mesmo dia, e aqui estou eu novamente em casa, sozinha. Começo fortemente a suspeitar que este não é definitivamente o dia mais feliz da minha vida. Por volta da uma da manhã ligo-te, mas não atendes. Penso que já deves vir a caminho e por isso não atendes. Mas também poderias ter enviado uma mensagem escrita a dizer: estou atrasado, não podias? Já que vocês sabem que chegam, sempre, atrasados porque é que não começam a enviar mensagens de aviso? Agora os telemóveis até já trazem aquelas mensagens modelo, género telegrama stop stop. “Estou atrasado.” Claro que três horas depois nós já percebemos que vocês estão atrasados, a mensagem não traz novidade nenhuma, mas pelo menos mostra que se preocuparam. É uma questão de atitude. E a única atitude que me acontece enquanto reflicto sobre “os homens e os seus atrasos” é adormecer vestida no sofá, sozinha, por volta das 3h30m da manhã. Acordo sobressalta às 7h30m. Olho para a porta, continua imóvel. Estupidamente vou ao quarto ver se tu estás, mas a cama está intacta. Sem sequer tomar banho, nem lavar os dentes saio a correr de casa e vou para a tua. Mas tudo me indica que não estiveste em casa. A cama feita, impecável como eu a deixei ontem à tarde. No sofá não há uma ruga e as almofadas estão todas alinhadas. A loiça lavada na cozinha, e no frigorífico não falta nada e nem sequer existe lixo a mais no balde. Onde estás? Onde estiveste tu estas horas todas? Onde passaste a noite? Continuo repetidamente a ligar para o teu telemóvel mas não atendes. Tenho medo que do cansaço tenhas adormecido a conduzir e tenhas tido algum acidente. Tu andas com excesso de trabalho. Imagino-te no meio da auto-estrada, deitado no chão, ensanguentado. O carro desfeito contra uma árvore e o telemóvel a tocar. Entretanto o telemóvel deixa de tocar. Está desligado. Devo ter-te gasto a bateria toda. Não sei o que fazer. Estou em tua casa, e tu não estás. Combinaste comigo ontem às 22h30m da noite e já se passaram quase 12horas. Tomo um banho. Lavo os dentes. Decido começar a ligar para os Hospitais à tua procura. Para a polícia só podemos ligar 24horas depois, que é o tempo exigido para se considerar um desaparecimento. Numa última esperança ligo novamente para o teu telemóvel, mas desta vez já toca novamente, mas mais uma vez tu não atendes. Mas se estava desligado há pouco, quer dizer que o ligaste. O que quer dizer que estás consciente. Mas onde estás? Eu já nem sei se estou chateada ou preocupada, mas realmente tenho de confessar que desta vez estás um bocadinho atrasado. Vou para o escritório e abro armários, gavetas, pastas, dossiers, agendas, blocos de notas, à procura de um indício qualquer que me ajude a perceber onde estás. Nada. Não encontro nada. Não sei para quem hei-de ligar. Não tenho o telefone de nenhum amigo teu. Encontro o telefone da tua irmã. Sei que é um atrevimento da minha parte, já que nós nem sequer nos conhecemos, mas com a maior das latas decido ligar-lhe a perguntar por ti. Afinal este número parece ser a única esperança que me liga a ti. Agora fico eu sem bateria no meu telemóvel, de tantas vezes que já te liguei – pelo menos uma delas poderias ter atendido, escusavas de me fazer passar por isto tudo – e com as pressas, nem sequer trouxe a porcaria do carregador. Daqui a pouco quem precisa de ser carregada, sou eu, que não tenho bateria nenhuma, e já são quatro da tarde, ainda não comi nada o dia todo e estou neste stress à tua procura. Pelo menos podias ter deixado umas pedrinhas pelo caminho para eu seguir o teu rasto. A única solução é ligar-te de uma cabine de moedas, já que não tens telefone fixo. O problema é que por esta altura essas cabines já começam a estar em vias de extinção. Procuro pela cidade toda e encontro uma perto da estação de comboios. Não tenho muitas moedas, de maneira que isto terá de ser rápido. Ganho coragem, ligo. Atende o tal de teu cunhado que te passa o telefone. Dizes-me que estavas muito cansado, acabaste por jantar em casa da tua irmã e que adormeceste. Isto até serviria de desculpa para ontem, mas como também já deves ter almoçado, já tiveste tempo para perceber que marcaste comigo ontem às 22h30m da noite, e que já passa das 16h da tarde de hoje e não sei nada de ti. Dizes-me que vens já para casa, para eu esperar por ti. Como se eu tivesse feito outra coisa desde as 22h da noite de ontem. Vou para tua casa, sozinha. Não sei o que sinto. Estou furiosa, nervosa, irritada, contigo e comigo, por continuar à tua espera. Por volta das 18h da tarde ligo para o teu telemóvel, desta vez atendes e dás-me a mesma resposta. E começo a não perceber qual o teu significado de “vou já!” Talvez o teu “já” não seja igual ao meu, mas pelo som ia jurar que tem um Jota, um A e um acento. Compro umas bolachas no Pingo Doce. Deito-me no teu sofá a ver o “Psico” do Hitchcock para me relembrar de que ontem não foi definitivamente o dia mais feliz da minha vida. E por coincidência, o de hoje também não. Por volta das 22h30m da noite entras em casa. Pedes-me desculpa, prometes que não volta a acontecer. Logo agora que se estava a cumprir o prazo para apresentar um desaparecimento na policia. 24h depois.

5.9.07

EU E OS CHOCOLATES



Quando éramos pequenos, só nos davam chocolates ao fim de semana. Por norma era ao domingo. Ficavam escondidos num armário à chave, mesmo por cima da televisão. Eu sabia qual era o armário, e um dia também soube onde estava a chave, de maneira que de vez em quando lá ia buscar uma cadeira à cozinha e as tabletes lá diminuíam misteriosamente de tamanho. Por vezes ansiava por esse momento de estar sozinho em casa para assaltar o esconderijo proibido dos chocolates e poder deliciar-me com o tesouro roubado. Mas rapidamente era apanhado e lá cumpria as minhas penitências e castigos, que nunca pesavam mais do que o prazer desse fruto proibido. Foi por esta altura que eu descobri que o chocolate proibido era o mais apetecido.
Os meus preferidos eram os ovos ou barritas kinder – aliás ainda o são. Um dia sem querer, enquanto a minha irmã dormia, comi os dois ovos seguidos, seguindo-se de um grande responso assim que a minha irmã acordou sem kinder. Mas era mais forte que eu – ainda o é – o prazer de deixar desfazer um chocolate na boca, sentir o doce a invadir-me, formando como que uma espécie de segunda língua ou capa protectora em chocolate, que a pouco e pouco se desfaz e escorrega pela garganta. Para mim não existe outro prazer semelhante. Eu troco chocolates por tudo. Para mim, o melhor presente são chocolates, a melhor sobremesa é bolo ou mousse de chocolate e a melhor a maneira de estar sozinho é na companhia de chocolates. O meu tio António, que vive em Andorra, sempre que vinha de ferias, trazia duas grandes barras de chocolate preto. Inicialmente custou-me a habituar ao sabor, era amargo, diferente, mas antes mesmo de ele voltar a viajar eu já tinha feito desaparecer os presentes, sozinho. Isto porque lá em casa ninguém gostava de chocolate preto, e seria desagradável acumular no armário quilos de tabletes. Depois comecei a apreciar chocolate branco, e rapidamente inventara uma maneira de fazer mousse de chocolate branco caseira em substituição à outra que eu já fazia quinzenalmente com 7 gemas de ovo e 7 colheres de açúcar. Seguiram-se as bolachas de chocolate, bolos de chocolate, bolicaos, bem como todos os derivados, assim como chocolate de leite simples, com avelãs, amêndoas, pistachio, crocante, bombos e afins. Os únicos que ainda hoje não consigo comer são chocolates ou bombos com licores, acho-os enjoativos e intragáveis. Assim vivo eu uma vida inteira de chocolate, embalado por histórias da bruxa com casa de chocolate e a adorar filmes como a Fabrica de Chocolate. Havia alturas em que o meu lanche era composto por pão barrado com chocolate, bolachas de chocolate e leite com chocolate. Quando estou triste ou mais deprimido compenso-me com quilos de chocolate que devoro em frente da televisão a ver o Pretty Woman. Curiosamente, em tanta depressão banhada em chocolate nunca engordei. Ou melhor, até há uns anos atrás nunca tinha engordado. Mas ultimamente noto que algumas calças deixaram de me servir e outras apertam mesmo a muito custo. Decidi começar a fazer uma dieta rigorosa, à base de vegetais e sopas e as calças já quase que entram, o botão ainda não aperta mas hei-de lá chegar. Ás vezes fico um bocadinho triste por ter engordado, e para matar a tristeza lá vai um chocolatinho às escondidas, e depois ainda fico mais triste por tê-lo comido, entro em depressão e como outro e tou a ver que por este andar esta dieta é impraticável mas já assumi que sou viciado em chocolates. Vou é montar um grupo género VCA – viciados em chocolate, anónimos. Deixar de os comer não deixo, mas pelo menos não me sinto tão mal com isso ao ouvir as mesmas histórias da boca de outros.

29.8.07

SUMA DE ANA-NAS

Simplesmente não nos apetecia ficar em casa. Queríamos ter uma noite fantástica. A Patrícia, que era a minha primeira amiga de verdade, e a melhor, veio ter comigo. Era a meio da semana. Não era o aniversário de ninguém e não tinhamos nenhum pretexto para sair. Eu já tinha feito anos e a Patrícia, que é do signo Virgem, só faz em Agosto. Então combinámos que pelo menos não podíamos chegar tarde. Era a condição que nos impúnhamos a nós mesmos, para nos permitirmos sair. Nós criávamos sempre assim umas regras, como foi a regra de acreditarmos com toda a convicção que era verdadeiro e fruto de uma grande pesquisa, um trabalho de vinte páginas feito à noite na mesa do café, sobre não sei o quê, para a disciplina de Antropologia Cultural, e que a Patrícia ia criando a cada linha que se aumentava. Como que uma espécie de fermento mágico fruto da nossa imaginação, o trabalho cresceu e nunca ninguém descobriu em que forno tinha sido cozido. Telefonámos à Paula para vir te conosco, mas acabámos por nos encontrar com ela no Santa Cruz. A Paula era assim género, menina certinha de pólo e camisa aos quadradinhos, que quando íamos para os copos dizia que era a Adriana. Ora, a Paula Adriana, era também aquela que às sextas de manhã inventava uma necessidade vital de tomar um café às oito e um quarto, note-se que faltavam quinze minutos para a aula começar, e que acabava sempre por me convencer e fazer gazeta à primeira aula, que costumava ser de história, com uma professora que dizia que o D. Sebastião era coxo e maricas. Lá nos encontrámos com a Paula no Santa Cruz, que é uma espécie de Igreja convertida em café, e onde muitas bebedeiras apanhámos. Não sei o que os católicos acham de nós estarmos a encharcarmo-nos em cerveja e a rir que nem doidos, mas para nós era sem dúvida muito divertido. Bebemos umas cervejas para começar a noite que ia ser fantástica e decidimos ir a um bar novo Holandês. Nessa noite, a Paula tinha decidido não mudar de nome a noite toda e só beber sumo. Contrariamente eu e a Patrícia queríamos beber até deixar de sentir o chão. Eu já o estava a deixar de sentir de tanta gargalhada, quando a Paula tentava pedir à holandesa “uma sumo”. Aquilo já parecia o “Quem quer ser Milionário!” quando a empregada diz muito espantada com ar de óbvio: “Oh! Suma de Aná-nas!” Quando ela finalmente percebeu, eu tinha motivos suficientes para não perceber porque é que a Paula não tinha pedido uma cerveja holandesa como nós, que era bem mais divertido e facilitava a vida à pobre holandesa. Mas ela estava com o carro emprestado da mãe e queria portar-se bem. Saímos do bar a gozar com a Paula e a dizer que a seguir na discoteca Scotch, onde iríamos dançar toda a noite, só íamos beber vodka MAS com suma de Aná-nas! Deixámos o carro do outro lado do parque, e para a policia não perceber, eu escondia uma lata de cerveja no meu casaco de ganga da Lewis que a minha mãe tinha comprado ao meu primo que estava nas tropa em Tancos e que trazia mais barato não sei quê da base aérea. Íamos os três no carro da mãe da Paula a caminho do Scotch, num estranho silêncio. A Patrícia ia atrás a pensar na vida e a rir-se sozinha enquanto olhava as pessoas pela janela do carro. Eu estava à procura de uma cassete dos Doors, que a Patrícia me tinha ensinado a gostar, e que eu não conseguia encontrar no porta-luvas. Quando sinto um embate. Levanto a cabeça e percebo que não tinha percebido nada. Eu estava à procura da cassete dos Doors e a Paula bateu no carro da frente? Tentámos acalmar a Paula, que estava muito mais calma do que nós, e que dizia: “Eu só bebi suma de Aná-nas!” E era verdade, a Paula não tinha tocado numa gota de álcool, nem numa daquelas gotinhas pequeninas que aparecem nas folhas quando começa o orvalho. Tudo porque se queria portar bem com o carro da mãe, e acabou por levá-lo para casa com o pára-choques todo partido. Acho que com o susto o efeito do álcool nos passou, e o pior de tudo é que tínhamos de voltar para minha casa a pé. Se a Paula pelo menos tivesse bebido vodka eu ate percebia, mas ela bebeu suma de Aná-nas a noite toda. Aquilo não fazia sentido. Parecia que por destino não era suposto nós sairmos à rua nessa noite. Foi tudo tão rápido que acabei por não perceber nada. Só sei que eram três da manhã e eu e a Patrícia estávamos a voltar a pé para casa, sem termos dançado a noite toda no Scotch, sem termos tido um noite fantástica, e ainda por cima doía-nos as pernas de termos vindo a pé, porque a Paula tinha tido um acidente com o carro, apesar de só ter bebido suma de Aná-nas. Mas pensando bem, no meio de tanta coisa, até tínhamos tido uma noite bastante fantástica.

à Patricia e à Paula

26.8.07

O TELEFONEMA


21h30m da noite. Saio do El Corte Inglês, com alguns sacos de compras na mão, afinal foi o primeiro sitio onde fiz compras quando vim viver para Lisboa, e desde aí que não lhe resisto. Preparo-me para ir para casa dele, não sei muito bem como será, depois da espécie de discussão desta manhã. Recebo uma mensagem tua. Estranho. Nunca tinha recebido uma mensagem tua. “Preciso de falar contigo. Posso ligar?” Liguei, eu. Perguntaste se estava tudo bem conosco e se eu tinha a certeza disso. Ditas as coisas assim deixei até de ter certeza em que sentido iam as escadas rolantes do El Corte Inglês, e tu dizes: “Ele telefonou-me a convidar-me para jantar em casa dele, não percebi bem o intuito mas a voz estava... insinuante!” As minhas suspeitas daquele primeiro dia estavam a ser confirmadas. Não sei como não fui caí pelas escadas rolantes. Por momentos até desejei ter caído. Eu a escorregar pelas escadas. O meu cachecol a ficar preso num dos degraus, a puxar-me, a estrangular-me. Todos os meus cabelos a ficarem presos. Eu a asfixiar. E só visualizava a cara dele à minha frente a rir-se e a insinuar-se a ti, ali mesmo à minha frente. Mas infelizmente não fui. O momento Ally Macbeal terminou ali e tive mesmo de enfrentar o momento. Ele disse-te que nós tínhamos acabado. Fez o número do infeliz a ser consolado e pelos vistos a vítima a consola-lo durante o jantar serias tu. Ou seja estava a sair-te a sorte grande. Declinaste a sorte e disseste-lhe que um dia destes. Que é mais ou menos aquilo que as pessoas educadas dizem quando não querem ser deselegantes e dar uma tampa. E que quando pudesses, que telefonavas. E telefonaste, mas foi a mim. Não tencionavas jantar com ele. Mas ficaste preocupado comigo. Mas será que existiam mesmo razões para te preocupares? Afinal, ele não só te despiu mentalmente, como tencionava despir-te pessoalmente num jantar em casa dele. E, ao que parece, não era a primeira vez que ele usava este esquema e de facto não sei se alguma vez resultou ao ponto de me trair. Mas talvez tudo isso não fossem razões suficientes para te preocupares comigo, ou eram? Como tenho o coração demasiado perto da boca, e por vezes quase que tenho um enfarte se a mantenho fechada, assim que cheguei a casa questionei-o. Foi precipitado, eu sei, mas disse-lhe logo que já sabia do jantar, que tu me tinhas ligado. Não sou de esquemas como ele. Talvez se eu fosse, teria fingido que não sabia de nada, via no que tudo aquilo ia dar e apanhava-o na sua mentira. É o que dá! Espontaneidade a mais, por vezes é estupidez. Claro que, o que me apeteceu mesmo, foi esmagar a cabeça dele na roda de um carro. Pedir ao motorista que recuasse e avançasse vezes repetidas para transformar a cabeça dele numa folha fininha de crepe. Seguidamente iria ao forno para ficar estaladiça. Seria polvilhada com açúcar em pó, nozes e mel. E no fim, servir de sobremesa aos crocodilos! Mas lá mel tem ele! Porque é que eu não me admirei enquanto ele miava a convencer-me de que tudo não passava de uma estratégia para descobrir se era verdade aquilo que ele suspeitava? E essa grande suspeita era que tu estavas apaixonado por mim. Nessa altura deixei de o ouvir. Escadas rolantes, mel, crocodilos, crepes e motoristas, todos se tinham enrolado numa grande orgia e alguém tinha ligado o forno no máximo. Na minha cabeça nada fazia sentido, e o mundo estava de cabeça para baixo. Não me admirava nada se nesse momento tocassem à campainha e fosse um canguru com um saco do El Corte Inglês. Devo ter-lhe dito que aquilo era absurdo, e não fazia sentido nenhum. Era tudo absurdo. Se o Almodovar tivesse escrito o dia de hoje eu percebia, mas aqui não fazia sentido. Não fazia sentido ele ter-te convidado para jantar, o jantar ser em casa dele, o pretexto ser que nós tínhamos acabado, o propósito ser descobrir se tu estavas interessado em mim, e pior ainda eu suspeitar que ele é queria trair-me contigo e ainda por cima eu estar ali a ter esta conversa. Mas acabou por me convencer e eu mais uma vez acreditei na história da raposa salta-pocinhas, ao ponto de alinhar no segundo plano da estratégia dele, que consistia em eu te ligar e te convidar para jantar, e na tua voz ele iria provar-me que era verdade o teu interesse. A tremer, assim o fiz. Quando ouvi a tua voz do outro lado acho que não queria ouvir a tua resposta. Fechei os olhos e vi o sobretudo preto comprido. Desejei que naquele momento só existisse eu e o telefone. Desejei ter a coragem para desabafar contigo e te dizer que eu não era feliz e que vivia um absurdo de relação com alguém esquemático e que começava a por a minha sanidade mental em causa. Disseste que sim, que gostarias de jantar comigo. E depois não disseste mais nada. Fiquei a repetir o teu nome em silêncio. Na cama dele ficou também um silêncio, como no teu telemóvel. Não percebi o que tinha acontecido nem muito menos se o esquema dele tinha resultado. Longe de mim pensar que tinhas sido assaltado enquanto falavas comigo. Dois negros atiraram-te ao chão, partiram-te um braço e levaram-te o telemóvel. Com o braço partido, mas ainda sem dores insuportáveis, foste a casa, porque tinhas o meu número escrito num papel e ligaste-me duma cabine. Fiquei tão triste que só me apeteceu ir ter contigo e cuidar de ti. Mas ele arrancou-me o telefone das mãos e disse: “Tens o braço partido? É a vida, amiguinho!” Odiei-o tanto naquele momento. Só tinha vontade de o atirar pela janela do sexto andar, partir-lhe os dois braços para que ele sentisse a crueldade daquilo que te estava a dizer, e depois perguntar-lhe se os esquemas dele afinal funcionavam ou não. “Vês como é verdade? Ele está ficou todo apaixonadinho por ti! O meu sexto sentido não falha!” Mas a sua sensibilidade falhava e muito. Durante meses, não soube noticias tuas. Ficaste três meses com o braço engessado ao peito porque estavas a falar comigo ao telemóvel e isso eu nunca mais vou esquecer. No fundo era como se eu tivesse a culpa de te terem partido o braço. Se não fosse a minha voz, se eu não te tivesse telefonado, nada teria acontecido. Mas pensando bem, se ele não tivesse inventado aquele esquema absurdo – que ainda hoje creio que é mentira, porque o que ele queria era ir para a cama contigo – nada te teria acontecido. No fundo, foi ele que te partiu o braço nesse telefonema, porque se surpreendeu com a sua própria mentira, que de facto tu estavas mesmo apaixonado por mim.

17.8.07

ESTRANHAMENTE... UMA SURPRESA!




Sei que andas muito cansado. Por isso hoje resolvi-te fazer uma surpresa. Vou ter contigo a Espinho e levo dois bifes na mala, para o jantar. Arrumo-te a casa, faço-te o jantar, e quando chegares terás uma grande surpresa. Meto a chave na fechadura, mas estranhamente pela primeira vez não consigo a abrir a tua porta. A porta continua trancada. Porque estranhamente pela primeira vez trancaste a porta com a chave de segurança, que eu não tenho. Que estranho!.. Ouço música dentro de tua casa. Estás em casa? Porque é que estás trancado com a chave de segurança, que eu não tenho, dentro de casa? Toco à campainha. Estranhamente não ouves. A música também não está assim tão alto. Será que adormeceste? Eu sei que tu andas muito cansado. Abre lá a porta que está tanto calor e tenho os bifes na mala! Estranhamente a música parece ser a mesma que puseste nas nossas primeiras noites. Uma música muito relaxante e que dizias que era a nossa música, Oliver Shanti, seria? Ligo-te para o telemóvel. Não atendes. Ligo outra vez. Não atendes. Que estranho!... Toco à campainha. Mas estás assim num sono tão profundo que não ouças nem a campaínha, nem o telemóvel? Que figura de parva que eu estou para aqui a fazer no vão das escadas a tocar-te à campainha, e a ligar-te para o telemóvel, com dois bifes na mala. O que é que os teus vizinhos vão achar disto? Vim eu, num sábado à tarde de comboio para Espinho - e tu sabes que não acho muita graça à Estação de São Bento, andam para lá uns tipos sempre com um ar muito estranho, parece que habitam naqueles bancos e falam com as pombas que deixam aquilo sempre tudo sujo – vim eu para estar aqui especada no vão das tuas escadas a ouvir pela frecha da porta a musica do Shanti que ouvíamos deitados na tua rede. Espreito pelo buraco da chave de segurança, mas não vejo chave nenhuma. Deves ter trancado a porta e depois tiraste a chave. Espreito melhor e consigo ver a mesa da cozinha. Estranhamente vejo dois pratos. Dois flutes de champanhe. Uma garrafa de champanhe. Não percebo. Ontem à noite disseste que estavas tão cansado que tinhas que ir logo dormir. Quem é que esteve aí a jantar Carlos? Não me digas que a empregada da limpeza andou a lavar a loiça toda e se esqueceu de dois flutes de champanhe em cima da mesa, que eu não acredito. E como é que explicas também se ter esquecido de dois pratos, dois garfos, duas facas e de uma garrafa de champanhe, tudo em cima de mesa? Ou ela é muito esquecida ou muito desarrumada, mas acho que tens seriamente que repensar se lhe deves continuar a pagar quatro euros à hora. As empregadas de limpeza agora são caríssimas. Nem eu que trabalho quarenta horas semanais na loja à mais de três anos ganho isso. Ainda por cima, são umas desleixadas. Elas querem lá saber, arranjam trabalho em qualquer sítio, o que não falta por aí são senhores a precisaram de empregadas. Vê lá, se ela não é destas emigrantes de leste que agora parece que vieram todas para cá! Carlos? Que estranho!... Toco outra vez à campaínha. Não abres. Ligo outra vez para o telemóvel, nada. Estranhamente sinto alguém a aproximar-se da porta. Vejo o reflexo dos pés por baixo da porta e o buraco do olho para espreitar a escurecer. Já viste que sou eu. Deves estar meio ensonado, é o que é. Andas a trabalhar tanto ultimamente que andas cheio de sono. Já te vou abraçar e dar carinhos. Não faz mal não teres ouvido nem a campainha, nem o telemóvel das doze às dezasseis vezes, eu desculpo-te, eu compreendo. Mas estranhamente a sombra dos pés afasta-se e a porta não se abre. Que estranho!... De repente o meu telefone toca, e é o teu número. Finalmente consigo falar contigo, não estou a perceber nada Carlos, estou a tocar à tua porta e não abres, e porque é que não atendias o telemóvel? Viste-me pelo buraco, que eu vi os teus pés, porque não me abras a porta Carlos, o que se passa? Dizes-me que não estás em casa, que estás a trabalhar, e que quem está em casa é a tua sobrinha, que ontem se tentou suicidar, e levaste-a para tua casa para lhe dares apoio e que fica aí a passar uns dias. Mas eu vi o teu carro à porta, Carlos. Ah, foste com o teu irmão, pois. Desço as escadas enquanto falo contigo pelo telemóvel. Deixa lá estar a rapariga a descansar, coitada. Ela com problemas e eu aqui tão egoísta. Desculpa Carlos. Eu percebo que a queiras ajudar e que ela fique aí uns tempos a viver contigo, mas então e nós, Carlos? Estou cheia de saudades tuas, já não nos vemos à mais de quinze dias, andas tão ocupado ultimamente, eu percebo. Mas e os bifes Carlos? Já viste o calor que está? Vão-se estragar na mala. Sim, eu vou dar uma volta, e depois vou para minha casa, e espero que tu me telefones a ver se podes lá ir jantar comigo. Olha vou até a praia, assim olho o mar e dou um passeio, já que estou em Espinho. Só é uma pena estes bifes tão tenrinhos, vão-se estragar. E olha que não foram assim tão baratos, a carne de porco agora está caríssima com a coisa das vacas loucas. Sim, eu envio-te uma mensagem para o telemóvel quando apanhar o comboio. Olha, acabei mesmo agora de perder um. Ainda me respondes à mensagem, mas quando envio a dizer que estou no comboio, apanhei o das 17h45m, não recebo resposta. Que estranho. Estou aqui em casa à espera que me digas a que horas vens jantar. Já fui ao talho comprar outros bifes, acho que não são tão tenrinhos como os outros. Ainda não disseste nada. Que estranho. Eu só te queria fazer uma surpresa, será que ficaste chateado? Nunca mais disseste nada desde as quatro da tarde, estou à tua espera para jantar e estranhamente já são 2h da manhã.

13.8.07

O CRIME NÃO COMPENSA


Era primavera. Estava uma tarde magnífica de sol. O prof. de Ciências faltou e eu disse: “Vamos roubar roupa à Zara!” Elas as duas ficaram parvas a olhar para mim, mas acabaram por alinhar. Apanhámos o metro e saímos no Colombo. Eu levava uma mochila azul, só com um livro e uma camisola lá dentro. Cortávamos os alarmes, enfiávamos a roupa na minha mochila, misturada com a minha camisola e ninguém ia perceber nada. O plano era perfeito. Não podia falhar. Eu sentia-me um pequeno génio! Eu vi logo um casaco de malha com dois bolsos à frente e com capuz, que me ia ficar altamente. Elas também escolheram duas peças muito fixes. _Estávamos bué entusiasmadas a escolher roupa, porque de repente tudo estava ao nosso alcance. Tipo: tudo! Tudo era possível. Nem interessava o preço, até nos podíamos dar ao luxo de escolher a peça mais cara, porque tipo: duh, desta vez nós não íamos pagar! Quando nos decidimos pelas peças, a Lena entrou comigo no provador e a Vera ficou a dar umas voltas, para despistar. Eu tinha pensado em tudo. Eu e a Lena cortamos os alarmes. Escondemos a roupa na minha mochila. A Lena entrega à miúda a roupa que nós não íamos levar. E eu ria-me por dentro, porque tipo, aquela roupa nós não íamos levar porque já tínhamos mais roupa na minha mochila! Duh! Fazemos sinal à Vera, que veio ter conosco e eu disse: “Agora vamos comer gelados!” E foi quando o alarme começou a tocar. Senti um arrepio pelas costas. Isto não me estava a acontecer! Veio uma miúda pouco mais velha que nós. Olhou-nos e disse: “Peço desculpa mas…” Eu interrompi logo: “Eu admito, eu roubei!” Elas ficaram a olhar para mim com cara de parvas. Não sei me admiraram pela minha coragem de admitir ou se me condenavam por eu estar a fracassar e a desistir do nosso plano, tipo cobarde. Abri o fecho da mochila e caíram logo ali as três peças de roupa na mesa. Então a miúda disse: “Importa-se de passar novamente” E senti-me bué humilhada, mesmo! Já tinha admitido o meu erro, ia mentir agora p’ra quê? Passei e o alarme tocou outra vez. Agora estava mesmo com a minha auto-estima a zero. Não só tinha sido apanhada a roubar, como ainda por cima não tinha sido aprovada naquele estúpido detector de roubos e mentiras. Então lembrei-me que me tinha esquecido de qualquer coisa. Abri o fecho do casaco e tirei os alarmes do bolso da frente. Agora já nada me podia salvar. Eu era ladra, mentirosa e tão estúpida que guardei os alarmes no bolso do meu casaco e me esqueci de os atirar para uma mesa qualquer. O atestado de estupidez estava passado. Então a miúda disse: “É assim, não chamamos a Policia porque não gostamos de confusões, e isto prejudica a imagem da loja. Isto já não deve estar a ser muito confortável com todos os clientes a olharem para vocês. Agora imaginem se vier a Policia. Portanto, vocês têm de pagar essa roupa, ficam com ela, e nunca mais entram nesta loja. Se não tiverem dinheiro podem ainda telefonar a alguém, ou aos vossos pais. É o máximo que posso fazer.” E ela estava a ser muito fixe. Isto já devia ter acontecido mais vezes, parecia que ela sabia o discurso dos procedimentos de cor. Tivemos de ligar aos meus pais, e esperámos 4 horas numa salinha que dava acesso às montras. Ouvimos vários comentários das outras empregadas, tipo:” Como é que puderam estragar a roupa assim?” ou “Cortaram os alarmes? E quê, iam usar a roupa com buracos?” ou o típico “Mata-se uma pessoa a trabalhar para estas miúdas…”. Olhámos umas para as outras. Ali estávamos nós. Sentadas no chão duma salinha que dava acesso para as montras da Zara, à espera que os meus pais viessem pagar a nossa roupa roubada e esburacada, e com um segurança à porta, a vigiar-nos. Como se ainda nos resta-se forças para fugir. Se bem que foi o que me apeteceu. Só pensava em fugir dali para não ter de olhar para elas com ar de falhada e que afinal o meu plano perfeito não era assim tão perfeito quanto isso. E pior ainda, enfrentar os meus pais. Elas não disseram nada o tempo todo. E eu mal conseguia olhar para elas. Quando os meus pais chegaram disseram apenas: “Em casa falamos”. E saíram de lá com a cabeça no chão e a pedirem desculpa a toda a gente. Ainda cozi o buraco do tal casaco de malha com dois bolsos à frente e com capuz mas não me ficava altamente. Não passava de um casaco roubado. Escondi-o no fundo do armário e nunca o vesti. Até que um dia o deitei ao lixo sem a minha mãe saber. Nunca mais falei com a Lena nem com a Vera. Tenho medo que elas falem “no assunto” e seria constrangedor para todas. Perdi duas amigas, a confiança dos meus pais e um casaco de malha com dois bolsos à frente e com capuz que me poderia ter ficado altamente. De facto é verdade quando dizem: “ O crime não compensa!”

10.8.07

3 DESCULPAS PARA NÃO ESTAR COM ELE


Quando olho para trás, não entendo porque estive tanto tempo com ele. Muito menos depois de saber que tu existias. Um ano antes de ti eu estava frágil. Estava a terminar um curso com excesso de trabalho e estudo, e a enfrentar um puro esgotamento do qual não me estava a conseguir desembaraçar. Sentia uma solidão assustada por enfrentar o dilema de tentar entrar num mercado de trabalho e a tristeza por imensas pessoas que ia deixar de ver. Foi neste estado de medo e fragilidade, quase a sair do consultório da minha psicóloga que ele me encontrou. Esta é a primeira desculpa que eu encontro para ter estado com ele. Nessa altura ele esforçava-se, e tenho a dizer que de-ma-si-a-do, para demonstrar o quanto me queria e o quanto gostava de mim, se é que alguma vez gostou de mim. Não acredito sequer que este tipo de pessoas possa gostar de alguém, além da imagem reflectida no espelho lá de casa emparelhada com a imensa colecção de perfumes e cremes que persuadia às marcas a oferecerem-lhe. Levava-me a jantar, entupia-me o telefone com sms, telefonava-me de 5 em 5 micro-segundos porque tinha imenso tempo para isso, o que de certa forma me fazia sentir especial. O problema foi quando deixou de ser free lancer e passou a ter um horário e local de trabalho, e o substituiu por mim. Deixou então de ter tempo – que é uma desculpa que não existe, pois o tempo além de não existir, todos o têm, o dia tem sempre 24horas e o dele, certamente que também tinha.
E de repente, como uma criança na feira popular – que espero ansiosamente que renasça ao terceiro dia para eu poder ir brincar contigo – fiquei a olhar a roda gigante onde tinha andado, a apertar na mão o pau vazio que outrora me lambuzou com algodão doce, a sentir o vazio de uma feira cheia de crianças divertidas, e eu ali sem perceber porque me tinham tirado o rebuçado da boca, depois do mo terem dado a provar. O que eu não sabia é que somente a primeira película do rebuçado era caramelizada, porque no fundo era um rebuçado mais amargo que a própria solidão. Mas isso, eu so descobri depois. Depois de ter lutado por andar novamente naquela roda gigante. O que eu queria era aquilo que ele me estava a retirar. Penso que isto é uma característica comum a muitas pessoas, quando nos retiram algo, ou nos dizem que não, queremos muito e só descansamos até o termos novamente. Esta é segunda desculpa. Quando finalmente comecei a saborear as varias camadas do rebuçado, já eu sofria de uma espécie de feitiço, em que ele me fez acreditar que ele era o melhor que eu podia arranjar, que ninguém iria dar-me atenção ou querer-me, e mais valia eu ficar muito contente por ele estar comigo. E quando comecei mesmo a acreditar nisto, deixei de acreditar em mim, deixei de sonhar, deixei de esperar por ti que um dia me irias abraçar toda a noite, nunca irias adormecer sem me dar um beijo de boa noite, me irias escrever postais decorados com palavras lindas, e me irias levar a passear de mão dada nos jardins da Gulbenkian. Acreditei que ele era o melhor que eu podia arranjar, e mal por mal não estava na solidão e esta foi mesmo a terceira desculpa. Depois vieram as discussões, o álcool, as minhas inseguranças e quotidianas desconfianças, ele a fazer olhinhos a tudo o que tinha pernas, duas, ou três, ele a chegar a casa às 4h da manhã completamente ensopado em álcool, depois de levado em braços e me expulsar de sua casa aos gritos desfilando toda uma lista de palavrões, insultos e certezas que nunca mais me queria ver e para eu ir para minha casa. E eu ia. Descia a rua às 4h da manhã com um saco de duas camisolas e um livro da Margarida Rebelo Pinto, e prometia-me a mim que não iria voltar. E no dia seguinte voltava, para na semana seguinte ele terminar para sempre mais uma das 54 vezes a nossa relação e no dia seguinte dizer que me amava com a mesma voz e a mesma boca com que dizia que me odiava. E por essa altura, quando eu já tinha deixado de acreditar que eu mereço bem melhor do que dormir na mesma cama que alguém que de costas viradas adormeceu sem dizer boa noite e sem perceber sequer que eu existia, eu estava a começar a ficar sem desculpas para estar com ele. E nesse momento também nenhuma daquelas três era valida ou actual. Eu já sabia que tu existias, já há um ano, e que eras o tal príncipe de sobretudo preto comprido que a qualquer momento me poderia salvar daquele sexto andar de onde ele atirava o cinto às 5h da manhã porque não o conseguia tirar das calças, e que bastava eu fazer um sinal e tu dizias-me boa noite, toda a noite. E quando comecei a perguntar-me afinal porque estava com ele se nesse momento já não tinha desculpas para isso, tinham passado dois anos, muitas mentiras, insultos e telefonemas, e sem qualquer desculpa, depois dele ele fingir que ia para casa dormir e afinal ter ido para uma discoteca gay com uns amiguinhos, eu desliguei o telefone e desliguei-me a mim num silêncio de três dias, ao fim dos quais renasci e lhe anunciei que pela primeira vez, era eu a dizer acabou, mas desta vez a palavra fim tinha mesmo esse significado, porque eu sempre tive um bom dicionário, eu já não tinha era desculpas.

8.8.07

A TUA PASSAGEM DE ANO




Prometes-me que não bebes? Prometo.


Chegamos bem dispostos. Conversamos com os amigos. Pegas na máquina fotográfica digital de alguém, e decides que tens imenso jeito para fotografia, eu por acaso não acho nada, e começas a registar digitalmente aquele acontecimento. Mas em vez de fotografares as pessoas, como seria de esperar numa ocasião como esta, não, vais fotografando as malas, os sapatos, os cintos e os relógios que cada um decidiu usar nessa noite. Chamas-lhe fotografias de pormenor. Eu chamo-lhe fotografias disparatadas. Estou a rir-me com a Patrícia, quando apareces com dois flutes de champanhe. Agradeço o meu. Olho-te com um olhar inquisidor, assim género inspector de
gabardina bege saído de um filme francês
É só para o brinde. Eu prometi-te que não ia beber.

Lá prometer, prometeste, mas isso não que dizer necessariamente que o cumpras. Nisso és um politico perfeito, numa demagogia de enfeitiçar, mas que magicamente nunca se concretiza. Claro que por volta da meia-noite, essa hora mágica da cinderela, em que o milagre se concretiza, não houve milagre nenhum, pois já era de esperar, estás bêbado. Já transformado em abóbora.


É só esta noite! É para comemorar!

Eu comemorava era se pelo menos esta noite, para marcar a diferença, e tornar isto num acontecimento especial, não tivesses bebido. Mas parece que é uma noite igual às outras 365, em que chegas a casa e atiras os sapatos pela janela do sexto andar aos gritos não sei muito bem com o quê, ou com um sorriso de criança disparatada decides limpar os espelhos do quarto às duas da manhã e insistes levar a tarefa até ao fim, enquanto eu me rebolo na cama e me rio. Mas hoje não me rio. Pelo menos contigo. Contigo, esta noite não há motivos para me rir. Mas não me vais retirar completamente a minha gargalhada. Estou aqui, vou dançar e divertir-me. E divirto-me com os amigos, entre gargalhadas e canções que todos sabem a letra de cor, apesar de te ver cair redondo no chão, quando o segurança te levanta e discutes com ele, porque ele não sabe quem tu és.

Você não sabe com quem está a falar!

E inocentemente, coitado, ele achava que tu eras apenas um ser humano igual aos outros todos ali dentro. Quer dizer, igual, ele deve-se ter percebido que não eras, pois eras o único cujo álcool empurrava para o chão e não te permitia permaneceres sentado nessa cadeira. São três da manhã e digo à Patrícia que o esforço para me divertir começa a ser demasiado, cada vez que olho para ti. Sim, porque entretanto esquecestes-te completamente que eu existia, porque já não olhas nem falas comigo há três horas. Agora vejo-te a roçar numa parede. Agora vejo-te a roçar num varão, género pilar de apoio que existe no meio do bar. Deves estar a fazer algum show de strip, e eu não sei. Na tua cabeça, deves estar a visualizar que és o protagonista do último espectáculo do passerelle. Não esperes é aplausos nossos, nem notas de cinquenta euros na roupa, porque nós esperamos, por favor, que não a tires.


Vem cá!
Depois começas a dançar agarrado a um rapaz, que ninguém sabia quem era e que tinha passado metade da noite a mandar piropos bastante desagradáveis à Patrícia. Mas como ninguém estava a perceber nada, e a fingir que não via, eu fui solidário com o grupo e ceguei-me a mim próprio, qual Édipo Rei. Não foi possível fingir a cegueira colectiva durante muito tempo, porque por volta das quatro da manhã adormeceste, sentado, ou numa posição esquisita que neste caso até se pode chamar sentado, numa cadeira lá ao fundo. Decidi dançar e rir-me até me cansar para me despedir da noite, do ano, e talvez de ti. Quando me cansei, despedi-me de todos, chamei um táxi, que decidi que me iria levar sozinho a minha casa. Tu ficarias a dormir na tua cadeira, qual bela adormecida embriagada. O que me parecia bastante justo, já que tu nem sequer me viste durante a noite, e fizeste algumas coisas, que a meu ver não são dignas de um namorado fazer, então porque haveria eu agora de me preocupar contigo? Mas infelizmente o Rui, que é supostamente um dos teus 300 melhores amigos, e o namorado da Patrícia, apesar de ser um tipo impecável, decidiu acordar-te. Que pena. Estavas tão bem a dormir o teu sono embriagado e agora tenho de levar contigo no táxi até casa. Digamos que foi a viagem de táxi mais surreal que vivi. Vinte minutos de auto-estrada a tentares vestir um blaser. Vestiste-o de todas as maneiras possíveis e imaginárias.


O blaser! Está ao contrário!

Dás murros contra o banco da frente enquanto gritas. O taxista olha para trás. Novas tentativas desesperadas de tentar enfiar um braço numa manga, na posição correcta. Nunca tinha eu pensado que poderia ser tão difícil vestir um blaser. Mas tens razão. Vestir um blaser, num táxi em andamento, às seis da manha, depois de tanto álcool, não deve ser de facto muito fácil.Importaste de dizer ao homem para parar, para eu me vestir?Eu importar, até nem me importava. Desde que o vestisses, aqui no meio da auto-estrada e que saísses com ele vestido, e de preferência, aqui e agora. Saías tu e o blaser, do táxi e da minha vida. E única frase que te digo, seis horas depois de ter começado o novo ano, da melhor maneira possível é:Bom ano novo também para ti!

26.7.07

BOCA CERRADA!





Não vale a pena as meninas ficarem assim tão contentes. Estas flores que eu venho entregar, são para o único rapaz da loja. Não, não são para as meninas. Pois, imaginem, agora até já os homens oferecem flores uns aos outros. Isto está tudo muito diferente. A nós, já ninguém nos oferece nada. O meu marido em dez anos de casados nunca me ofereceu flores. Se eu não trabalhasse numa florista, já nem sabia o que era pegar numa raminho de flores. Já não há cavalheiros como antigamente. Quer dizer, haver até há, mas agora oferecem as flores aos homens. Isto agora está tudo muito diferente. Mas é tão engraçado. Ele nem sabia o nome do rapaz. Tanto que eu escrevi aqui no cartãozinho o próprio nome da loja. O seu colega que não se ofenda, mas foi mesmo assim. Depois de pagar, disse-me: peço-lhe por favor que entregue ao único rapaz desta loja. E eu aqui estou. Ele estava um bocadinho indeciso. Achava que rosas vermelhas era demasiado forte e não era esse o “simbolismo” – dizia ele – que queria dar. Brancas, é de paz, e dá-se às senhoras, ou amigos. Havia de ser um bocadinho mais. Eu já estou habituada. Os homens quando oferecem alguma coisa, estão sempre indecisos. Nunca sabem o que fazer. Pelos vistos, até quando oferecem flores aos próprios homens. Aconselhei-lhe estas gerbérias cor de laranja que são bem bonitas, e assim não o compromete. Ele até disse que o rapaz adora cor de laranja. Depois é que eu não percebi. Meteu nas flores uma folha A4 com umas coisas escritas, parecia um poema, que tirou da mala. Eu não sei, que eu não me meto nessas coisas. Dobrou em quatro. Eu lá o ajudei a prender o papel com esta molinha em miniatura, que fica um amor. Ai, acho tão engraçadas estas molinhas assim em miniatura para prender postais. Há em todas as cores. Eu tenho lá sempre. As senhoras, é que costumam de gostar muito, para oferecer às amigas. Ele quis logo uma em cor de laranja. O que é uma cor um bocadinho esquisita para um rapaz gostar. Cor de laranja. Mas eles lá sabem. Eu não me meto nessas coisas. Cada um sabe de si e eu não tenho nada a ver com isso. Mas, está a ver, como eu sei mesmo aconselhar? Uma pessoa ao fim duns anos habitua-se, e olhe, é mesmo assim. Aparece-me lá de tudo, mas eu não tenho nada a ver com isso. Ali o cliente compra, às vezes pede a nossa opinião, paga, e vai embora. A gente não tem nada a ver se as flores são para amigos, família, avó que morreu, tia doente no hospital, prima que deu à luz, fim do curso da sobrinha, graxa à patroa, despedida da colega, aniversário da filha, ou se é para a mulher de anos de casamento ou peso na consciência por ter oferecido um igual à amante. O cliente faz o que quiser, e a gente nem se mete. E não dizemos nada. Não vale a pena fazerem-nos perguntas, que a gente não dá informações nenhumas. Ali tudo é sigilo. Boca cerrada! Trabalhar numa florista é muito sigiloso. Aquilo é pior que segredo de Estado! Elas bem lá vão fazer perguntas, mas eu, olhe: boca cerrada! Mas uma vez tive mesmo de falar. Apareceram lá da Judiciária, para eu identificar um ramo. E tive de deixar de ter boca cerrada e dizer quem o comprou, a que horas, o modo de pagamento, quanto tempo teve na loja e tudo. E foi assim. Parece que o ramo trazia umas coisas. Mas eu não sei de nada disso. A gente limita-se a vender o ramo que o cliente quer, e depois de ele pagar ele lá faz o que bem entender. Olhe, espero que o seu colega goste das flores. Se não gostar, que me as dê a mim, ponho-as lá em casa na sala, que ficam mesmo bem naquela jarra avermelhada que comprei no outro dia na baixa. Ou que as levem as meninas, já que os vossos namorados não vos oferecem flores! Ah, já não se fazem homens como antigamente! Cerra-te boca!

23.7.07

O ALBERGUE




Olha, Gonçalo, se era para me fazeres isso, vais valia não me teres beijado nessa noite. Desculpa lá que te diga, mas é verdade. Sim, demos uns beijos e eu até gostei, mas não precisavas de me telefonar uma semana inteira e enviar-me mensagens escritas à sobremesa. Ainda me lembro num dos teus telefonemas de horas e horas, de a meio dizeres: “Pensei que me a meio da conversa me ias convidar para ir a tua casa!” E de facto convidei, uma semana depois. Era sexta à noite e não me apetecia a típica queca da one night stand. Apetecia-me conversar, jantar com alguém à minha frente e falar. Falar sobre o que quer que fosse, falar. Conversar, isso sim. Sentámo-nos nas almofadas encarnadas no chão, enquanto refrescávamos com vinho branco acompanhado com esparguete com cogumelos e ananás. Depois confessaste-me que ficaste em pânico por pensares que eu só comia comida vegetariana, e que comigo não irias conseguir sobreviver à mesa! Lembro-me de te dizer que no final do curso queria cantar jazz e antes de ouvirmos Billy Holiday, atirámo-nos para o sofá. Ali permanecemos o fim-de-semana todo, entre sumo de laranja, o canal Hollywood, algumas gargalhadas e umas cambalhotas para a frente e outras para trás. Nessa semana não nos vimos, e depois tu disseste que eu passei todo o fim-de-semana distante. Mas eu já estava distante desde que te conheci, quase impenetrável, mesmo depois de me teres penetrado. Não me queria envolver, e certamente não me queria magoar. Mas tu tinhas que me entupir o telefone com mensagens, não era Gonçalo? Mais uma semana e redimi-me. Era novamente sexta à noite, parece que este era o teu dia semanal de sorte Gonçalo, e convidei-te para irmos S. Jorge, ver a Madonna a esgrimir no 007. Claro que também convidei uma amiga minha, para o caso da coisa correr mal. Estamos a subir a Avenida, quando deslumbro a fumar um cigarro, um gorro branco em malha tricotada, com lábios carnudos e olhos grandes. Digo à Sandra: “Chega! Redimo-me! Este homem é um pão!” E assim, baixei as armas e dei-te a mão no escuro do cinema S. Jorge e vi-te sorrir. Percebeste que dei algum trabalho, mas que me tinhas conseguido conquistar, não foi Gonçalo? Só depois é que me explicaste que vivas com um amigo teu, e que ele era meio estranho. Eu ao início não percebi logo o que querias dizer com meio estranho. Entendi depois que ele devia estar apaixonado por ti, porque fazia cenas de ciúmes quando vinhas ter comigo, o que até achei alguma graça, ter uma bixinha embeiçada por ti. Se calhar, até gostava mais de ti, do que eu. Sim, Gonçalo, porque no início não era paixão, era... deixar-me ir numa conquista de lábios e voz carnuda. Mas quando me disseste que ele já tinha mandado dois ex-namorados para o hospital com hematomas nas pernas de tanto serem pontapeadas, confesso que comecei a sentir alguma preocupação. Eu que te imaginava a viver com um rapazinho de saltos altos aos gritos pela casa, furiosa por o macho ter arranjado namoro, agora o cenário pintava-se um pouco mais macabro. E quando soube que o ultimo ex-namorado, quando quis sair de casa e levar os seus pertences, ele chamou a policia e disse que era um ladrão a roubar-lhe móveis, aconselhei-te a arranjares casa o mais rápido possível e sair dali. Não me estava muito a apetecer começar a namorar com alguém que vivia com um psicopata, não sei se me estás a perceber. E não sabia eu, que me ias telefonar do Hospital com a perna direita com cobertura de hematomas, que ele mesmo tinha desenhado no meio da rua com as suas texanas. Imagino a figura de texanas a tentar equilibrar-se em cima do capot do teu carro, aos pulos como se de tratasse de um colchão e tivesse 4 anos. Ele dizia o quê Gonçalo? Qualquer coisa como: “Não vais namorar com essa pessoa! Vais namorar comigo! Vais namorar comigo! E vais! E vais! E vais! E sim! E sim! E sim!”? E não Gonçalo, não imaginava sequer quando me beijaste naquele outro dia, que te ia albergar em minha casa, a ti e toda a tua mobília, “enquanto não arranjas um sítio para viver!” Mas não foi preciso esperar muito, pois não Gonçalo? Porque no fim-de-semana seguinte, depois de me perguntares se eu aceitaria namorar à distância e eu ter respondido que não, foste a casa dos teus pais, e quando eu te esperava no domingo à noite, fizeste-me esperar um pouco mais. E como quem espera, desespera, ligo-te terça à noite, a perguntar o que se passa, porque não voltaste, e porque não sei nada de ti. Mas o teu silêncio, não seria uma novidade, não é Gonçalo? Disseste-me que ainda essa semana virias a Lisboa, e eu percebi pela escolha do verbo, que não ias voltar. Mas se não ias voltar, porque é que me beijaste naquela primeira noite, Gonçalo? Conquistaste-me para depois me abandonares? Vieste buscar as tuas coisas, ofereceste-me o teu quadro preto, “é para te lembrares de mim!”, e disseste que à distância não era impossível, que eu podia ir ter contigo ao fim de semana, e tu virias ver-me a Lisboa, sempre que pudesses. Ainda me disseste que assim que chegasses a casa me ligavas. E depois Gonçalo? Que aconteceu depois? Como é que termina esta história? Diz-me! O que queres que escreva a seguir? Que passei 3 meses a ligar-te e tu ou não atendias, ou se por engano atendias, desligavas em 3 segundos, antes de dizer “já te ligo”, como me fizeste no meu dia de aniversário? Que nunca sei se um dia me vais entrar por essa porta, porque afinal nunca me devolveste as minhas chaves. Nem as chaves, nem aquele cachecol preto enorme que eu adoro. Ainda te enrolas a ele, no Inverno? Fica-te tão bem. Sabes? Antes de levares as tuas coisas, tirei-te aquele cd da Billy Holiday e uma tesoura. Não sei para que quero a tesoura, mas sempre adorei tesouras. Talvez seja porque há sempre um dia, em que tenho de cortar com o passado e deixar de o perseguir, porque pior do que querer falar com alguém, é querer falar com alguém que não quer falar comigo. Olha Gonçalo, comigo está tudo bem, obrigado. Conheci um grande amigo pianista e acho que vou mesmo cantar jazz. Mas, sabes, podias-me ter avisado de tudo isto antes de me teres beijado nessa outra primeira noite.

20.7.07

MATANÇA DO CABRITO


A vida custa a ganhar a todos! Sou travesti, drag queen, transformista, a palavra que quiserem usar, existem muitas diferenças e muitas categorias dentro do género! Trabalhei como Drag durante muito tempo numa dessas discotecas. Mas depois fui despedida. E como isto não ‘tá fácil, tenho de matar alguns cabritos lá em cima. Aquilo lá em cima não é facil. E não é fácil ter de apanhar dois autocarros p’ró Cacém p’ra poder apanhar o comboio p’rós restauradores, p’ra depois apanhar o metro p’ro Marquês, e ir trabalhar assim vestida. Não é fácil morar em “Valha-me Nossa Senhora de Baixo” e andar em tacões. Mas já nem pra travesti me querem, e não sei fazer mais nada. Só me resta matar uns cabritos. E pelo menos vou linda e pago as contas lá de casa. Casa! Um barraco! E queimado ainda por cima! Sim, que no outro dia a velha deixou o fogão ligado e adormeceu. Quando nos demos conta estava a casa a arder. Nem os posters da Madonna consegui salvar. Tudo porque a minha mãe é boazinha e não põe a velha no lar. Se fosse eu, já tinha corrido com ela. Porque quem paga a gaita das contas e dá dinheiro p’ra comer sou eu, que a minha mãe já não tem forças nas pernas p’ra andar a lavar escadas. A velha no inicio começava aos gritos que não queria um neto maricas nem muito menos de saias e que se o meu avô visse, e se o meu avô visse, mas quando viu que as papas que ela come e as fraldas que usa é o neto de saias que as paga, começou logo a piar mais fininho. E se o meu avô visse, e se o meu avô visse, vinha era atrás de mim a correr a tocar gaita-de-foles que estas pernas numa meia de rede até fazem parar o trânsito! E assim vivemos as três! Agora que fui despedida só me resta ir lá pra cima. É que, eu tinha comprado uns tacões novos todos em strass preto que uma me trouxe de Londres e que cá não há, p’ra estrear um número na Gala do Travesti! Tinha gasto o dinheiro todo e era fim do mês, e não tinha como pagar a renda e a senhoria já nos tinha ameaçado que nos despejava. Então p’ra não ir p’ra rua, tirei emprestados uns trocos do fundo de caixa. A gorda chegou na hora certa, certa pra ela, pra mim foi bem errada, e apanhou-me com a boca no trombone. Eu que de boca ate sou perfeitinha, e nunca nenhum se queixou. Também ai deles! Mato cabritos lá em cima. Ando ao ataque, na vida, como queiram chamar-lhe. Dêem as voltas que lhe derem e chamem-lhes os nome que chamarem fazemos todas o mesmo. Vendemos o corpinho. Vendemos, não. Eu não vendo, eu alugo. Alugo por meia hora, e depois é bazar que há mais quem queira, mas no fim o corpo é meu. Sou como sou e não se metam comigo que esta tesoura já deixou algumas valentes marcas nalguns espertinhos que não queriam pagar. A rua não é fácil. Mas lá em cima já me respeitam. Temos de nos defender. Até das antigas, que não deixam trabalhar a gente, querem os clientes todos p’ra elas. Uma já ficou sem um olho que é p’ra ver melhor com quem se mete! E agora são as novas. Aparecem lá bichinhas de 20 anos que nem pintar se sabem. Até envergonham a gente. Anda uma bicha a poupar dinheiro pró rímel, eye liner e blush, a ver esses programas da sic gaja a ver se aprende a melhorar o rostinho e essas macacas enchem-se de purpurina e acham que estão pintadas. No outro dia um cliente queria por 20euros no carro, eu disse que não, no carro são 30, a Katia também disse que não, e a bicha foi fazer o cliente por 20. Quando voltou, levou tanta porrada que andou uma semana a coxear nos tacões. É pra aprender. Vem pra aqui habituar mal os clientes e depois nós, é que as pagamos que não há quem lhes dê conta! Querem fazer eles o preço? Quem faz o preço não é o cliente, é a gente. Aqui não há de tudo como na farmácia, e isto não é o da Joana! Lá em cima quem faz o cliente não é a mais barata, é a mais bonita. Essa é a regra. Lá em cima há regras e quem não as aprende leva porrada até saber a tabuada de cor e aos saltinhos. É assim a vida de quem anda lá em cima a matar cabritos. Que a vida custa a ganhar a todos!

12.7.07

AMIZADES PRÉ-HISTÓRICAS




Tu não vais acreditar! Chegaram com um hora e meia de atraso. Entraram com os toldos para pendurar na varanda, já eu estava furioso da minha vida, pois já tinha ligado para lá a confirmar que eram brancos e eles vinham a caminho com toldos azuis às riscas. Mas a minha varanda é alguma tenda de praia? Não vou propriamente pôr-me a fazer sumos de maracujá e a oferecer garrafas de 33cl de água fresca aos vizinhos! Entraram e na sala partiram logo um grande jarrão japonês que tenho à entrada. Calei-me, não disse nada. Tentei conter-me para não criar mau ambiente. Perguntei-lhes quanto tempo achavam que demoravam, afinal estavam hora e meia atrasados e eu tinha coisas para fazer a partir das três da tarde. Lá começaram a desenrolar os toldos e foram então para a varanda. Foi aqui que o pesadelo de facto começou, revelando os verdadeiros homens das cavernas que deambulavam lá por casa. Com umas patas gigantescas que habitavam uma espécie de botas imundas, iam calcando, pisando e esmagando as plantas que tinha na varanda. Eu não tenho propriamente uma estufa montada cá em casa, mas adoro plantas e vou recolhendo algumas variedades pelas minhas viagens. Espectáculo de variedades começaram eles a fazer a tentar equilibrar os toldos, que mais parecia um número de malabarismo. Vou para o quarto para não ter que levar com os ruídos sonoros que os homenzinhos grunhiam daquelas bocas imundas, mas sou obrigado a voltar à varanda. O estilhaçar de vidros informou-me que tinha acabado de perder o tampo da mesa ao fundo da varanda. Apenas consegui deixar escapar entre dentes: tenham cuidado, por favor. E voltei para o quarto. Estes homens são completamente pré-históricos! E como na pré-história não existiam parafusos, esqueceram-se deles e tiveram que ir os dois lá abaixo à carrinha ou à fábrica, não percebi muito bem. O que percebi, é que já passa da uma da tarde e das criaturas medonhas, nem sinal. Eles que nem pensem que me vão deixar isto assim! Uma hora depois, depois de eu ter ligado a desmarcar as coisas que tinha planeado fazer, aparecem-me os australopitecos à porta. Mais um vaso partido. Dois ramos duma planta enorme que a minha mãe me ofereceu, e agora os almofadões já servem de escadote para aquelas botas nojentas.
Estou a ver que assim que saírem tenho de desinfectar a casa toda e logo á noite tenho aqui um jantar. Eu não acredito! Agora é que eu não acredito! Montaram os toldos ao contrário! Isto realmente só a mim! A minha varanda parece uma caverna pré-histórica, os toldos já são pretos daquelas mãos encardidas, e as paredes da varanda parecem exibir verdadeiras gravuras rupestres. De onde vem esta gente? São grunhos, mal-educados, brutos, sujos, nada profissionais e o que mais me enerva é que no fim ainda vou ter de lhes pagar. Esta situação é completamente absurda! Mais valia eu ter-me mudado para Foz Côa, e montar uma barraquinha de sumos de fruta! Antes de lhes pagar, o que muito me custa, vão à casa de banho lavar as mãos. Eu, que já não os posso ver à minha frente, digo-lhes que sim, visualizando já as minhas toalhas novas tingidas por aquelas patorras de bichos parentes dos dinossauros. Não há o mínimo respeito pelos outros e por aquilo que não lhes pertence! E se eu também fosse a casa deles com as botas cheias de lama partir mesas e cadeiras? Às tantas nem iam estranhar, eu é que não conseguia entrar, pois para terem este tipo de educação, devem viver em barracas! Não aceitamos cheques, amigo! Confesso que a partir desse momento, a nossa amizade tinha passado todos os limites e eu não me responsabilizei por aquilo que disse a seguir!

9.7.07

INSÓNIAS CAMINHANTES

Sabe, Senhor Doutor, eu não sou doido. Eu só não gosto de dormir. Então ando a noite toda lá por casa. Havia uma altura em que via as televendas na televisão, mas os anúncios deixaram de me interessar, até porque estão sempre a repetir a mesma coisa. E além disso passava demasiado tempo sentado a ver televisão, o que me fazia sentir um perfeito idiota. Já viu o tempo que se perde sentado a ver televisão, Senhor Doutor? É quase tão inútil como o tempo que se gasta a dormir. Então comecei a arrumar a casa, a mudar as posições dos homens e a pintar as paredes, mas recebia muitas queixas dos vizinhos, que inutilmente insistem em querer gastar uma noite inteira a dormir. Então decidi ir a noite toda para a rua caminhar. Caminhava por todas as ruas até me cansar. Esta cidade tem imensas ruas todas diferentes e não imagina as coisas interessantes que se passam durante a noite. Há imensos sem abrigo que dormem nas portas das lojas. Descobri que alguns guardam os caixotes e as mantas ali perto da Igreja da Batalha. No outro dia, estava eu quase a chegar a casa, vi um já velhote, muito enrolado nas suas mantas rotas, a masturbar-se. Estava cheio de frio, devia ser para se aquecer. Mas há um, Senhor Doutor, que dorme atrás do Teatro Nacional S. João, que passa várias vezes por mim durante a noite, sempre a rir-se e com um pacote de vinho de mesa. Na outra noite resolvi segui-lo. Descobri-o atrás do Teatro, com as calças em baixo e a masturbar-se. Acha que os sem abrigo são tarados, Senhor Doutor? Ou também não conseguem dormir e não têm mais de interessante para fazer? Eu no outro dia quis sentir a mesma sensação e fui ali para um jardim em Sá da Bandeira, para o meio das árvores masturbar-me. Eram quase cinco da manhã. Nesse dia, quando cheguei a casa, dormi mais uma hora do que o costume. Se calhar fiquei relaxado. A partir daí, todas as noites, no final do meu passeio nocturno pelas ruas da cidade, vou até a um jardim, e atrás de um arbusto ou de uma árvore, masturbo-me. Sabe, Senhor Doutor, eu não sou doido. Eu só não gosto de dormir. Ali em Sá da Bandeira, estavam em obras. Estiveram quase um ano para acabar as obras. Isto porquê? Porque só as fazem de dia! Já viu se as continuassem também de noite? Demoravam metade do tempo. O pior é que depois essas obras deixavam de ser um divertimento durante a noite. Sim, Senhor Doutor, que quando passava por lá, pelas quatro da manhã, cheguei a ver muitas mulheres, rapazes e travestis de joelhos aos pés de homens de bigode muito atrapalhados. Esses também não dormem, Senhor Doutor. Devia-se dormir por turnos. Umas pessoas dormiam umas horitas de manhã, outras à tarde e as que não quisessem dormir, podiam passar a noite toda acordadas. Devia haver uma lei nocturna, Senhor Doutor. Já viu o que é eu passar a noite toda acordado e não ter ninguém com quem conversar? A única companhia nocturna são os tarados dos sem abrigo e os tarados dos homens de bigodinho muito atrapalhados que pagam aos rapazes ou travestis para se ajoelharem. Não estou a descriminar ninguém Senhor Doutor, mas deviam acontecer coisas mais interessantes durante a noite, para quem não gosta de dormir. Eu não sou doido, Senhor Doutor. Já viu que animada e comprida pode ser uma noite?

6.7.07

METRALHADORA QUE ASSOBIA!


Sou uma mulher encantada ao ver-te dormir. Pareces um bebé pequeno, inofensivo e frágil. Olho o teu rosto e sorrio. Esse rosto pálido. Encanta-me. Às vezes nem pareces tu quando dormes. Ficas tão doce. Ficas tão longe daquele homem agressivo que gesticula aos gritos quando a sopa está fria. Olho-te. Acaricio-te a cara. Dou-te um beijo. Deito-me ao teu lado. Contemplo o teu sono, o teu rosto e tento adormecer. Ouço a tua respiração. Ouço-te. Ouço a respiração que domina todo o quarto. O som começa a entrar-me nos ouvidos. Entras-me nos ouvidos. Começas a ressonar. Típico dos homens que bebem cerveja. Essa barriga está a ficar um pouco grande, não é? Respiras pela boca, com a boca toda aberta. Ou melhor, ressonas com a boca toda aberta. Aquele ressonar bem audível género metralhadora que intervala com um leve assobio. Esse assobio é para quem? Deve ser para alguma mini-saia que se passeia na estrada quando passas no camião. Não tens mesmo vergonha nenhuma. Nem a dormires. Nem a dormires ao lado da tua esposa deixas de mandar piropos a miúdas que podiam ser tuas filhas. Com esse ar branquinho e frágil aí a dormires e eu aqui. Abano-te. Abano-te várias vezes, a ver se deixas de ressonar. A ver se me deixas dormir em paz e sossego. Porém sempre sem sucesso. Dou-te um encontrão bem valente. Passados poucos minutos voltas à posição inicial. Abres novamente essa boca. Ligas novamente a metralhadora que assobia. E se eu te tapar a boca? Podia tapar-te a boca. Podia colocar a minha mão nessa boca suja que raramente é visitada pela escova de dentes, e abafar esse som trémulo que me ensurdece. Ainda me mordias a mão. Com a força que tu tens, em vez de dormir, íamos parar às urgências do hospital Santa Maria para levar cinco pontos na mão e ser toda cosida. És muito bruto Luís António. Se eu ligasse a televisão e a radiofonia no volume máximo, tu ganhavas em poluição sonora. E se eu te tapar a boca com uma almofada? Assim tapava-te a boca e o nariz. Evitava qualquer hipótese de sonos ensurdecedores. Mas assim também deixarias de respirar. Ainda me morrias aqui na cama completamente abafado. O que afinal até não era assim tão mau. Afinal podia dormir em modo silencioso. Assim todas as noites tinha-te aqui ao meu lado, sossegadinho a dormires como um anjinho bebé. Inocente. Calmo. Tranquilo. Sem interromperes nem perturbares o meu sono. Poder eternamente dormir em paz contemplando o teu rosto angelical nessa expressão de menino de coro a dormir. Seria perfeito. Nunca mais ter de sentir as metralhadoras que assobiam aqui na minha cama. Olha que até nem seria assim tão má ideia tapar-te essa bocarra com a almofada Luís António. O pior é que ainda acordavas e resistias. E como tens uns braços fortes, arrancavas-me a almofada das mãos e não me deixavas sufocar-te. É melhor amarrar-te os braços e as pernas à cama. Assim fico mais descansada. Devia amarrar-te para me deixares terminar o meu serviço em paz. Afinal é um bem à sociedade Luís António. À sociedade, e principalmente ao prédio. Sim, ainda ontem quando subia as escadas até este maldito quarto andar sem elevador, com as compras do mini-preço, ouvi a Dona Rosa a falar com não sei quem sobre os teus roncos. “Parece um porco em dia de matança” dizia ela. E olha que até tinha razão. Não sabia ela que o tal dia talvez fosse hoje. Também anestesiado com as dez cervejas que deves ter bebido depois dos carapaus fritos, já nem sentias nada. Era uma matança calma, tranquila e sem agitação. Calma como essa tua expressão de menino que ajuda à missa e vai sempre à catequese. Ficas Tão fofinho a dormir. Não fosse esse ronco que faz tremer as molas partidas do colchão e eras a inocência em pessoa. Mas ao fim de algum tempo ias começar a tresandar. Esse cheiro podre a cadáver, acho que me ía enojar um bocado. Talvez nem me conseguisse deixar dormir assim tão bem. Não que fosse assim tão diferente do cheiro que por norma tresanda de ti todos os dias, e vivo. Ou melhor, meio morto. Sim, porque a cambalear como vens da porta de casa até à cama, pergunto-me seriamente não serás apenas um zombie que entra aqui todas as noites só com o propósito de não me deixar dormir. Tas a ver como afinal até nem sentias nada se te tapasse com a almofada, Luís António? Mas se calhar ias começar a ficar sempre com essa expressão de parvo, de boca aberta que mais parece os buracos daquelas obras do Marquês. Mal por mal, mais vale deixar-te assim e dar-te mais um encontrão. No espaço entre cada dois encontrões voltas sempre à expressão de bebé. Puro. Inocente. Só dá mesmo vontade de ficar a contemplar-te. Ficas tão inocente. Será que todos os homens quando dormem ficam assim? Dormem, e transformam-se nuns seres preciosos, a que só apetece dizer “oh, tão gugu dada”. Gagá fico eu se não adormeço. É melhor ir dormir para o sofá da sala, enrolada à manta que comprei nos ciganos. Enrolo-me na manta com a luz do candeeiro que era da avó Cremilde acesa. Não vás tu precisar de alguma coisa a meio da noite. Cair da cama e torcer um braço por exemplo. Adormeço a recordar esse rostinho angelical de boca aberta enquanto penso onde arranjar uma metralhadora para te ganhar em poluição sonora. Mas uma das verdadeiras, daquelas que quando assobiam, fazem-no para festejar por já terem exterminado o inimigo.

2.7.07

2 EM 1, EM LATA

Ainda da gostava de saber, Ana Rita, porque motivos passa tanto tempo no relógio desde a hora em que combinamos sair e a hora de fecharmos a porta e chamarmos o elevador? Quanto tempo precisas tu para te arranjares? Para se marcar uma saída à noite contigo, é preciso ligar à tua agenda estética com quantos dias de antecedência? As namoradas dos meus amigos, segundo eles contam, também se perdem em frente ao espelho da casa de banho, mas umas horas depois de as procurarem bem, eles lá as encontram perdidas entre cremes e cenas de maquilhagem. Mas tu, acho que consegues superar todo um ritual de espera. Eu vou tomar banho. Tu inventas que podes ter fome e vais comer um iogurte com cereais. Eu ponho apenas um creme na cara, digo um, e visto os boxers e as meias. Tu despes-te e é melhor que vás tomar banho já, que os boxers entram e saiem sozinhos e depois já não saímos esta noite! Eu visto uns jeans e um pólo verde. Tu começas aos gritos na casa de banho. Não fiz a depilação! Vai de calças! Dizes que está calor e que é só um instantinho! Ora é exactamente aqui que elas começam! Um instantinho para elas significa todo um ritual de espera para nós. Ir à cozinha fazer uma sandes e buscar uma cerveja ou uma Coca-Cola. Deitar-me no sofá. Fazer zapping pela Tv cabo e descobrir no Hollywood o Minority Report. Já deves ter feito a depilação às pernas e axilas, e tomado banho e lavado a cabelo com shampô, amaciador e creme e bálsamo, porque já não ouço a água a correr. Não podes ter apenas um frasco em vez de trazer uma prateleira de embalagens para cabelos, para a banheira? Não, Rodrigo cada produto em isolado, para não fazer mal ao cabelo! Pois eu, sou adepto do 2 em 1, não arde nos olhos e poupa-me tempo. A meio do filme ligo aos meus pais a saber como estão. Oh filho tu tens comido? Olha que a Ana Rita está cada vez mais magra! Essa magrela não te dá de comer! A magrela está na odisseia dos vários cremes para cara e corpo, despejando várias mini-embalagens de gordura branca caríssima. Não há cremes 2 em 1? Vou até ao pc jogar um tetris e ler as notícias no clix. Espreito uns blogs e assisto em directo à escolha da roupa. É esta é a pior fase. Não só porque é demorada, pouco pratica e confusa mas pior ainda, porque tenho de opinar! Ora, elas não percebem que se já estou à espera, há mais de quarenta minutos pronto, a primeira saia e top estão óptimos, vamos embora por favor? É assim tão difícil de entender isto? A tua roupa fica-te toda bem, para mim estás sempre gira e qualquer conjunção que já vi esta noite parece-me perfeita. Mas o espelho deve comunicar contigo algo, que nós homens não conseguimos decifrar, de maneira que te vou vendo vestir e despir gavetas e cruzetas. Ligo ao João e ao Ricardo. Eles contam-me as últimas dos cromos lá da Empresa. Começo a ouvir o secador de cabelo e é a hora de esticar, queimar, pentear, e tirar cabelos da escova e despeja-los na sanita. O Paulo manda um sms a dizer que está na merda, que a Cristiana o deixou outra vez por aquele palhaço do Edgar. Troco umas sms com ele, mas o gajo não está bem. Aproveito o barulho do secador de cabelo para sair de casa e ir ter com ele, depois de deixar um post it colado no écran do pc. Venho já! Sei que dá tempo de ir ali a Campo de Ourique, afinal ainda falta a maquilhagem e esta demora pelo menos trinta minutos. Os sapatos. O perfume. E a escolha da carteira, que se for outra passamos ao despejar todo o conteúdo de uma e passá-lo para a outra. Continuo a dizer que sou adepto do 2 em 1, e ninguém precisa de tantas carteiras. O Paulo está mesmo passado, vou dar uma volta de carro com ele para o gajo espairecer, quando o telemóvel me mostra a tua foto no visor. Oh Rodrigo, eu não acredito! Estou aqui pronta para sair, e fazes-me estar à tua espera! Oh Ana Rita, tu tens uma lata!

29.6.07

O QUE FIZESTE AO "i"?


Quando eu era criança, bebia leite de vaca. Mas só no Verão. A viagem era enorme e quente, mas a chegada era sempre apetitosa. Eu era muito pequenino e tu eras sempre tão grande, que tinha que me esticar todo para te dar um beijo. Lembro-me do arranhar da tua barba branca. Lembro-me das tuas mãos grandes e de tirares sempre o boné despenteado quando chegavas a casa. Claro que tudo isto foi antes de te deitarem e amarrarem nessa cama. Antes até de te destruírem a roda que estava logo à entrada de casa. Quando havia feiras, enquanto tinhas loiça para vender, ninguém vendia. Eras o melhor oleiro das redondezas. Depois das feiras passava-se muito tempo até te sentares na roda novamente. Uns dias antes da próxima, lembravas-te e sentavas-te. Colocavas o barro na parte de cima da roda, molhavas as mãos e era ver-te a dar com os pés à roda e a saírem pratos, tachos, jarros e todo o tipo de loiça que as minhas tias e a minha avó, sem dormir, metiam e tiravam dum forno que cozia a ferver. A minha mãe enrolava as mãos muito pequeninas em panos, para não se queimar. Agora, no sítio da roda, está lá uma máquina de lavar roupa. Também anda à roda mas não faz tachos de barro nem migas de pão com açorda. Porque isso, era no tempo em que íamos ter contigo ao casão e eu me sentava num banquinho a ver-te a ordinhar as vacas. Era uma habilidade como as tuas mãos se mexiam, fazendo o leite sair-lhes das tetas. Ias levar o leite à venda mas trazias sempre algum para casa, para eu beber à noite. Porque quando eu era criança bebia leite de vaca. O meu verão era o melhor de todos, porque era um verão alentejano. Tu não estavas lá muito por casa. Tinhas o gado, as tapadas e a loiça. Às vezes ficava a imaginar-te lá na tapada, a juntar o gado e a trazê-lo para o casão. As vacas obedeciam-te todas. Cada uma delas tinha um nome e eram muito bem tratadas. Por isso chegavas tarde para jantar, já as sopas de sarapatel arrefeciam na mesa. Oh Xico!!! Onde é que anda aquele hóme? Lá ia a minha avó buscar-te ao casão. O casão era assim uma espécie de recinto com portão, com algumas arrecadações. Numa delas guardou-se a roda. Ali está parada à espera das tuas mãos, dos teus pés e do teu barro. Uma noite, vinhas da tapada e foste atacado por um touro. Ficaste de cama. Foi a primeira vez, que me lembro de te ver em baixo. Aquele homem alto, grande e sempre tão forte estava de cama. Foi a primeira vez, mas não foi a última. Da última, tu já não te lembras, mas os teus olhos sempre muito brilhantes despediam-se. Já não tinhas a tapada, nem o gado, nem a roda, o que é que estavas cá a fazer, não era? Eu sei. Deitado nessa cama já não tinhas nada para fazer. Partiram-te a roda. Ficaste doente e quiseste ir-te embora. Os teus olhos sempre muito brilhantes. Oh filhe, tens mêmo os olhos do tê bisavô! E lá ia a minha avó. Mas eu nunca conheci o teu pai, não sei se é verdade. Olho-me ao espelho, e tento imaginar os olhos dele, para perceber se têm a minha cor. Castanho mel. Mel que quando chora fica muito cristalino, como o teus. Mas os teus já não vão mais olhar para mim, pois não? A última vez que me viste, não me reconheceste. E eu também não te reconheci. Porque aquele, não eras tu. Tu eras alto, grande, forte. Da última vez que te vi, já não tive de me esticar todo para te dar um beijo arranhado na barba branca. Em vez disso, tive de me baixar. Porque tu já não te mexias nessa cadeira, nem nessa cama. Agora a cama ficou vazia e compro um pacote de leite no pingo doce. Não o mesmo mas terei de me habituar a ele, não é? Tal como terei de me habituar à tua ausência. Porque quando eu era criança, bebia leite da vaca. Mas nunca mais vou beber, pois não avô?


(...ao meu avô Xico que partiu esta semana)

27.6.07

NA PRATELEIRA

Hoje, vou ser forte. Hoje, não te vou telefonar, nem enviar sms’s desesperadas, do género “Vem, oh vem, oh por favor, oh vem”. Hoje não vou ver as horas de 10 em 10 segundos, a ver se já passou o tempo suficiente ou justificável para eu ter um ataque de nervos, e poder finalmente decretar que estás atrasado ou a ignorar-me. Hoje não vou fazer nada disso. Hoje não vou tirar a chave da porta, para que tu a possas abrir a qualquer momento com a tua chave, que eu te dei naquele dia à chuva, em que ficaste de vir cá ter e só me telefonaste 3 dias depois. Não meu amor, hoje não vou mandar sms’s a pedir que sintam pena de mim, a todas as minhas amigas. Nem vou rejeitar as chamadas delas, para não manter o telefone ocupado, para o caso de tu me quereres ligar. Hoje, vou-me levantar deste sofá, vou tomar um duche, esticar o cabelo, vestir aqueles jeans justos, pôr aquelas botas castanhas de camurça que me dão um andar de quem até tem a certeza de para onde vai, e até vou sair de casa. Não sei para onde vou, mas as botas hão-de levar-me a algum lado. E se bateres à minha porta, eu não vou estar. E se finalmente, depois de 5 meses, decidires usar a cópia da chave que te dei, caso esta não tenha enferrujado de cansaço, entras, sentas-te tu no sofá, e ficas tu à minha espera. Porque eu, não sei onde estarei, mas concerteza, não estarei sentada ao teu lado, à tua espera. E antes de sair, acho que vou guardar em caixas de papelão, todos os bonecos, bibelots e jarras que estão adormecidos nas prateleiras dos armários que distribuí pela casa. Vão todos para o lixo. Até aquele palhaço de porcelana que me compraste naquela feira, na qual nos rimos tanto e recordo como se tivesse sido ontem à noite. Foi a ultima vez que saímos juntos. Depois dessa noite devem ter partido os relógios todos, porque tu nunca mais tiveste tempo. A única coisa que vou deixar nas prateleiras é aquele relógio antigo da minha avó, para saber o quanto estás atrasado. E como o relógio é antigo, o teu atraso vai parecer maior ainda. Excepto isso, vai tudo para o lixo. Não quero nada nas prateleiras. Não quero nada à espera, disponível, à disposição, nas prateleiras. E como eu não sou nenhuma palhaça de cara pintada e chapéu bicudo de sorriso enigmático, essa noite da feira vai também para o lixo. Não quero que mais nada nesta casa, fique à espera. O acto de esperar é inútil, vazio. O tempo fica muito grande. As prateleiras parecem não terminar. Parecem-se quilómetros de filas de madeira em auto-estradas de espera. Alguém que espera, é alguém que não vive. Os minutos esperados, não existem. E se eu passar uma vida inteira à espera, não vivi. As prateleiras vazias vão parecer estranhas nos primeiros tempos. Mas nós habituamo-nos. Nós habituamo-nos a tudo. E quando me habituar ao vazio, já não vou sentir a tua falta. Gostava de te dizer tudo isto. Mas dizer-to, seria autorizar-me a quebrar a minha própria regra de não te telefonar. Se bem que eu devia avisar-te de que não vou mais esperar por ti. Talvez assim tu mudes de ideias e venhas a correr atrás de mim. Mas estas coisas não se avisam. Não se avisa uma guerra. Não se avisa que se vai chocar um avião contra uma torre. Não se avisa que se vai despejar uma casa, uma prateleira, um coração. Esvazia-se e pronto. É assim. E o elemento surpresa, é sempre muito mais emocionante, levado a sério, e mais fácil de aceitar. Que remédio tens tu, senão aceitar. Está a chover. Vou acabar por molhar o cabelo todo. Tenho noção de que é apenas uma desculpa para não sair e ficar aqui à tua espera, uma vez mais. Mas sou capaz de ficar doente e depois vou enviar-te 300 sms a espirrar de frio, e vou adoecer ainda mais porque tu não vais ter tempo para vir cuidar de mim, e eu vou afogar-me em pena de mim. Talvez seja melhor não sair hoje. E se eu não te enviar nenhuma sms és bem capaz de ficar zangado, e depois nunca mais me ligas. Acho que vou deixar os bonecos nas prateleiras só mais uma noite, faço-me de forte amanhã.

22.6.07

À ULTIMA DA HORA!


Deixo sempre tudo para a última da hora. Sou adepto do: “Se podes fazer amanhã, porquê fazer hoje?” Mas desta vez levei ao limite este lema. Combinei comigo mesmo ir ver os meus pais no meu primeiro fim-de-semana de férias de Agosto. Já tinha tudo programado, e as saudades apertam-me o saco de viagem, que foi ele também feito apenas na manhã antes de partir. Duas horas antes do comboio, enfio umas t-shirts, uns jeans, a escova de dentes e uns cremes, numa pequena mochila preta com a bandeira do Brasil, que me parece realmente ser um formato muito mais adequado para uma viagem de apenas dois dias, e eu detesto andar com muita tralha atrás de mim. E como sou muito distraído, fico na linha 1 à espera do comboio, a falar contigo ao telemóvel, quando reparo que faltam apenas 5 minutos e não está ali ninguém. Suspeito que algo de muito estranho se passa. Só posso chegar as duas conclusões: ou não vai ninguém viajar comigo, o que significa que tenho as carruagens todas à minha disposição para andar a correr de um lado para o outro e poder sentar-me em todos os lugares, para concluir qual o melhor e mais confortável, ou então, enganei-me na linha. Desligo o telemóvel, e percebo que estou na linha errada. Vou a correr de mochila às costas para a linha 4. Procuro rapidamente a minha carruagem. Encontro o meu lugar. Sento-me. O meu lugar é à janela. Ainda bem, porque não gosto nada da cara do meu companheiro de viagem, e assim sempre posso ir a recordar a paisagem que me leva a casa. O revisor rasga-me o bilhete, guardo-o novamente na mochila e aproveito para tirar um scone de chocolate que comprei no Continente do Vasco da Gama. Afinal, duas horas deram perfeitamente para fazer a bagagem, ir de metro até ao Oriente e ainda me sobrou tempo para ir às compras. E eu adoro ir às compras antes de viajar, o problema é que compro sempre imensas coisas desnecessárias. Lembro-me sempre de comprar um livro para ler, e como sou muito indeciso, compro dois, que apenas começo a ler dois meses depois. Só por acaso, estamos em Novembro e ainda não li nenhum desses dois. Compro também imensas bolachas, porque acho que vou morrer de fome durante a viagem, ou então uns bolinhos artesanais que costumam estar em exposição lá na gare do Oriente. Às vezes, compro também um bloco de notas às cores que achei engraçadíssimo, e que tem de ser meu, ou um peluche em miniatura pelo qual me apaixonei à primeira vista. Como o tal scone de chocolate, e ao guardar o bilhete, lembro-me da aventura que foi comprá-lo. Estive a semana toda a dizer que o ia comprar numa caixa Multibanco, que era muito mais simples e prático. Mas todos os dias quando chegava a casa, inventava sempre uma desculpa para me desculpar a mim mesmo por não o ter comprado. Chego à noite de véspera, sem o bilhete. Tento comprá-lo na caixa Multibanco mesmo ao lado do meu prédio. O visor avisa-me que por dificuldades de comunicação não consegue efectuar a operação. A operação já podia ter sido efectuada, se eu não fosse tão preguiçoso e não levasse à letra o meu lema “Porquê fazer hoje, se posso fazer amanhã?” Tu que estás ao meu lado, e que depois das onze da noite já não estás lá com muita paciência para os meus lemas, metes-me no carro e vamos até Santa Apolónia. Com alguma dificuldade, lá arranjamos um lugar para estacionar o carro, e vamos mais uma vez tentar comprar o meu bilhete, depois de termos depositado algumas moedas à nova espécie de seres humanos – os arrumadores de carros – e este ter grunhido qualquer coisa, que não temos tempo para decifrar. Entramos na estação de comboios, e as bilheteiras estão fechadas. Vamos ao outro lado, ver se existe alguma outra, mas é evidente que perto da meia-noite já ninguém ficou à minha espera, para me vender à última da hora o acesso que me levará a casa dos meus pais. Já estou quase a desistir, e ainda bem que ainda nem fiz a mochila, assim não tenho de a desfazer novamente, quando tu te lembras que existem umas máquinas expresso para bilhetes. Encontramos uma, mesmo à porta. Da primeira tentativa ela ignora-nos, mas na segunda lá me cospe o meu bilhete. De bilhete na mão, lá voltamos para o carro e antes de nos pormos a caminho de casa lembramo-nos que passámos por uma pequena festa/feira e devem ter farturas, e há imenso tempo que nos apetece comer farturas juntos. E como acabo sempre por ter alguma sorte, compramos as farturas que nos deliciam essa noite quente de Agosto com cheiro a canela, e que me fazem perceber ainda mais porque razão gosto tanto de ti, e que a minha espontaneidade e aventura, transformam a nossa relação em algo muito especial. Vês? Se eu não tivesse deixado para comprar o bilhete à última da hora, não nos tínhamos lambuzado em farturas a noite toda. Ainda bem que eu deixo tudo para a última da hora!

17.6.07

UMA DOSE DE FRANGO MAL ASSADO


Domingo à tarde. Levanto-me, tomo banho e já fui à missa das 11h. E como faço todos os domingos, vou até à churrascaria do Zé-Manel comer a minha dose de frango mal assado com batata frita, arroz branco e salada de alface e tomate. Eles já sabem que o meu tem de ser mal assado. Não gosto de ver a pele toda esturricada, além disso o frango muito assado fica seco e não me sabe a nada. Eu sei lá se estou a comer frango assado na hora? Já disse ao Zé-Manel que nem pense que me engana. Para mim o frango é mal assado. É por causa destas e doutras que deixei de ir a outros restaurantes e fiquei fiel a este. Mas já lhe disse, que se o frango começa a vir muito assado deixo de cá vir. Isto, depois claro de mandar para trás o pão de centeio e a broa com os queijinhos em miniatura. Nunca como as entradas. Nem sequer as azeitonas. Eles bem insistem em trazê-las, ora se já sabem que eu não as como para que insistem? Ou estão a gozar comigo ou devem mesmo de gostar de andar a fazer romaria a passear de pires nas mãos. Já uma vez perguntei a um dos miúdos que o Zé-Manel tem a trabalhar ao domingo, se é surdo ou se não tem mais nada para fazer além de andar a passear com pão e queijo da cozinha para a sala e da sala para a cozinha. O miúdo não deve ter ouvido ou fez-se de parvo, também é novinho, coitado, cá para mim o Zé-Manel anda é a explorar crianças. Ainda lho vou dizer. E aproveito e digo-lhe que não deve andar aí a servir pão recesso já quase com bolor recheado duma pasta de atum que só cheira a cebola, como entradas. Não as como, não vale a pena. Primeiro porque se me empanturro de pão, e depois fica metade do frango nas travessas e não ando aqui para pagar uma dose de frango, quando na verdade meia dessa dose é aproveitada ou para servir na mesa quatro, e assim eles fazem é o verdadeiro negócio da China, vendem o mesmo frango a dois clientes diferentes e é só lucrar. Ou então é para eles almoçarem depois da gente se ir embora e fecharem o restaurante à tarde. Nem pensem. Eu não ando aqui a sustentar marmanjos, querem comer à minha pala? Eu também pago a minha refeição, que é isso de andarem a comer os meus restos? Mas isso ainda é o menos, mal por mal ainda aproveitavam a metade da dose que sobrou, o pior é quando deitam os restos todos ao lixo e nem sequer os dão aos cães, agora com essa mania que os cães só devem comer ração – no meu tempo cão que é cão, come os restos que lhe atiramos para o chão – e com a quantidade de gente a morrer à fome, não me parece nada bem andarem para aí a desperdiçar tanta comida. Assim que, a melhor hipótese e a mais correcta para todos nós e pensando nos carenciados de Angola, parece ser não comer as entradas como forma de manifesto e comer o frango todo até chupar os ossinhos. Além disso as entradas são sempre caríssimas. Já ouvi dizer que é aí que eles ganham o dinheiro, porque põem tudo ao triplo do preço e cobram os olhos da cara por um naco de pão de antes-de-ontem aquecido no micro-ondas e umas tigelas de uma pasta de atum que sabe-se lá quem e quando foi feita. Não. Eu não papo grupos. E não sei para que é os talheres. Sim, porque comigo o frango assado come-se à mão. Não há nada melhor que segurar uma boa perna de frango assada. Não sei como essa gente come frango assado de faca e garfo. Retiram primeiro a pele para um dos cantos do prato – meu Deus onde já se viu isto? A pele assada do frango é do melhor que pode haver, essa sim é a verdadeira entrada, uma iguaria bem melhor que pão recesso com queijo e atum. E além de demorarem o dobro do tempo, e de pelo menos metade de frango ficar agarrado aos ossos, porque não o conseguem retirar, fazem uma figura ridícula, parecendo extraterrestres a tentar equilibrar duas pinças ou tenazes nas mãos desesperadamente, como se estivessem a retirar o miolo a caracóis em miniatura. Alem disso os caracóis também se comem à mão. Pegam-se e chupam-se. Também peço sempre meio jarro de tinto da casa. Já tentei descobrir que vinho é este a que eles chamam de vinho da casa. Ainda não percebi se é vinho mesmo da vinha do dono do restaurante, ou se simplesmente compram um carrascão qualquer e o despejam em jarros para a gente não saber. Ou às tantas até fazem mistura de vinhos. Cá para mim deve ser mais isso, porque o Zé-Manel que eu saiba não tem nenhuma vinha. Eu já lhe disse, Zé-Manel tu andas a enganar-me! Um dia ainda hei-de descobrir porque é que chamam vinho da casa. E tenho sempre que pedir três vezes molho picante. Eles dizem que põem malaguetas no frango mas eu não me acredito. Não sinto nada. Ora custa muito servir um cliente como ele quer e como deve de ser e trazer o molho picante já que eu nem sequer sinto as malaguetas? Eu já disse ao Zé-Manel, qualquer dia nunca mais cá ponho os pés. Mas este domingo foi diferente. Não comi a minha dose de frango mal assado com batata frita, arroz branco e salada de alface e tomate. Não mandei para trás as entradas. Não comi a perna de frango à mão, depois de me deliciar primeiro com a pele. Nem sequer bebi o jarro do vinho tinto da casa. Mandaram dizer que tinham uma grande reserva dum grupo e que não me podiam servir. E que se eu quisesse para ir comer a outro restaurante que ali já não serviam frango mal assado. Não acreditei nada nessa história do grupo e vou é ficar ali sentado no jardim a ver se vem algum grupo que ocupe a reserva das mesas todas. Cá para mim eles não querem é servir-me. Mas também não sei porquê. Ora eu não peço assim nada de especial, nem sou assim um cliente tão difícil de aturar. Tenho as minhas manias.

4.6.07

A EMPREGADA DE LIMPEZA E A "SENHORA"

Já passava dos quarenta, usava óculos “fundo de garrafa” e tinha o cabelo muito curtinho. Costumava fazer a limpeza todas as semanas lá no atelier e na casa da “Senhora”, e acabava sempre por me contar a sua vida e me pôr a par dos últimos episódios da “Senhora”. Contou-me um dia que a filha queria ir para a Faculdade mas que o marido não deixava. Ele achava que as mulheres deviam era ficar em casa. Contou-me que ele lhe batia e que um dia a obrigou a ir à chuva às bombas de gasolina, comprar-lhe cigarros. E que no final da noite, depois de a insultar, de lhe bater e de dizer à miúda: “um dia ponho a tua mãe a render na via norte”, se deitava e dizia: “vá, vira-te para mim”. E não adiantava ela dizer: “não Carlos, não me apetece”, porque ele dizia logo: “mas apetece-me a mim, vira-te”. E chorava quando me contava dos pontapés nas costas enquanto ela esfregava o chão da cozinha. Um dia trouxe biscoitos para a cadela que a “Senhora” tinha encontrado no meio da rua perdida e com os bigodes queimados. Mas que a “Senhora”, agora nunca lhe dava comida e a cadela estava cada vez mais magra e pulava de alegria quando via os biscoitos. Então um dia comprou “arroz para os cães”, daquele muito miudinho em promoção no mini preço. E cozeu-o para a cadela. Encontrou um pedaço de bacon perdido no frigorífico e misturou no arroz para lhe dar um sabor. Mas a “Senhora” disse logo: “Deixe aí estar o arroz, fica pra o jantar logo à noite!” E ela mal podia acreditar. Tal como não acreditava no que os seus olhos viam quando limpavam a prateleira dos catorze pares de ténis, dez de sandálias, sete botas e dezassete pares de sapatos. Tal como não acreditava quando arrumava as camisolas e encontrava uma ainda com a etiqueta de cartão a dizer o preço. E também não acreditava naquele preço. Contou-me que no dia da passagem de ano a meio da discussão o Carlos lhe disse:”tens uma hora p’ra desapareceres, tu e a tua filha”. E ela assim fez. Guardou o máximo de roupa e tralha que conseguiu num saco, ligou ao irmão e apanhou um táxi coma pequena Vânia. Uns meses depois conseguiu juntar dinheiro para alugar uma casa e saiu de casa do irmão. Mas tinha medo de andar na rua porque o Carlos tinha uma vez ligado para o atelier a perguntar por ela e dizia que a matava se a visse com alguém. Ela caminhava assustada na rua, sempre a olhar para trás, com medo de estar a ser perseguida. Falava-me com alegria da sua nova casa. E da saboneteira azul que tinha comprado nos “trezentos”. Tinha-me contado uns dias antes que queria lavar a máquina de lavar roupa da “Senhora”, mas não havia detergente para a máquina. E um dia entrou com um ar muito estranho e disse-me:”Não vai acreditar menino! Hoje cheguei e a roupa estava toda lavada! E eu perguntei: já compraram detergente para a máquina de lavar roupa? E a filha da “Senhora” respondeu-me: Não! Pusemos detergente da loiça!” Foi quando eu dei uma gargalhada e ela riu-se comigo! “Não acho isto normal menino! Está sempre a comprar roupa e sapatos novos! No outro dia comprou umas calças de ganga daqueles costureiros italianos que devem de ser irmãos e doutro Mosque-qualquer coisa! E depois ouvi-a a falar ao telefone a perguntar às amigas se não tinham os livros de escola das filhas dos anos anteriores para emprestarem às suas filhas!” E eu olhava para aquela mulher a contar a vida da “Senhora” e via que o contraste era absurdo. Ali estava ela feliz por se ter conseguido livrar do Carlos, e contente com a sua saboneteira azul nova dos “trezentos”. E a “Senhora” comprava “Dolce and Gabana” e “Moschino” enquanto comia um croquete o dia todo. Duas vidas completamente diferentes e uma não conseguia compreender a outra. Então ela disse-me que a sua Vânia havia de ir para a Faculdade nem que ela se matasse a trabalhar. E eu fiquei tão feliz por ela. Um dia, já eu não trabalhava ali, contaram-me que ela tinha deixado a sua casa nova e tinha voltado para o Carlos. Parece que ele tinha tido um problema nos pulmões e na garganta por causa de tanto cigarro e ela depois de o ir visitar a primeira vez ao Hospital foi com ele para casa. E eu lembrava-me daquela senhora a dizer-me enquanto chorava: ”Sabe menino, é o único homem que conheço. O único com quem dormi na minha vida. Nunca conheci outro homem, e só o tenho a ele”.


(um beijinho à Sra. Dª Aurora)

2.6.07

VAMOS TODOS PARA O PORTO!


E porque não? Pensei eu! E mesmo há última da hora, decidi ir com vocês ao Porto. Saímos de minha casa a correr. Fomos ao campus universitário, ver se os teus colegas ainda lá estavam. Mas sem sequer terem arrumado o quarto, nem a cama feito, à boa maneira estudantil, eram as provas necessárias para saber que já tinham partido. Procuraste umas t-shirts naquele que exemplificava em perfeição um cenário de estudantes universitários em Erasmo, que enfiaste numa mochila, e saímos em busca de uma cabine telefónica, pois a do campus estava fora de serviço. Que mais ou menos o estado em que costumam estar todas as cabines telefónicas, ou pelo menos as mais perto de nós, quando estamos com pressa e urgência de fazer um telefonema. Encontrámos uma perto El Corte Inglês. Sugeri entrarmos no Shoping, mas advertiste-me logo que não, sem sequer me explicares a razão porque não entravas nesse edifício, mas que agora suspeito qual seja, e deve certamente estar relacionada com aquela montanha de livros que tinhas empilhada ao fundo do quarto por baixo da secretária. Então, ali telefonámos nós, tu, no teu um metro e noventa e três de altura, a tentares falar num telefone colocado especificamente para cadeiras de roda. Eles já estavam na Gare do Oriente, para onde nós voámos de táxi. Entrámos no comboio antes de todos os passageiros, para não levantarmos suspeitas. Ocupámos aquele que seria o nosso lugar e nos acompanharia nesta viagem. Eles sentaram-se no lugar deles, e eu rezei para que corresse tudo bem. Confesso que ao início estava a divertir-me e achar imensa piada, mas meia hora depois comecei a ficar um bocadinho nervoso e ansioso. Não só porque com o passar do tempo temi que nos descobrissem sem bilhete e além da vergonha, não sabia o que nos poderia acontecer, mas também porque comecei a sentir alguma claustrofobia e ansiedade por ir passar três horas e meia trancado contigo numa minúscula casa de banho. A ideia desta ilegal aventura parecia-me muito excitante, mas agora eu estava a tremer de medo. Eu não conseguia respirar, nem fumar, nem sequer falar. Tu fumavas discreta e descontraidamente à janela cigarro atrás de cigarro, enquanto que o meu coração ameaçava levantar voo cada vez que a manivela da porta da casa de banho se mexia freneticamente. Era um intercidades com duas casas de banho espalhadas em cada carruagem, e a probabilidade de três pessoas por carruagem, quererem usar a casa de banho de serviço exactamente ao mesmo tempo em todas as carruagens parecia-me muito remota. Mas mesmo assim, cada vez que sentia alguém a tentar entrar também neste minúsculo espaço dividido e partilhado contigo. Olhei a paisagem. Tentei pensar e recordar histórias bonitas ou divertidas, que me acalmassem, mas nem sequer conseguia olhar para ti. Tu explicaste-me que para ti era normal, e não estavas nada nervoso, pois já tinhas embarcado nesta aventura várias vezes. No entanto, eu, era a primeira vez, e seria certamente a última, principalmente depois de umas semanas depois me teres dito que enquanto eu regressava ao final da tarde do dia seguinte sentado em classe turística de bilhete muito agarrado à minha mão, tu e uma amiga, que tentavam voltar de Coimbra foram apanhados e expulsos de Comboio a meio da viagem. Ao que parece não vos adiantou muito simularem a má disposição dela, que fingia vomitar até as entranhas. Porque estupidamente entraram num comboio regional e além de ocuparem a casa de banho durante muito mais horas, as poucas que existiam, parece que estavam fora de serviço, e depois de começarem a achar um bocadinho estranho aquela porta nunca se abrir, lá foram expulsos sem bilhete. Eu não queria ser expulso, até porque não tinha dinheiro para continuar a viagem a partir do local onde fosse deixado, mesmo porquê se não fosse a minha grande amiga Teresa a emprestar-me dinheiro para voltar, se calhar a esta hora ainda estava na Estação de Campanhã! O pior foi quando comecei a sentir fome e me apercebi que não podia ir à carruagem-bar comer qualquer coisa, ou voltar com um sanduíche para aquele T-zero com lavatório, sanita e janela, que nós tínhamos resolvido ocupar. O meu mais recém companheiro de apartamento só fumava e nem fome tinha, eu tive de me mentalizar que só iria comer no Porto, os seus cigarros a acabarem, a manivela da porta a mexer-se, o vento fresco da janela a aliviar-me a cara, nós que ao fim de algumas horas já não tínhamos posição, e tudo aquilo era muito incomodo, para não falar que se o espaço já era pequeno, dividi-lo com alguém que ocupava sozinho um metro de noventa e três, fazia desta aventura uma verdadeira escapadela à missão impossível, não fossem os disfarces e as máscaras terem ficado em Lisboa. Eu tinha-me mudado para a capital, e já há mais de um ano que não visitava o Porto, mas nunca imaginei ir matar as saudades dentro de uma casa de banho. Quando o comboio parou, e aquela abençoada voz anuncia a nossa desesperada chegada à bendita Estação de Campanhã, a minha cara mudou de cor. Silenciosamente fomos os primeiros a sair, um depois do outro, para não levantar suspeitas e para ninguém se aperceber que dois passageiros abandonavam o T-zero. Quando os teus amigos saíram dos seus lugares e vieram ter conosco, eu só me ria, de alívio, de nervos ou de alegria, não sei, mas afinal tinha sido uma das aventuras mais emocionantes da minha vida, irmos todos para o Porto!

29.5.07

QUANDO A MINHA TIA SE CASOU


Quando a minha tia se casou nós chegámos e eu subi lá a cima ao sobrado e vi pousado numa cadeira um chapéu branco com uma flor e ao lado uns sapatos brancos. A minha avó tinha feito três panelas enormes de comida e os meus tios montavam uma espécie de barraca com ramos e folhas de eucalipto à porta. Até hoje nunca percebi para que era a barraca, parecia-me uma daquelas cabanas de praia, só lhe faltava uma rede, o som do mar e os gritos afogueados – é fruta ou chocolate – mas que de facto lá dentro era muito mais fresquinho, lá isso era. A minha tia tinha ido fazer caracóis, estava muito magra e tinha o cabelo preto. Ela estava muito calma, a contrastar com a minha avó que andava de um lado para o outro atarantada a pôr lençóis lavados nas camas onde nós iríamos dormir, e a comida e a comida, e o teu avô que nunca mais chega, aquele hóme põe-se na taberna e esquece-se da gente. As minhas tias andavam todas de um lado para o outro, talvez a competirem com a minha avó, oh mãe onde é que vossemecê vai, oh mãe deixe isso, oh mãe eu faço, oh mãe, oh mãe. Eu vou ver do vosso pai. Quando a minha tia casou parecia que ninguém queria dormir e deve ter sido a noite em que me deitei mais tarde, pois fiquei a ajudar a fritar os rissóis até tarde com as minhas tias, enquanto a minha avó dormia na camilha redonda armada de faca e creme de açúcar branco. E cada vez que acordava, balbuciava qualquer coisa – atã ainda nã está? – e alcatifava mais uma de mão com creme de açúcar branco os três andares do bolo que ia subindo. Lembro-me de querer brincar com aqueles bonequinhos de preto e branco e da minha tia São me dizer – nã pode ser filho, atã nã vez que são os noivos? – ora e eu não percebia, se afinal aqueles é que eram os noivos e estavam tão felizes e contentes a patinarem numa enorme pista de três patamares de açúcar branco, então para que é que era aquela trabalheira toda? Quando a minha tia se casou, desceu do sobrado toda vestida de branco, com o chapéu que eu tinha visto em cima da cadeira, agora em cima dos caracóis pretos. Vi o meu avô chorar e a minha avó, oh Xico vamos embora hóme que está atrasado, oh mãe a noiva é p’ra chegar atrasada, oh pai não chore, oh mãe, oh mãe. Os meus tios estavam todos de fato e gravata, pelo menos antes de irmos para a Igreja, porque depois de se sentarem a comer já tinha tirado os casacos e as gravatas e as camisas estavam todas desapertadas. Estava muito calor na Igreja e eu tinha uma camisa branca com umas riscas azuis fininhas e uns calções azuis-escuros com umas riscas brancas fininhas que depois vestia só aos domingos. Quando a minha tia se casou, havia uma mesa redonda ao fundo para mim e para os meus primos, que éramos uns sortudos porque éramos sempre os primeiros a sermos servidos. Depois eram o meu avô, o meu pai e os meus tios, depois aquelas pessoas lá da aldeia que eu costumava ver no café e não percebia porque é que estavam a almoçar conosco na casa da minha avó, e só depois é que a minha mãe e as minhas tias, que andavam a distribuir a comida, é que comiam, às vezes em pé outras vezes sentadas. Elas tinham aquilo tudo muito bem organizado, cada um na sua vez e não falhava nada. Quando a minha tia casou nunca mais dormiu lá em casa, nem nunca mais se sentou à noite no pial lá fora a conversar com o meu tio a rirem-se enquanto ele fumava SG Filtro e nós jantávamos lá dentro e a minha mãe, deixa-te lá estar aqui, onde é que tu vais? Agora sento-me eu sozinho no pial à noite lá fora, durmo no quarto do sobrado e o olho a cadeira vazia onde um dia vi o chapéu branco. Quando a minha tia se casou eu ainda não sabia que tu existias e que um dia ia desejar tanto levar-te ao meu Alentejo para nos sentarmos lá fora no pial à noite e te contar como foi que aconteceu quando a minha tia se casou.


à tia Clementina

26.5.07

O GALINHEIRO DA SORTE


Uma galinha morta no meio do chão! Isto é macumba! Isto dá azar! Lagarto, lagarto, lagarto! Ouve lá! Tu não ouves? Ai, eu não acredito, isto não me está acontecer! Eu vou sair daqui! Mas eu estou tão aflitinha! Eu ainda vou ser encontrada numa casa de banho do duma discoteca no Montijo com uma galinha morta e ainda por cima loira falsa! Sim queridinha porque essas raízes já estavam mesmo a precisar de um retoque! A tua sorte é que estás morta, porque não sei como é que tinhas coragem de sair à rua assim! Tu és corajosa! Não! Ainda há galinhas corajosas! Mas olha que se eu aparar a parte das raízes até se faz um posticinho! Mas eu tenho é que depois me desfazer do teu corpo! Deixa cá ver! Olha lá? Não tens strass ou umas coisas? Ai nem anéis nem um brinquinho, nem nada! Que pobreza! Coitada! Olha p’ra isto! Mamas de silicone! Agora as gajas andam mais montadas que as bichas! Pelo menos, eu queridinha, não pus silicone! Não preciso! Uma verdadeira artista não precisa de mamas postiças como tu queridinha! Deixa ver o sapatinho! Ai o sapatinho! Ai, adoro! Deixa-me experimentar! Ai não sai! Ai, o raio da morta que não larga os sapatos! Oh amiguinha não vais levar os sapatos depois de morta, deixa lá isso! Ai, adoro! Bem, não sabia eu que vinha ao Montijo à discoteca e que quando fosse à casa de banho ía ser brindada com um sapatinho novo! É só no desfile! Vês? Assim é que se desfila! As bichas agora desfilam muito melhor que as gajas! Não tive eu foi a oportunidade de ser descoberta, senão tu havias de ver! Olha-me p’ra estas pernas! Fazem inveja a qualquer mulher! Tás a ouvir, oh torta? Pareces feita de borracha! Não pesas muito tu! Também não deves comer nada! Deves ser daquelas que só come iogurtes magros, comprimidos de chá verde e depois passa o dia a vomitar! Vamos mas é tratar do postiço antes que chegue alguém! Acho que tenho aqui uma tesourinha e vou levar o cabelo, e é já! Também se encontrarem uma galinha morta despida, careca e depenada no meio do chão de uma casa de banho duma discoteca do Montijo, ninguém vai achar estranho! Olha e dá-te com sorte que da maneira que eu te vou cortar o cabelo ninguém vai desconfiar que eras loira falsa! Vou-te poupar a essa vergonha! Ainda me vais ficar agradecida! Ficas-me a dever uma! Pagas prá próxima deixa lá! Numa outra encarnação! Sim, que eu sou bicha mas sou crente, ouvistes? Tenho muita fé! Sou crente e eu sou uma profissional dos cabelos! Mas onde raio é que eu meti a tesoura? Tenho a certeza que a tinha aqui ao fundo desta mala! Sim, que uma mulher prevenida vale por duas, mas uma bicha prevenida vale, por três! Tesoura, linha preta, agulha e um alfinetinho nunca falta! Que uma artista tem de estar sempre no seu melhor! E olha queridinha mal por mal se, se meterem com a gente, pego na tesoura e é com cada arranhadela que é vê-los a fugir! Sim, que a gente é artista mas não é parva! Os polícias bem a queriam apreender na outra noite! “Posse de arma branca” diziam eles! Ai filha se a arma fosse preta eu não andava com ela, deixava-a em casa! Sim, que elas são umas invejosas! Ai, encontrei a tesoura! Então deixa cá ver esses cabelos, queridinha! Vou-te cortar isto bem cortado, vais ver. Quando te enterrarem até há-dem de dizer: “Era tão boa rapariga, a morena!” Não sei se eras boa rapariga, mas devias de ser, porque até na hora da morte estás a fazer uma boa acção! E olha que eu bem preciso de um postiço novo filha, que as perucas que tenho já nem lá vão com soflan. E isto não está pra perucas novas! Isto está mau! Já não vou lá com o show. Além travesti, agora tive de voltar a atacar na rua, filha. Mas deixa ‘tar, que com a ajuda dos teus cabelos novos, vou montar um número, que ninguém se vai esquecer. E depois vou pra Espanha. Que as de Espanha ganham muito mais que à gente, são respeitadas e não têm de andar na rua. Vou mudar de vida, vais ver. Abençoados cabelinhos loiros! Foi Deus que te pôs no meu caminho. Tás a ver? És uma santa! Eu não te disse que acreditava em milagres? Quando eu for uma estrela em Espanha, vou-me lembrar de ti. Bem amiguinha, vou-me embora. É melhor guardar o cabelo e desaparecer daqui antes que alguém chegue e pense que fui eu que matei. Olha que até ficastes bem gira!

22.5.07

EU NÃO ACREDITO

Eu não acredito. Não acredito Tozé. Eu sei que tu ainda não sabes que eu me arrependi. Mas também sei, e isto eu tenho a certeza que tu sabes, que mais dia, menos dia, volto à terra. Tu pedes-me novamente em casamento, e vamos morar para uma daquelas casinhas que se entra sempre pela cozinha, com um pequeno quintal atrás e dois canteiros para rosas à frente. Mas nós vamos sempre entrar pela frente, e as rosas hão-de ser brancas e não vermelhas como as de todas as casinhas. Entramos de mão-dada, tu sentaste no sofá a ver o resultado do Benfica-Sporting, enquanto eu aqueço a sopa de espinafres e preparo arroz de ervilhas e tomate com carapaus fritos e salada de tomate, alface e agrião. Claro que não temos de ir à missa todos os dias, afinal tu não nunca foste lá muito católico, mas de vez em quando convém ir, afinal será ali que iremos baptizar os nossos filhos. Mas as outras manhãs de Domingo, Tozé, ficamos na cama com os lençóis a taparem-nos a pele depois de nos termos amado a manhã toda. Já sei que para tudo isso, é preciso que eu deixe a arquitectura, e faça as malas neste duplex com vista para o rio em Lisboa. Vou deixar de lado os sofás brancos, as mesas em vidro fosco, os plasmas, os elevadores, as taças de esmalte num design pós moderno, as velas, as revistas, o meu estirador, a minha mesa de luz, e presumo que não necessite de tantos sapatos bicudos de 12cm de tacão agulha. Os projectos, as plantas, os esquadros, as fitas métricas, as canetas de acetato, as impressoras a laser serão substituídos por três vasinhos de amores-perfeitos no parapeito da janela da cozinha, que vou regando quando lavo a loiça do pequeno-almoço em avental de flores e ramagens, enquanto tu foste de fato de macaco para a oficina do Adalberto. Por isto tudo é que não acredito quando me disseram que te tinham visto em Lisboa no Príncipe Real, a sair às quatro da manhã do Trumps abraçado a um tipo, aos beijos de língua de fora no meio da rua. Não acredito Tozé. Eu não acredito. A minha irmã diz que sempre desconfiou, e achava muito estranho nós em três anos de namoro nunca termos feito amor, e nunca percebeu quando eu lhe contava que tu eras mesmo muito sensível e achavas lindo, eu querer casar-me virgem. E ainda diz que te viu uma vez depois da meia-noite atravessar aquele caminho por detrás do cemitério, que vaio dar à tapada que era do Joaquim António, e que depois de morrer ninguém mais para lá foi porque dizem que ele assombrou aquilo. Diz que já te viu lá a ti, e que depois viu de lá sair um tipo qualquer que veio da Holanda e que ninguém sabe quem é. Eu digo-lhe que ela deve é ter inveja, porque nunca saiu da terra e ainda passa a ferro as camisas da Dona Mariazinha e vai rezar o terço em Maio. Eu não tenho culpa dos nossos pais não terem possibilidades e da minha madrinha que viveu em França toda a vida me ter mandado estudar. Diz que me tornei numa “leide” e que até pareço as artistas nas revistas, quando lá vou no Natal passar a consoada. Eu não sei quem é esse rapaz da Holanda, nem o que faz na nossa terra, mas certamente que vocês estariam a fazer por lá coisas de homens, que é como vocês chamam a encharcarem-se em cervejas e depois adormecem em baixo duma árvore porque já não estão em condições de voltar para casa. Mas isso não me interessa, provavelmente é o que vão fazer na tua despedida de solteiro. O que eu sei é que na noite a seguir vou-me sentir a mulher mais feliz do mundo nos teus braços, tentando recuperar estes cinco anos perdidos desde que te deixei à minha espera no café do Amílcar, para irmos comprar as alianças. Eu vi umas alianças lindas nas Amoreiras Tozé, são muito simples, em Ouro Branco com oito diamantes muito discretos, duma marca que tu provavelmente nunca ouviste falar, mas tenho a certeza que vais gostar. Por isso nem adianta ela andar para aí a dizer que o Ruizinho, que toda a terra sabe que é maricas, e que sempre te olhava duma maneira muito esquisita e tu inocentemente, coitado, lhe sorrias sempre, te viu a dançar abraçado a um tipo qualquer no Frágil e que as mãos dele andavam à procura dum isqueiro dentro da braguilha das tuas calças. E que estavas bêbado, e que depois foram os dois para uma pensão na rua da Rosa, e que no dia seguinte chegaste à terra com uma t-shirt cor-de-laranja muito curtinha a dizer “Estou Aqui!” e que uma semana depois o tipo apareceu lá na terra e foram no descapotável amarelo dele para a tapada assombrada do Joaquim António. Eu não acredito. Já te disse que não acredito Tozé. Tu sempre disseste que eu era linda, e eras tu que me escolhias os vestidos quando íamos aos jantares na casa do povo. Nem sequer se põe em causa tu gostares de mulheres, é completamente disparatado. Tu gostavas tanto de mulheres que até te oferecias muitas vezes para me esticar o cabelo. Eu não quero saber nada disso do Holandês, nem de pensões na rua da Rosa, nem de t-shirts cor-de-laranja curtinhas. Sei que já não vou poder casar virgem, mas cinco anos sem dormir com um homem fariam de mim muito esquisita. Eu sei que tu provavelmente, em meu respeito, nunca dormiste com uma mulher até hoje, e espero que compreendas Tozé, mas eu juro-te que não acredito. Não acredito Tozé. Não te preocupes porque eu não acredito.

OS DOIS IRMÃOS

Conheci-te na rua. Era noite. Caminhávamos na baixa em sentidos contrários. Parámos. Olhámo-nos. Vieste ter comigo e convidaste-me para tomar um copo ali perto. Já era tarde. Não havia nada aberto ali perto. Queríamos conversar. Convidei-te para conversarmos em minha casa. Aceitaste. Caminhamos. Subimos essa rua principal da baixa. Subimos toda a rua. Ficamos a noite toda deitados no sofá da sala. Conversamos, contas-me os teus segredos. Confessas-me que tens medo de dormir, que por vezes não consegues mesmo dormir. Não dormes. O sofá está aberto no chão. É madrugada. Fazemos amor. Beijas-me o corpo. Não me sinto louca por estar a fazer amor deitada no sofá aberto no chão da sala, com um rapaz que conheci na rua à umas horas atrás. É bom. Sinto que poderia ficar assim por muito tempo. Não me importava de me apaixonar por ti. Não sei nada de ti, apenas te conheci na rua e agora estamos deitados no sofá aberto no chão da sala, mas não me importava de me apaixonar por ti. Depois dizes-me que amanhã vais para o Brasil e não sabes quando voltas. Podes ficar uns dias, um mês, um ano. Conheci-te hoje, fazemos amor e amanhã vais para o Brasil. Que péssimo sentido de oportunidade, penso. Abraças-me. Abraço-te. Dizes que queres ficar abraçado a mim até à hora de ires para o aeroporto. E voltamos a falar dos sonhos, e dos teus sonhos e do teu medo de dormir. Só dormes de dia, dizes, à noite não consegues dormir. E enquanto falas de ti, enquanto te ouço a contar esses teus segredos nocturnos percebo que existe algo familiar na tua voz. Penso isto. E digo-te. Digo-te em voz alta que a tua voz me faz lembrar alguém que eu não sei quem é. E enquanto digo isto em voz alta percebo que a forma da tua boca também me faz lembrar esse alguém. Ficas estranho de repente. Perguntas-me se ele não teria um carro não sei de que marca, mas respondo que não sei, não percebo nada de marcas de carros. Apenas me lembro que era escuro, azul ou preto, cinzento talvez, com cinco portas. Sei que tinha mudado de casa à muito pouco tempo com a família, ou melhor com o irmão e a mãe, pois os pais estavam separados, lembro-me de me ter contado que os pais estavam separados. E de repente lembro-me de tudo, e lembro-me dele. A cada coisa que relembro ficas mais estranho e mais assustado. E depois digo-te que ele me ofereceu um livro onde na primeira página costa a sua dedicatória. Vou buscar o livro. Mostro-to. Ali está, na primeira página desse o livro, no fim de algumas palavras carinhosas, a sua assinatura: João. É aí que me olhas fundo nos olhos e me dizes “ é o meu irmão”. Agora é a minha vez de ficar estranha e assustada. Estou deitada no sofá aberto no chão da sala com o irmão de um rapaz com quem estive em tempos. É estranho. Dormi com os dois irmãos, sem saber sequer que eram irmãos. Digo-te que nunca mais o vi. Passaram dois anos desde que ele me telefonou e me disse que era melhor não nos voltarmos a ver. E nunca mais o vi. Ficas estranho. Noto de repente uma frieza em ti. É tarde, dizes. Levantas-te. Dás-me um beijo na cara e sais, depois de te desejar boa viagem e depois de me prometeres que me ligas assim que chegares a Portugal. Fico sozinha, deitada no sofá aberto no chão da sala. É estranho. Dormi com dois irmãos, sem saber sequer que eram irmãos e que nunca mais vi na vida...

19.5.07

CALA-TE CABRA!

Eu estava à espera de um táxi e a falar ao telemóvel com uma amiga minha, para me reservar uma carteira linda, que ela recebeu de Itália. Ela já me tinha dito que da última vez que lá foi, tinha vistos umas carteiras que eram de cair pró lado e que eu ia morrer quando as visse. O táxi nunca mais aparecia e não me apetecia de todo chegar atrasada ao jantar com o Bernardo na Bica do Sapato. Afinal tinha-me dado um trabalhão convence-lo a marcar mesa lá em baixo onde tá toda a gente. Ele insistia que queria comer sushi, e eu a dizer-lhe, oh querido que disparate, eu quando quero comer sushi vou ao Mandarim ou ao Bonsai. Se vamos à Bica, desculpe, mas é pra sermos vistos. Os Prada já me estavam a magoar quando vem um miúdo em minha direcção a correr. Eu assustei-me e fiquei preocupada, nunca ninguém tinha corrido assim em minha direcção. Coitado, deve estar aflito, pensei. Quando chegou perto de mim dá-me um estalo na cara. Assim sem mais nem menos. Eu fiquei perplexa a olhar para ele. Não podia acreditar. Isto não me estava a acontecer. Ainda lhe disse: “Ouça, o menino ´tá parvo?” Com o susto devo ter deixado cair a carteira no chão. Ele tira-me o telemóvel da mão, a minha amiga do outro lado da linha sem perceber nada a gritar “oh Rita, oh Rita, diga lá se quer a carteira ou não, oh Rita, oh Rita, tá-me a ouvir, oh Rita, oh Rita” e ele desata a correr. E eu ali assustada continuei a falar com ele. Que eu não achava normal ele deixar-me ali sozinha sem telemóvel e com a cara inchada. Tinha acabado de fazer uma limpeza de pele que ele arruinava com aquelas mãos peçonhentas e imundas que já não deviam ver água há anos, lá nas barracas onde ele vivia. Ainda me está a doer a face. Ele era miúdo mas tinha força. E perguntei-lhe como é que eu agora ia reservar a carteira italiana? E se a minha amiga a vende? Perguntei-lhe porque é que ele me estava a fazer aquilo a mim. Porquê eu? Porque é que me tinha escolhido a mim? Com tanta gentinha para assaltar porque tinha sido eu a real premiada por um suburbanazinho, que nem sequer deve ter inteligência suficiente para saber descortinar aquele telemóvel, que alias tinha sido caríssimo, e nem eu me entendia com ele. Aquilo era mais sofisticado que um mini-computador com a ultima versão de software aos gritos nãos Estados Unidos. E pensei, isto não me está a acontecer. Se isto sai no 24Horas é um escândalo. Ouça, pelo menos deixe-me enviar um sms à minha amiga a reservar a carteira. E o Bernardo que está à minha espera na Bica do Sapato, coitado. Ele que já ia ao fundo da rua, vem outra vez a correr em minha direcção. Eu pensei que me vinha devolver o telemóvel, ou pelo menos deixar-me ligar à minha amiga para poder dizer-lhe para não vender a carteira, que eu estava interessada. E pensei, ora afinal por vezes até nos enganamos com as pessoas. É o preconceito. Este suburbano que vem lá das barracas, afinal até tem algum bom senso e educação, apesar de não ter tido berço. Ainda ouço o telemóvel aos gritos “oh Rita, oh Rita, diga lá se quer a carteira ou não, oh Rita, oh Rita, tá-me a ouvir, oh Rita, oh Rita” e ele levanta a minha carteira do chão. E eu pensei, olha que querido, até levanta a minha carteira do chão. Que amoroso! Pára. Olha para mim muito sério e pergunta: “ Esta carteira é tua?” eu aceno que sim com a cabeça. Sorrio. Afinal com todo o meu discurso, consegui incutir qualquer coisa naquele cérebro minúsculo forrado a uma cara suja e piercings. É sempre possível ajudar alguém. E sempre acreditei que a conversar o ser humano se pode entender e que a comunicação é o princípio dum bom relacionamento. Ele olha novamente muito sério para mim e diz: “Então vê se te calas, cabra!” pega na carteira e desata a correr pela rua com ela e com o telemóvel. E agora? Como é que eu vou ficar sem a minha carteira fantástica e giríssima que a minha amiga trouxe de Itália?

18.5.07

ORA, BEM, BEM...!


Eles não hão-de descobrir onde é que o dinheiro está escondido. Agora está atrás do quadro da casa de jantar, que a Fernanda apanhou-o no pote do açúcar. O que é que eles têm de andar a mexer nas minhas coisas? Já são todos casados! Vão lá para as casas deles. Também o que é para aqui vêm fazer? Os miúdos vão para o quarto acender-me o televisor e gastar-me luz e filhas deles não devem comer em casa, sempre a mexerem-me no pão com chouriço e a dizerem: “Oh ‘vó, então quando é que paga um leitão assado à gente?” Ora, bem bem, comam batatas cozidas com ovo, que o bacalhau está caro. Nem sei para que vêm todos para aqui. Gastam-me a lenha toda, a fazerem a fogueira lá fora para se aquecerem ao lume a noite toda. A torneira só deita uma pinguinha de água? Deixá-la! Também não é preciso mais para lavar a loiça toda. Ora, bem bem, estava eu aqui tão bem sozinha sentada na cozinha, tinham que para aqui vir. Oh Pedro, vai lá ver o que é que as miúdas andam a fazer na casa de jantar? Já partiram alguma coisa! Elas que não sejam como o teu primo António Carlos, cada vez que vem de Andorra vão todos para o quintal correr e partem-me as couves todas ou então abre-me as coelheiras e é ver os coelhos a fugir pelo quintal a fora. Quem é que os há-de apanhar com esta muleta? Eu já não consigo andar. Pobre de mim, desgraçada, para aqui sozinha metida nesta casa o dia todo sem poder ir a lado nenhum e ninguém me vem ver. Até me custa levantar desta cadeira. Estou cada vez pior. Já nem lavar-me sozinha consigo. Mas também não é preciso ser como a Zirinha. Mas para que é que ela toma banho todos os dias, Fernanda? Ela estará suja? Vocês lá cidade têm com cada uma! Eu lá quero comer bacalhau com notas, prefiro umas batatinhas cozinhas com azeite e vinagre. Não deites esse bife que sobrou ao lixo, que eu como-o amanhã. Não, não é preciso teres o aquecedor ligado. Não se incomodem comigo, eu não quero dar trabalho. Eu não tenho frio. Já disse ao Augusto para parar de trazer lenha lá para a minha casa e acender o fogão. Estou muito bem com esta mantinha, não faz mal ser Janeiro e eu viver numa casinha de pedra no norte. E ele que nem pense mandar arranjar as frestas das janelas, que os empreiteiros estão muito caros e passam é o dia todo a conversar e a beber cervejas e não fazem nada. Eu até mandei embora a miúda que ia lá a casa passar as noites. Estava sempre com o aquecedor e o televisor ligados, a gastar-me muita luz. Não é preciso ter lá ninguém a cuidar de mim, que eu trato-me muito bem sozinha. Não preciso de ninguém. Ora, bem bem, tenho sessenta e sete anos, vai para sessenta e oito, não me vão por em nenhum lar, que eu não vou. Estou muito bem em minha casa. E não é preciso andar a ir todos os meses para as casas de cada um. O Fernando já disse que não me quer lá em casa, a Micas anda lá sempre em discussões, que tive de me pôr à janela a cantar as ave-marias. A Fernanda quer que eu tome banho todos os dias e eu não estou para isso, e o Augusto fica logo todo chateado quando eu digo que não quero comer nada ou quando lhe conto o que se passou em casa do Maneca, põe-se logo a dizer que não quer saber o que se passa em casa dos outros. Eu não quero dar trabalho e estou muito bem sozinha em minha casa. Já escondi o dinheiro na terrina, que eles não hão-de descobri-lo, a senhora Maria já gritou de lá de fora a ver se eu estava bem e se estou viva. Ora, bem bem, estou viva, estou. E quando me for embora, vão-se arrepender todos de terem sido tão ruins para a vossa mãe e para a vossa avó. Eu que não faço mal a ninguém, desde que me deixem aqui a comer esta côdeasinha de broa, e não me peçam para pagar leitões, nem me venham para aqui gastar lenha. Eu fico aqui com a minha muleta. Podre de mim, desgraçada que já nem andar consigo, sozinha nesta casa, ninguém me liga nenhuma, passa-se a semana toda, que ninguém me vem cá visitar. Ora, bem bem!

(à minha falecida avó)

A DANÇA DO MAR


Nunca tinha entrado no mar. Claro que já tinha visto imensas fotografias e imagens na televisão de praias paradisíacas, e sentia uma enorme curiosidade em conhecer e perceber aquele monstro enorme de água que se move voluntariamente num ritmo compassado. A imagem que tinha gravada era a de ondas gigantescas que me assustavam, qual montanha russa na feira popular. Eu era criança e ouvia as minhas amigas lá da rua falarem nas férias na Figueira da Foz ou na Nazaré e escutava-as com fascínio. Mas havia algo em mim que sabia que tudo aquilo, seriam apenas contos, lendas mágicas com as quais eu iria sonhar à noite, antes de adormecer. Imaginava-me a nadar, a nadar tanto, tanto que chegava ao outro lado do mundo. Aliás, o meu meio de transporte seria nadar, seria assim que me iria deslocar. Imaginava-me a boiar em alto mar e adormecer com a lua mesmo em cima de mim. Depois, um dia, descia até ao fundo do mar e ía passar umas ferias com as sereias. Elas viviam numa conchas enormes e usavam as pérolas para iluminar o caminho. As pérolas tinham tanta luz, que eram como candeeiros do fundo do mar. Fechávamos as conchas e dormíamos. Eu, dormia sempre com a concha fechada, fazia-me muita confusão dormir com tanta luz. Existia uma calma, uma paz e uma alegria que me fazia sentir viva! Uma das coisas que eu mais gostava no fundo do mar era a cor! O fundo do mar era repleto de cor. Existiam peixes e plantas de todas as cores que pintavam alegremente toda a superfície tornando o nosso caminho bem mais divertido. E sentia-me também sempre muito fresquinha e nunca tinha calor. Havia umas partes mais frescas que outras, claro, mas essencialmente, o fundo do mar era morno. Temperado. Era limpa, leve, fresca e vivia em paz.


Claro que anos depois esqueci-me de tudo e de como era bom viver no fundo do mar. Tinha crescido, começado a trabalhar, e chegava sempre tão cansada e preocupada que quando me deitava na cama, simplesmente adormecia sem pensar em nada e sem sonhar. Passei anos assim. Quando tinha ferias, aproveitava para pintar a casa e ajudar a minha mãe a cuidar do quintal e das flores. Eu em pequena brincava muitas vezes no quintal e no jardim, e ás vezes, aquelas flores quase que me faziam lembrar o fundo do mar. Alguns anos depois, a minha mãe morreu. Deixei a casa e fui viver para Lisboa e sabia que o mar aí já estava perto de mim. Mas tantos anos depois, tive medo que ele não me reconhecesse. Então fui adiando esse reencontro. Via as imagens na televisão de tantas pessoas junto ao mar, ao meu mar. Era como se, de certa forma, tivesse alguns ciúmes. Porque o mar era meu. Eu vivia no mar. Elas não compreendiam. Mas, e se de repente ele estivesse tão chateado comigo, por eu ter demorado tanto tempo, que me rejeitasse entrar e não me quisesse? E se, afinal, eu não soubesse nadar? E se o mar fosse realmente muito frio, quase gelado ao ponto de regelar todo o meu corpo até ao cérebro e não me deixasse pensar? Passei mais anos assim a pensar nisto, e depois desligava a luz e adormecia na minha caminha do meu quarto alugado na Rua dos Douradores. Mas hoje vim. Vim vê-lo de perto. Escrevo estas palavras neste diário e ouço as ondas a baterem umas contra as contras numa grande conversa e a desaparecerem na areia. Sei que conversam sobre mim. Umas perguntam-se porque demorei tanto tempo a chegar. Outras ficam felizes por eu estar finalmente ali a olhar para elas. E outras olham para mim e perguntam-me porque não me levanto eu e não lhes vou fazer companhia matando as saudades? Umas mais altas. Umas mais pequenas. É tão grande. É tanta água. Hoje é a ultima oportunidade que tenho de estar com o mar. Estou velha, cansada, muito doente e em breve morro desta doença que segundo os médicos, não me dá mais um mês. Eu não vou esperar um mês para que os médicos se felicitem uns aos outros por terem acertado na meta da doença e sentirem que finalmente havia um sentido para terem estado mais de 6 anos na faculdade. Levanto-me e caminho devagar até ele. Ambos estamos nervosos. Ele mais que eu. Eu tremo, mas é do frio, da doença e destas pernas rijas que já não têm grande equilíbrio. Sinto-o juntar-se aos meus pés descalços. Eu não sabia que o mar era tão frio. Caminho. Entro nele. Sinto-o a abrir-se para eu entrar. As ondas agigantam-se. Pulam e elevam-se de felicidade com o nosso reencontro. Sinto-o a abraçar-me. Deixo-me ir. É uma dança que me envolve num vaivém. Ele convida-me para dançar e eu vou. Danço a dança do mar. Deito-me no mar. Está frio. Não sabia que o mar era tão salgado. Tenho sono, tenho muito sono. Espero que as sereias tenham preparado a minha concha e tenham apagado a pérola, porque adormeço dentro de muito pouco tempo. Afinal os médicos tinham-se enganado, era bem mais cedo.

DE MALA ÀS COSTAS


Os meus pais foram emigrantes e devem-me ter incutido este espírito nómada. Ambos sempre tiveram um espírito muito aventureiro e tal como eu também saíram cedo de casa. A minha mãe é alentejana, e o meu pai é da beira, conheceram-se na Alemanha e decidiram casar em Fátima para ser a meio do caminho para toda a família. Na Alemanha vivemos em duas casas. Da primeira não me lembro muito bem, só sei que quando a minha irmã nasceu já não vivíamos lá. Mas da segunda, lembro-me de um dia me irem comprar a minha caminha pequenina amarela e preta que eu mesmo escolhi, parece que já em pequenino, eu tinha gostos um bocadinho extravagantes, é natural eu nasci nos anos setenta. Mas depois, quando viemos para Portugal, com algumas mobílias e muitos sacos, enfiados numa carrinha enorme branca com não sei quantas pessoas que eu não conhecia, os meus pais explicaram-me que não podíamos trazer a cama amarela e preta e eu fiquei muito triste. Depois chegámos a Vilar Formoso, acho que estávamos à espera do comboio e eu fazia desenhos com uma caneta de filtro numa caixa de papelão enorme que tinha o desenho de um frigorifico, enquanto uma senhora de cabelos compridos caminhava de um lado para o outro, aos gritos. Eu abandonava a primeira das quatro cidades onde iria viver, Witten. Lá na vila vivemos em duas casas. A primeira era no segundo andar e tinha duas varandas, uma que dava para as traseiras e a outra dava para o jardim central da vila, mesmo à frente da Câmara Municipal, que tem um lago que na altura me parecia enorme, mas que afinal não era assim tão enorme quanto isso, sei-o eu que caí lá três vezes, um das quais caí mesmo em pé e fiquei lá em pé a rir-me e com as calças de ganga todas molhadas. O lago cheirava muito a flores, era um cheiro muito especial que às vezes me fazia ir para o Jardim, sentar-me num dos bancos sozinho a olhar o lago e a sentir aquele floral. A outra, a quarta casa, foi onde vivi seis mais anos, mas parece que lá vivi a vida toda. Vai ser para sempre a minha casa. Ali fui criança, ali mudei três vezes de quarto – eu já era nómada até dentro da minha própria casa – ali fui adolesceste, ali brinquei, ali chorei, ali escrevi, ali pus muita coisa em causa, ali conheci-me, ali perdi a virgindade, dali saí sozinho de casa, ali voltei aos fins-de-semana, dali tenho saudades e há coisas que nunca mais voltam. Nas férias andávamos sempre de mala às costas. Ou íamos passar umas semanas a Buarcos ou à Figueira da Foz, onde alugávamos mais uma casa e para onde a minha mãe levava tudo e mais alguma coisa, incluindo garrafinhas pequenas com azeite e vinagre e um saquinho pequeno com sal e outro com açúcar. Ou às vezes passava o verão inteiro no Alentejo, na casa dos meus avós, de onde a minha mãe saiu para ir para a Alemanha, ou então a brincar na barragem e a morrer de calor. Depois fui viver para casa da minha tia em Coimbra, onde senti que tinha caído completamente de pára-quedas, e a minha prima se esforçava imenso para mo lembrar. No ano seguinte mudei-me para o apartamento de cima com a minha irmã que desistiu e voltou novamente para casa dos meus pais, deixando a casa só para mim. Ali fiz os melhores jantares da minha vida, ali fiz amigos, ali ri-me e confidenciei com a melhor amiga que se pode ter, a Patrícia. Depois abandonei Coimbra e de mala às costas fui viver oito anos para o Porto, onde vivi e dois quartos e três apartamentos. No primeiro chorei quando vi a minha mãe ir embora. Andavam por lá uns gatos no quintal, que quando eu me esquecia da janela do quarto aberta, me faziam dar com cada grito de susto que até a casa estremecia. Felizmente nunca caiu, não fosse a escadaria já abanar de cansaço, a água mal correr nas torneiras, a Teresa, a segunda melhor amiga que se pode ter, dizer que via ali fantasmas e mortos o que acabou por cinco meses depois fazer-me mudar para um quarto maior, porque eu sentia que precisava de espaço, num apartamento mesmo em Santa Catarina. Ali fui vegetariano e paguei contas de telefone elevadíssimas por ter ligado para linhas de valor acrescentado que anunciam na televisão. Dali saí e fui viver para um estúdio T zero no terceiro andar, onde eu ouvia a vizinha do segundo direito aos gritos com o marido, socorro, eu chamo a policia, socorro eu mato-me, bem que ela se podia ter matado, assim não se metia na minha vida, de bisbilhoteira que era. Ou então a do segundo esquerdo, mesmo por baixo de mim, aos pontapés à porta, que o filho tinha adormecido a meio da tarde e não abria a porta, parece que está a dormir o sono da morte! Fui viver para um oitavo andar à frente do Jornal de Noticias com uma varanda parecida com a do apartamento de Coimbra mas com uma vista para toda a cidade. Não fosse a humidade nas paredes, e de vez em quando o tecto cair em cima do sofá azul que comprei com o meu primeiro ordenado de designer num atelier, o apartamento até tinha potencial a ser perfeito. Uns meses depois fiz a mudança mais fácil e simples da minha vida. Mudei-me de elevador. Fui viver para o segundo andar do mesmo prédio e os dois elevadores rapidamente me levaram a mobília toda lá para baixo. Um apartamento perfeito. O mais perfeito onde vivi até hoje e onde fui muito feliz. Curioso como no mesmo prédio pode existir simultaneamente uma casa a cair aos bocados e um apartamento tão perfeito. Um soalho novo, um papel de parede giríssimo que me faz lembrar a segunda casa da Alemanha. Ali vivi. Vivi, no melhor ascendente da palavras viver. Mas como um perfeito de mala às costas, que procura incessantemente uma perfeição e nunca está satisfeito e acha sempre que existe mais e melhor, um dia mudo-me para Lisboa. Existe um tempo certo para tudo, e também existe um tempo certo para partir. Encontro um apartamento com duas salas, quarto, cozinha, w.c., marquise, corredor e terraço, cheio de janelas e com muita luz, perto da praça de Espanha. Ali até haveria algum potencial para ser feliz. Eu precisava de um apartamento grande, com bastante espaço, e quando me dei conta era demasiado grande e tinha espaço a mais. Além disso a minha irmã e um colega meu também diziam que ali havia fantasmas e mortos, que eu não estava sozinho e que vivia ali um homem. Parece que a primeira casa que habito numa cidade é sempre a casa dos mortos. Deve ser algum presságio ou aviso, não sei. Sei é que dali mudei-me para aquela que hoje é a minha décima terceira casa, e certamente que isso me vai trazer sorte. Junto ao Marquês de Pombal, pintada de vermelho, laranja e preto, cheia de Budas, incenso, e com o quadro que a Teresa me pintou pendurado numa parede. Este apartamento é muito parecido com o último apartamento que vivi no Porto. Aqui sinto paz. Aqui sou eu. Aqui estou comigo e reencontro-me a cada fotografia que penduro, a cada vela que acendo, ou quando olho esta janela e vejo os jardim do Palácio Souto Mayor e me deixo ser invadido pela luz e pelo sol. Treze casas à minha procura. E agora percebo que home é onde tu estás. O teu lar é aquele onde tu te sentes bem. Há que personalizar o espaço, nem que seja por um curto espaço de tempo, mas torná-lo meu, acolhedor e que se identifique comigo. Afinal aqui vai ser a minha casota durante algum tempo, e o que importa é enquanto aqui estou. Sei que esta não será a minha última casa, afinal continuo sempre à procura de mais e de uma perfeição mágica que eu sei que existe. Além disso a tradição mantém-se, pois os meus pais enquanto eu me mudava para esta casa, mudavam-se eles para uma moradia fantástica, com um jardim com um óptimo potencial, onde ainda tenho de personalizar o meu quarto para que o sinta meu, já que ali não fui eu quem pôs a mala às costas. Quando cheguei, já a mudança tinha sido feita. Passamos a vida de mala às costas. Até a minha irmã já mudou várias vezes de casa e de cidade. É de família!

15.5.07

A OUTRA COM NOME



Conhecemo-nos completamente por acaso. Como que por acidente. O típico encontro banal do: eu-ia-a-passar-ele-olhou-para-mim-e-parou. E assim foi. Eu ia para casa, já passava das 23h, vinha cansada do ensaio, como que a falar sozinha e a relembrar as deixas da última cena. Tu descias a rua no teu carro, olhaste-me fixamente. Deves ter pensado: mais uma maluca na rua a falar sozinha. E confesso que pelas minhas vestes despreocupadas de actriz às 23h30m da noite em final de ensaio, quase que poderia representar uma jovem revoltada que grita com o mundo, participa em manifestações e bebe uma cerveja no final da noite, na esplanada do Piolho. Mas na verdade esse estilo alternativo devia-se mesmo à preguiça e cansaço de não despir o figurino. Não sei o que te despertou em mim, mas viraste o carro, deste a volta ao quarteirão tão rápida, que antes de eu atravessar lá cima a passadeira de Sá da Bandeira, o teu carro já estava a abrandar para eu passar. O teu olhar seguiu e contou cada risca da passadeira. Na última risca sorriste. Eu fiquei completamente envergonhada. Paraste o carro e ficaste a olhar fixamente os meus olhos que olhavam os teus, ali parados na rua ao frio. Como sempre fui muito atrevida, dirigi-me ao teu carro, à partida para te dar uma descasca género: não tem vergonha? Ou qual é a sua ideia?
Mas quando chego e o vidro se abre num sorriso e um: o que é preciso fazer para ouvir a sua voz e lhe oferecer um café? Senti-me completamente louca e fiz entrar o figurino do ensaio no banco do co-piloto. Tu não sabias que eu era actriz e no fundo estavas a tentar engatar o personagem. E o personagem foi contigo dar uma volta de carro a fingir que procuravam um café aberto aquela hora da noite na baixa. Obviamente, não encontraram, mas encontraram um beco sem saída de uma rua tão estreita que tiveste de tirar dali o carro em marcha-atrás enquanto eu me ria do absurdo da situação. Tu estavas a começar a ficar muito sério e a perder aquele sorriso que me fez entrar no teu carro, mas eu continuava a achar a noite uma verdadeira aventura. Aventura que continuamos numa rua quase deserta, com o carro mal estacionado no escuro quando a tua boca não resistiu à minha e sentia as tuas mãos na minha face. Já há muito tempo que alguém não me beijava com as duas mãos a segurarem-me a face. Por esta altura era costume uma delas segurar o meu peito com medo que ele caia, provavelmente, e a outra perdida entre botões e fechos a desvendar todo o território. Tu foste diferente. O que parecia um típico engate género: e-já-agora-como-é-que-te-chamas-quer-dizer-não-importa, afinal não o era. Foi quando me disseste que achavas graça ao meu ar descontraído e aventureiro, ao mesmo tempo misterioso e um pouco desleixado que eu te disse que aventureira era, principalmente quando estudava personagens loucas que nem me deixavam tirar o figurino, pois eu não me vestia assim, que percebeste que eu era actriz. A tua expressão mudou. Sentiste que tudo aquilo era demasiado bom para ser tão arriscado. Afinal tens namorada! E também é actriz! Que coincidência! Não, não sei quem é, mas sim é provável que um dia possamos a vir trabalhar juntas, o mundo é tão pequeno e dá mais voltas que uma maquina de lavar em processo de centrifugação. Levaste-me a casa. Sobes apenas para te despedires e são seis da manhã e ainda estamos a dar o último beijo de quem não sabe quando nos voltaremos a ver, se é que nos voltaremos a ver. Não nos conseguimos largar e os olhos deixam cair uma espécie de lágrimas. Algo de muito raro aconteceu nesta noite em que até parecia um típico engate sem nome. Chamo-me Paula, chamaste Pedro, e não quero dizer o nome dela porque já tenho ciúmes. Quero-te e sei que me queres. Quando os nossos braços se conseguem arrancar fico ali sozinha. Antes de ir para o ensaio vejo que o teu carro continua estacionado à minha porta. Volto a casa para escrever uma carta de página e meia que enfio pelo vidro da janela que abriste a sorrir. Onde estás agora? Quem és tu? Dizes o meu nome ou dizes o dela? Uma semana depois telefonas-me à hora de almoço, eu já não fui a tempo, mas como pressinto que és tu apesar de não conhecer o número, dou-te um toque. Pedes-me para nunca o voltar a fazer, é o número do teu trabalho. Leste a carta, o carro ficou sem bateria e tiveste de lá ir buscá-lo no dia seguinte. Se tiveste de voltar ali é porque o destino quer que nos voltemos a ver, penso. E vemos. Vemo-nos durante 2 meses, nos quais cada noite é ainda mais difícil de despedir e choramos como duas crianças, tendo sempre medo que seja a última vez e que deixemos de nos ver. E apesar de ires ver os meus espectáculos e no fim saíres a correr para ires ter com ela, ou de eu ficar sozinha em casa a pensar em ti que estás com ela, ou das noites em que vens a correr dar-me um beijo e eu sentir-me a outra, um dia deixamo-nos mesmo de nos ver. Deixas de responder às minhas sms, não me telefonas, não me visitas. E percebo que acabou aquilo que afinal não foi um típico engate sem nome, mas que fez de mim durante dois meses, a outra.


(ao Paulo)

HÁ PESSOAS ASSIM!

Há pessoas que ocupam imenso espaço. Há pessoas assim. Existem dois tipos de pessoas. Aquelas que entram em nossa casa e se colocam em pé em frente ao sofá e apenas se sentam quando convidadas. Isto, porque também só ultrapassaram a barreira da porta porque ouviram: entre! Atravessam o corredor quando incentivadas a tal e por norma nem tiram o casaco para se sentarem. Mal ousam pedir um copo de água, mesmo que se tenha montado o Brasil lá fora, porque têm sempre imenso medo de serem inconvenientes e estarem a abusar da confiança. São pessoas tão educadas, tão educadas que até nós, que somos donos da casa nos sentimos constrangidos e não sabemos onde colocar as mãos quando falamos. Mais valia cortar as mãos e colocar os cotos atrás das costas. Este tipo de pessoas são aquelas que nunca aceitam uma fatia de bolo, mesmo que o seu cérebro esteja a aguar com imagens de chocolate a desfazer-se com as pupilas gustativas. Há pessoas assim, que nunca se sentem à vontade, que querem passar despercebidas e não querem nunca incomodar. São adeptas do: Oh, não se incomode! Ou do: Não vale a pena, obrigado! Estou bem assim! Depois, existem aquelas que entram e se sentam logo, mesmo sendo a primeira vez que nos visitam. Há pessoas assim, que se instalam como se estivessem em casa, que vão marcando o seu espaço e por vezes ocupam imenso. Nunca nos viram, nunca estiveram em nossa casa, mas entram directamente em direcção à sala, tiram o casaco que colocam à vontade nas costas de uma cadeira, e instalam-se confortavelmente no sofá onde por norma nós gostamos de nos sentar. O que se por um lado pode ser bom, por outro poderá ser um pouco desagradável e até preocupante. O lado bom, é que não fazem grandes cerimónias, são verdadeiras e autenticas e não nos precisamos de preocupar, porque sabemos que a pessoa se sente suficientemente à vontade para ser honesta em pedir um copo de água ou aceitar uma fatia de bolo. Mas, passado algum tempo, são estas mesmas pessoas que já abrem directamente a porta do nosso frigorífico e inspeccionam o que querem beber. Algumas ainda têm a distinta lata de nos dizer o que temos de comprar e de fazerem alguma reparos e recomendações sobre a cozinha ou um ou outro copo fora do sítio. Há pessoas assim, capazes de nos dominar por completo a casa e se não temos cuidado começam a esticar-se como um gato num sofá que a pouco e pouco nos expulsa, quase nos fazendo cair, e ocupando todo o território. Há pessoas assim. Há pessoas que ocupam imenso espaço. Ora se no primeiro caso, as pessoas nos deixam quase que desconfortáveis e pouco à vontade na nossa casa, no segundo, se não nos apressamos, estamos a pedir desculpa por existirmos, aos nossos próprios convidados, e a dormirmos numa tenda de campismo, montada no terraço, porque entretanto já se mudaram se armas e bagagens para dentro das nossas casa. Há pessoas que ocupam imenso espaço. Há pessoas assim.

14.5.07

É DE MIM, OU ESTÁ CADA VEZ MAIS FRIO?



Está frio. Ou sou eu, ou está cada vez mais frio nesta casa. Há dezoito anos atrás não estava assim tanto frio. Bem sei que entretanto o clima mudou e os raios solares chegam cada vez com mais intensidade ao nosso planeta e está tudo desregulado. Mas por isso mesmo, não entendo. Era suposto eu ter cada vez mais calor e não tanto frio. Estou enrolada nesta cama fria num cobertor e tento não me mexer. Há uns anos atrás tu estarias aqui comigo, abraçado a mim. Talvez já estivesses a dormir, mas os teus braços protegiam o meu corpo que se aninhava em ti e acabava por adormecer aconchegado e quentinho. Agora não há maneira de aquecer. Vou buscar mais dois cobertores e enfio-me por baixo. Sinto que o colchão está frio. Será que é de mim ou tu também sentes frio no escritório? No outro dia fui lá limpar e vi que compraste um aquecedor. Provavelmente também tens frio. Mas mesmo assim isso não te impede de agora passares as noites todas lá em baixo no escritório que montaste na garagem. Quando voltas para cima, deves colocar o teu corpo aí ao fundo da cama, porque de manhã vejo-o sempre aí. Vou buscar mais um cobertor e um edredon que está há dez anos no cimo do roupeiro e que nunca foi usado. Quando o compramos achei que não havia necessidade. Estávamos casados à oito anos e eu sentia-me feliz. Uma mulher feliz não precisa de edredons. Mas muita coisa mudou entretanto. Passaram dezoito anos. Tu estás lá em baixo no escritório, agora passas lá as noites. Eu estou aqui, nesta cama vazia, silenciosa e muito fria, enrolada em cobertores. Estás dezoito anos mais velho e mais gordo. Nunca foste muito falador mas com o tempo foste perdendo a voz. Agora quase não falamos. Eu bem tento. Já puxei à conversa algumas vezes “O assunto” mas fica sempre adiado para o dia seguinte, e depois parece que não temos nada a dizer um ao outro. Já quase não falamos. Fica um silêncio e um vazio quando os nossos corpos já não se falam nem se tocam à mais de três anos. Fica um vazio nesta cama que arrefece dia após dias, e fica um vazio em mim que te vejo dormir de costas viradas. Viraste-me as costas nesta cama e neste casamento. Montaste o escritório lá em baixo e casaste-te com o teu trabalho. Talvez para te refugiares, talvez para não teres de enfrentar o que está a acontecer. E para fugir ao nosso afastamento, fugiste lá para baixo e ainda nos afastaste mais. Existe um silêncio e um vazio nesta casa e no meu coração. A minha vida tornou-se silenciosa como o nosso casamento. E o meu corpo tornou-se frio como esta cama. Tenho cada vez mais frio. Visto um casaco de malha e um roupão por cima do pijama. Mas continuo a sentir-me desprotegida. Sinto-me a deambular por um casamento que outrora existiu mas do qual hoje apenas sobrevivem alguns restos que testemunham dezoito anos de vida. A cama está cada vez mais fria. Não há maneira de eu aquecer esta noite. Vou buscar os casacos de inverno compridos, os sobretudos e as gabardines e coloco-as por cima dos cobertores e edredon. Enfio-me por mais de uma montanha de roupa. Acho que tenho de começar a fazer isto todas as noites, antes que um dia destes acorde congelada contigo ao meu lado, melhor dizendo, de costas para mim. Vou tentar adormecer. Com este peso todo em cima só tenho duas soluções, ou aqueço-me de uma vez por todas e deixo de ter frio para o resto da vida, ou sufoco até ao fim de tal forma que deixo de respirar por completo e saio deste casamento deixando para aí o meu corpo colocado na cama ao lado do teu.


(à Zé)

EM MADRID, NADA É ESTRANHO!




Não sei como me passou pela cabeça. Saí de casa e fui até à loja onde comprámos os fatos para o nosso casamento. Paguei o meu e o teu. Vesti o meu. Deixei lá a minha roupa e saí vestido, depois de dizer à senhora que tu logo à tarde ias lá buscá-lo. Saí pela baixa, vestido de smoking às 11h30m da manhã. Ninguém achou estranho. Em Madrid nada é estranho. Nem eu apaixonar-me por um homem e pedi-lo em casamento. Os meus pais ficaram todos contentes e gostam imenso de ti. A esta hora devem estar em casa a falar contigo. Telefonei-lhes depois de pagar o fato. Apanhei um táxi e fui até à esplanada onde nos conhecemos. Foi ali que nos conhecemos. Tu estavas sentado a beber um café, típico português. Eu sentei-me e deparei com o teu olhar. Nunca mais consegui desviar o meu olhar do teu. Passou um ano e continuo a olhar apenas para ti. Eu já tinha tido algumas relações com homens, mas nenhuma mais longa que um mês. Eram relações mensais. Até ao dia de me sentar nessa esplanada. Viajámos imenso e tínhamos um namoro perfeito. Os nossos pais aceitaram o nossos casamento, assim como os nossos amigos. Dormimos sempre abraçados e tenho-me sentido o homem mais feliz do mundo. Por isso é que achei estranho tu uma semana antes decidires ir fazer a tua última viagem como solteiro. Mas, como já estava quase tudo preparado para o casamento e senti que eu também precisava de ficar sozinho uns dias, antes de me unir para sempre a ti, aceitei. Mas o telemóvel que agora está aqui ao lado, desligado, dois dias depois deixou de tocar. Mal me davas noticias. Senti-te longe e não era apenas fisicamente. Estavas frio, seco, diferente. Não percebi. A família mais chegada já está em Madrid e os nossos amigos mais próximos têm tudo preparado para a nossa festa. Será no Palacete de uns amigos dos meus pais. Estão todos excitados com o nosso casamento e a ajudar nos últimos preparativos. Todos, menos tu. Tu resolveste ficar mais uns dias e voltar dois dias antes de nos unirmos. Não percebi, devias estar aqui super entusiasmado com o nosso casamento. Mas não só não te sinto entusiasmado, como nem sequer estás aqui. Não percebo. Mas em Madrid nada é estranho. Chegaste ontem de manhã. Vieste ter comigo, abraçaste-me e disseste que precisávamos de conversar. Não percebi nada do que me disseste. Deixei-te a falar sozinho na casa que já compramos e mobilamos juntos para passarmos o resto da nossa vida, e saí porta fora sem perceber nada. Apaixonaste-te por outro homem e já não queres casar comigo? E dizes-me isso dois dias antes de casarmos? Não percebo nada. Por isso fui buscar mais cedo o fato de casamento e sentei à porta do conservatório. Sei que ainda faltam dois dias, mas vou passá-los aqui sentado, à tua espera. Afinal em Madrid nada é estranho. Talvez mudes de ideias e venhas casar comigo. Entretanto, enquanto esperava fui tomando estes comprimidos todos que trouxe às escondidas antes de sair de casa, misturando-os com os que comprei na farmácia ao lado da esplanada. Não sei se já é o dia do nosso casamento, porque me sinto um bocado tonto. Ia jurar que na entrada do conservatório não existiam macas, nem tubos de oxigénio, nem enfermeiras. Mas deve ser de me sentir tonto e com muito sono. Vou só fechar mais um bocadinho os olhos enquanto espero por ti.

11.5.07

O PAPAGAIO ESTÁ LOUCO! O PAPAGAIO ESTÁ LOUCO!




Estou no meu maior desgosto. Quando ele veio pra cá viver, era a alegria desta casa. Todos os meus amigos metiam conversa com ele, tentavam ensinar-lhe novas palavras, que ele rapidamente aprendia, fazendo as delícias dos nossos jantares e envergonhando alguns rostos mais tímidos com a cor de alguns vocábulos. Era sempre muito divertido e tinha toda a nossa atenção, mas algo estranho, havia neste papagaio porque existiam sempre imensas penas no chão da gaiola. Depois começou a ficar esquisito com a comida. Só comia folhas de alface fresca e pedacinhos de banana e maça partida. E nós cedíamos aos seus caprichos apesar de não percebermos porque encontrávamos sempre tantas penas na gaiola. Comecei a achar que ele sofria de alguma alergia que lhe fizesse cair as penas ou que estivesse na altura da mudança da pena. À noite tapávamos a gaiola e no dia seguinte era sempre uma festa quando me via. No início fazia-me alguma confusão tapar-lha. Tinha medo que ele sufocasse. Mas depois explicaram-me que se eu apagava as luzes do quarto, era justo que ele dormisse também às escuras. Um dia achei que estar sempre fechado é que não era lá muito justo e comecei a abrir-lhe a gaiola ao fim da tarde, depois de chegar a casa. Ele adorava voar pela cozinha toda, principalmente pendurar-se nas portas dos armários qual artista de circo. Depois comecei a reparar que o seu espectáculo era deixar bicadas bem afiadas em todas as portas. Deve ser para libertar o stress de estar o dia todo trancado numa gaiola pouco maior que o seu tamanho, pensei eu. E não sabia eu o que estava a dizer! Mas no outro dia comecei a ficar seriamente preocupada com ele. Levantei-me de manhã, estava um dia lindo de sol e normalmente, como todos os dias fui à cozinha e tirei o pano que cobre a gaiola, já com um pratinho recheado de pedaços de maça e banana cortadas para tomarmos o pequeno-almoço ao mesmo tempo. Mas estranhamente ele estava muito sossegado, sem mostrar grande entusiasmo por me ver e o chão da gaiola estava completamente coberto de penas. Tentei falar com ele, a ver se me respondia mas mostrava-se muito indiferente à minha presença, quase como que amuado. Abro a gaiola para que possa dar uma volta matinal pelo tecto da cozinha. Ele sai a voar em grande velocidade, ganha toda a energia, aliás uma energia até desmedida. Faz voos repentinos sem pousar em lado nenhum, que me deixam completamente assustada. Começo aos gritos que o papagaio está louco, que o papagaio está louco. Começo a correr atrás dele, na vã esperança de o apanhar e de o tentar acalmar, mas a porta de um dos armários cai-me na cabeça. Não percebo porque que é que a porta do armário caiu, mas a verdade é que depois disso houve mais duas portas que caíram, assim como uma parte de uma estante que desfez mais de dez pratos no meio do chão e o papagaio continuar a voar em alta velocidade pelo tecto da cozinha e só vejo penas à minha frente. O papagaio está louco, o papagaio está louco! Só depois consegui perceber que foi ele que bicou de tal forma os armários e a estante, que transformaram esta cozinha numa verdadeira casa do terror que pode muito bem substituir a feira popular. O chão da cozinha está recheado de cacos partidos, portas de armários, pedaços de maça e banana pisados que entretanto deixei cair, e todos o meu pequeno almoço, café, leite, torradas, flocos, chávenas e talheres, já que eu escorreguei e quando me agarrei à toalha da mesa, fiz cair tudo no chão. Tudo coberto de um lençol de penas que aumenta a cada um dos seus voos. O papagaio está louco, o papagaio está louco! Quando finalmente o consegui apanhar, estávamos os dois esgotados e reparei que já há muito tempo que é ele que se arranca as suas próprias penas e que em certos sítios está praticamente depenado. O médico diz que ele sofre de stress e que não há comprimidos que o salvem. E realmente não há. Aqui estou eu, ajoelhada no quintal fazendo uma cruz no chão, sofrendo o meu maior desgosto, porque o meu papagaio morreu de stress.

NÃO SOU EU QUE ESCREVO




Escrevo. É a minha mão que liberta os dedos, que se movem num teclado. Escrevo. Descrevo uma situação, que não conheço, mas que é urgente descrever, até ao mais ínfimo detalhe. Conto pormenores de pessoas que não conheço, na necessidade de revelar detalhes que nunca vi. Escrevo. Porque escrevo? Como possuo tanta informação? Existe uma voz quente que sussurra ao meu ouvido e me vai contando histórias, situações e acontecimentos. Essa voz desconhecida e que me põe a par de tudo, conta ao meu ouvido, que por sua vez tem uma ligação directa com a minha mão. E assim, esta pinta no écran do portátil, histórias que quando termino a página, me surpreendem tanto a mim como as pessoas que as lêem. Leio o que escrevi. Procuro um erro ortográfico a ser corrigido. Ao ler, deparo-me com a narração de uma história incrível, que eu não conheço e fico intrigado para saber o seu desenrolar e como termina. Quem me contou esta história? Onde estás? Provavelmente existe um ser conhecedor de todas as histórias possíveis e que quando pressente uma mão a dirigir-se a um teclado, aproveita o momento de inspiração, para descer e partilhar mais uma história. Onde vive esse ser antigo, sábio, conhecedor de todas as histórias? Provavelmente num planeta distante da terra. Só assim se explica a capacidade de distanciamento, que o permite conhecer, não só biliões de histórias de todo o lado, como também as poder contar a mãos que em todo o planeta se dirigem a um teclado num momento inspirado. Agora percebo porque determinadas vezes, me sento em frente ao pequeno portátil colocado na mesa da sala em frente à janela, e apesar de gatafunhar umas palavras perdidas num écran, sofro daquilo a que se chama “síndroma da página em branco”. Não sai nada. Existe um vazio, um bloqueio que não me deixa criar. Agora percebo. Essa branca, deve-se ao facto de nesse momento, por algum motivo alheio a mim, o Ser-Narrador-de-Todas-as-Histórias, não ter descido para me contar mais uma situação. Agora percebo que não há motivo para entrar em pânico, nem ficar assustado. Isto não faz de mim mau escritor, apenas no momento da inspiração, fiquei sozinho em frente do computador. No entanto esta consciência faz-me por em causa se os escritores serão realmente criadores ou meros narradores. Afinal, a grande magia da criação, a arte e beleza de um artista num momento de inspiração, não passam de uma simples e pura transcrição de factos que alguém nos conta. Nem sequer sou eu que escolho as palavras, as metáforas, comparações, adjectivos ou pontos de exclamação. É ele. Tudo o que a impressora pinta nessa folha de papel, foi minuciosamente escolhido por ele. Ou seja, eu apenas sirvo como corpo de passagem. No fundo ele aproveita-se do meu corpo para poder contar às pessoas todas essas histórias. Isto faz com que eu e todas as pessoas que escrevem, me sinta um mero corpo de aluguer, uma mão de aluguer. Ou seja, sou um ser sem criatividade nenhuma, nem qualquer sensibilidade artística. Apenas me limito a entrar numa espécie de transe do qual não me lembro de nada, durante o qual o Ser-Narrador-de-Todas-as-Histórias, se aproveita da minha mão para exprimir tudo aquilo que quer contar. Mas pelo menos permite-me que assine as suas histórias e as afirme como minhas. O que de facto está errado. Não sou eu que as escrevo, eu apenas as digito manualmente no écran. Eu e todos aqueles que escrevem. Devíamos ser todos acusados de plágio por registarmos na Sociedade Portuguesa de Autores histórias que não são nossas, não fomos nós que criamos e que não conhecemos de lado nenhum.

ÉFE PONTO




Depois da tua mensagem escrita, guardo discretamente o teu número de telefone sem que ele perceba. Atribuo-lhe um código. F. É assim que ficas registado para mim. Éfe ponto. Como um militante da resistência francesa que se apaixona pelo inimigo. Como diria Marguerite Duras “O meu amor é um inimigo da França!” E tu meu amor? Vais matar França, ainda que eu esteja em plena Place Vendôme, a escrever-te? Se és o inimigo, e apaixonarmo-nos por um inimigo é proibido, então deixarei França. Mas inimigo de quem? Meu? Não. Talvez sejas inimigo da minha infelicidade, isso sim. Inimigo desta espécie de relação que arrasto cegamente, tal como um condenado arrasta acorrentado o peso de uma bola em ferro, e vai deixando pelo chão os braços, as pernas, e todos os seus membros, até deixar completamente de existir. Às vezes ainda procuro por aí, à noite, braços e pernas, que se possam parecer com os meus. Mas não encontro nenhuma letra da minha existência. Encontro uma. Éfe ponto. São as tuas mensagens discretas, tímidas e proibidas que me alimentam, e que põem em causa esta minha infelicidade. Vem meu amor, vem como inimigo feroz entrar em campo de batalha. Combate, luta por mim, enfrenta, levando-me para bem longe daqui. Prometo que no final desta batalha, aqui ou em Hiroxima eu farei feliz o “O meu amor é um inimigo da França!”, mesmo que também tenha de rapar o meu cabelo por ti. Respondo discretamente às tuas mensagens proibidas, e mesmo antes de entrar em casa, depois de as apagar todas, penso que te queria dizer: luta, luta por mim, luta que eu não tenho coragem. Não tenho coragem de admitir que é essa letra que falta no meu abecedário, que é essa a letra que alegra o meu dia quando vibra no bolso e leio as tuas palavras, que é essa letra que me adormece à noite na solidão de uma cama imensa com outro corpo deitado sempre de costas para mim. Éfe ponto, não me sais do pensamento, mas tenho medo de pensar em ti. Por vezes proíbo-me de pensar em ti. Apaguei até a tua letra do meu telemóvel, como penitência, para resistir e não cair na tentação de te mandar uma mensagem escrita. Sei que és proibido. É proibido pensar em ti, sonhar-te, querer-te. Mas não te consigo apagar de mim. E com a noção de que não te estou a deletar da minha vida, ao apagar o teu número do teu telemóvel, escrevo-o na última pagina da minha agenda, forrada a tecido vermelho com caracteres e motivos chineses que comprei à uns anos na China Town de S. Francisco, e que agora te serve de esconderijo. Ali estás tu, agora escondo-te no meio de uma quantidade incrível de rabiscos e lembretes e códigos e chaves de acesso, que eu acabo sempre por esquecer. Ali estás tu escondido, perto da password do meu blog. Escrevi-te o mesmo código. F. Estás aí. Eu sei que estás aí. E a quantidade de vezes que abro a agenda na ultima página e olho o teu número. Às vezes abro a agenda, só mesmo para te olhar, para olhar esse F., e ter a certeza de que estás aí, que não te foste embora. Durante quanto tempo mais vais estar aí? Durante quanto tempo mais vais esperar de mim? E se te cansares de esperar por mim? E limito-me a olhar para esse F., e a desejar-te num silêncio proibido, e a desejar, que não te canses. Não te canses, por favor, meu Éfe ponto. Não te canses de esperar por mim. Eu sei que estás aí, que tu me procuras e que eu fujo de ti. Eu sei que estás aí, mas continuarás aí, à minha espera, quando for à tua procura?

8.5.07

OH TERESA! OH TERESA!






E quem é que vos disse que a minha vida era trabalhar numa pastelaria? Isto nem sequer é uma pastelaria! É um café! E dos ranhosos. Estou mal disposta e cheia de sono. Saí à duas horas da Estação da Luz, só tive tempo de tomar um banho, vestir-me, e já aqui estou. Só tomei um café duplo e ainda não comi nada. Dói-me as pernas e não me falem alto nem com muitas pressas que ainda sinto o tremer das colunas e a música nos meus ouvidos. Oh Teresa, oh Teresa, não, calma lá, que a Teresa já vai. Se o Bispo é de hoje? Sei lá! Primeiro eu nem sequer vou à missa, segundo não ando a provar os bolos todos a ver quando nasceram para lhes fazer um B.I., além disso com dentadas minhas eram claro mais caros, mas acho que nem assim lá iam, e terceiro eu só aqui trabalho ao fim-de-semana, portanto se ele já cá estava a rezar ontem, não sei. Durante a semana de certeza que ninguém deve limpar estas parteiras. Estão tão cheias de pó que até metem nojo. Raios partam esta gente que se aproveitam dos part-times para fazerem tudo. Oh Teresa, oh Teresa, não, fala-me mais baixo que estou no meio da pista a curtir, e a vodka com limão está de se cair pró lado. E estás aqui estás a levar com um mil folhas na testa! Ai, eu não acredito. Lá vem ela outra vez! Será possível que aquela mulher não tem outro sítio para ir tomar o pequeno-almoço ao sábado de manhã? Eu até tenho pesadelos com este cabeção de laca ambulante numas pérolas falsas que soluçam em câmara lenta. Qualquer dia levo-te à Estação da Luz a ver se arrebitas. O som até te fura os ouvidos mulher! Já sei, um croissant prensado com queijo e fiambre, e barrado por cima a manteiga, cuidado para o fiambre não ter aquelas farripas de gordura à volta, e uma meia de leite, não muito escura e morninha. Ah! E não se esqueça dos guardanapos. Não, tá descansada, que eu não me esqueço. Aliás, eu nem sequer me esqueço do teu pedido, velha caquéctica, nem sei porque não o gravas num mini-gravador, assim escusavas de andar sempre a repetir a mesma coisa, qualquer dia ainda te cai a placa. Olha, estes deixaram moedas a mais. Fica de gorjeta, e é toda pra mim, que eu não tou pra aturar gente doida e nem sequer ser recompensada. Acho que logo à noite vou dançar outra vez. Sinto-me com vontade. Tenho é de passar na Lília, a ver se me empresta a botas altas, pra dar com o top que comprei no outro dia. Ainda nem o estreei. Oh Teresa, oh Teresa, não, calma lá, que a Teresa já vai. O croissant está pronto minha senhora, tome lá a sua meia de leite. O croissant está frio? Não há problema, aquece-se já! A meia de leite está muito escura muito quente? Não há problema. Eu não disse que o raio da velha me faz ter pesadelos? Ora molhava o croissant na meia de leite que já ficava quentinho, espera um bocadinho e já ficava morna. Deixa estar que daqui a pouco levas com uma bola de Berlim no meio da testa que eu já te digo! Olha-me pra aquilo! A pintar as beiças no meio do café! Fica-te muito bem, realmente! Uma velha de quatrocentos anos com um baton bordeuaux a tremer que daqui a pouco está a pintar as orelhas. Oh Teresa, oh Teresa, não, calma lá, que a Teresa já vai. Ah, o croissant ainda está frio? E a meia de leite agora está demasiado clara? Não há problema. Agora esperas aí meia hora que te lixas. Oh Teresa, oh Teresa, não, que a Teresa vai à casa de banho! Vou fumar um cigarrinho, que estou cá com uma traça. Ah velha dum raio que tiraste a manhã pra me chatear a paciência! Fora hoje é todos os sábados. O que vale é que logo à noite vou dançar e tu ficas em casa com o comando a tremer na mão a adormecer sentada enquanto as novelas brasileiras te seguram na placa e te põem os rolos na cabeça. Olha rolos vou por eu, ou fazer os cachos com o babylise! Acho que o emprestei à Mónica, tenho de lá passar! Então e agora, velha dum raio? O croissant já está quentinho, já? E a meia de leite tá da cor que gostas ou é preciso ir buscar a palete de sombras prós olhos pra tu escolheres? Agora nem pias! Não é? Oh Teresa, oh Teresa, não, o quê? A Teresa só esturricou o croissant que está mais duro e preto que o tacão das botas da Lília e cuspiu na meia de leite da velha!


(à Teresa Silva)

7.5.07

ESTRELAS NO TECTO DO QUINTAL




Ninguém me tira da cabeça que ele não tenha sido levado pelos extraterrestres. Ele era completamente alienado! Às vezes, levava-me para o quintal, às escondidas da minha mãe e deitávamo-nos os dois no chão. Eu tinha dez anos e ficávamos a olhar as estrelas e ele sabia o nome delas todas. Agora percebo porquê. Ele estava já a decorar o mapa do espaço para onde iria viver. Tenho a certeza. Ele sabia o nome das constelações, a que horas a terra rodava sobre o sol e o nome de todos os movimentos até da terra sobre si própria. Agora suspeito que ele me estivesse a preparar para me levar com ele, quando colou no tecto do meu quarto um mapa igual ao do céu, em figurinhas de plástico fosforescente que imitam perfeitamente o tamanho, a cor, a posição e o brilho das estrelas. A minha mãe não achou piada nenhuma e começou logo aos gritos. Ela não percebe. Estava sempre a dizer que ele via demasiados filmes e que “O regresso ao futuro” lhe fez mal em criança. Eu já vi esse filme e não achei nada de estranho. Nós temos um plasma igual ao que ele tinha no futuro, na sala lá em baixo. O que também foi complicado para a minha mãe aceitar, ele não conseguia perceber para que era preciso um écran deste tamanho para se ver televisão. Ela não percebe. E quando nos apanhou sozinhos no escuro a comer pipocas e a ver o “E.T.” disse logo muito alto: “És tão infantil Carlos Alberto! Quando é que cresces?” mas eu não percebi. Ele já tinha crescido tanto. Era bem mais alto que eu. Será que a minha mãe queria que ele ainda crescesse mais? Mas se crescer mais depois não cabe nas portas cá de casa. Se calhar foi isso. Uma noite cresceu tanto que teve de ser levado por uma nave espacial. Se calhar lá nas estrelas são todos muito altos e riem-se muito. Às vezes queria que ele me viesse buscar. Assim não tinha de a ver sempre zangada e a mandar-me para o meu quarto. Antigamente, quando ela me mandava para o meu quarto, porque eu não tinha feito os trabalhos de casa ou tinha partido alguma coisa cá em casa, ele ia ter comido às escondidas e ficávamos a brincar às lanternas. Mas uma vez ela descobriu-nos e deitou as lanternas fora. “Que vergonha Carlos Alberto! És uma criança!” Mas ele não era uma criança. Ele era meu pai! Desde que ele se foi embora que ela arrancou todas as estrelas no tecto do meu quarto e não me deixa ir à noite para o quintal. Agora não sei como comunicar com ele. Tenho quase a certeza que um dia o vi na televisão. Parecia mesmo a cara dele. Mas estava disfarçado de velhote. Deve ser para ela não o reconhecer. Porque eu sei que os extraterrestres às vezes deixam as pessoas virem cá para comunicar com a família. E tenho a certeza que ele me quer levar com ele. Mas a minha mãe quase não me deixa ver televisão. Diz que faz mal à cabeça. Ela não percebe. Ando a juntar dinheiro para fazer um OVNI e ir ter com ele. Ainda durmo no mesmo quarto, já não tenho as estrelas em cima da cama mas debaixo dela tenho muitas notas escondidas. Quando tiver o dinheiro todo, encomendo pela Net um OVNI e vou ter com ele ao país dos extraterrestres para nos deitarmos no quintal e podermos olhar cá para baixo a nossa casa. Tenho a certeza que o vou encontrar apesar daquela máscara de velho que ele usa para não ser reconhecido e de terem passado trinta e três anos desde que ele desapareceu.

FOTOGRAFIA VERDE-ÁGUA




Há uma imagem reflectida nesta fotografia que eu não conheço. Pelo menos não a reconheço. Lembro-me desses cabelos terem sido ruivos com bastantes ondulações. Mas não me lembro dessas rugas a saírem rasgadas desses olhos. Tenho a certeza que não existiam. Era ela? Ela não era assim. A imagem que eu conheço não é assim. Talvez não seja ela. Talvez essa imagem não seja ela. É de uma mulher, disso não tenho qualquer sombra de dúvida, mas não é a mesma mulher que eu conheço. A que eu conheço, tem um sorriso desenhado no meio da face. Os olhos estão iluminados por uma luz que quase encandeia quem passa e fazem corações bater à velocidade da própria luz. Os cabelos são brilhantes e parecem, movimentarem-se sozinhos. A maquilhagem é quase imperceptível. Quem olha com muita atenção até consegue descobrir um risco castanho à volta das pestanas inferiores e uma sombra bege muito esbatida na pálpebra. O rímel é praticamente inexistente e um blush quase se desfez. Um rosto assim, vivo, iluminado, brilhante, não precisa de maquilhagem. A pele á macia, suave. É uma pele de bebé tocado por uma inocência pura. Existe algo de muito saudável e sorridente neste rosto. Suponho que ela tenha sido manequim. Este rosto foi muitas vezes olhado, analisado, avaliado, admirado e desejado. Foi também muitas vezes fotografado. Esses olhos receberam muitos flashes. Quantas vezes eram tão fortes que quase se fechavam e era preciso uma grande concentração para se manterem abertos ao ritmo do fotógrafo, alternando com um sorriso que rasgava o rosto todo. Esse sorriso era tão aberto e profundo que quase se conseguia ver a alma. Era feliz. Era um rosto muito feliz. Um rosto que via desfilar nas passerelles. Um rosto que desfolhei muito nas revistas. Mas nessa boca que tantas gargalhadas deu, que tanto conversou, que tantas bocas beijou, não lhe conheço nenhuma que a tenha realmente amado. Penso que não foi um rosto amado. Foi desejado, muito desejado, mas nunca verdadeiramente amado. Num rosto amado não se desenham rugas a sair dos olhos. Num rosto amado as pálpebras não descaiem. Os lábios não ficam encarquilhados. Os olhos não se afundam em papos e olheiras movediças. Um rosto amado continua a brilhar toda a vida, porque existe um outro rosto que o olha com um olhar tão terno que não lhe consegue ver rugas, papos ou olheiras. E um rosto de solidão tem muitas rugas. Hoje olho essa imagem nesta fotografia e vejo-lhe uma sombra castanha escura que cobre toda a pálpebra. Vejo-lhe um risco grosso preto que delineia todo o olho. Existe um blush carregado que tenta disfarçar as maças do rosto descaídas. Mas não há tapa-olheiras que disfarce esses papos onde se escondem os olhos. Há uma mão que treme ao delinear um lápis sobre o contorno dos lábios. Talvez porque este contorno já não existe. Foi apagado e rasgado pelo mesmo tempo que rasgou esse rosto nas fotografias, nas revistas e que não se recorda das passerelles. E nesta fotografia de facto apenas existe este rosto. Ao seu lado não existe mais nenhum a olha-lo, a admira-lo em olhares ternos ou de desejo. É uma fotografia de solidão num rosto marcado pelo tempo e abandonado pela memória. Há apenas uma coisa que reconheço nesta imagem, os meus olhos. Continuam verdes. Um verde-água que nunca perdeu a esperança de ser feliz, mas que envelheceu e desaguou sozinho na solidão desta fotografia.

4.5.07

GUERRA VESTUÁRIA




Não sou uma pessoa organizada. Dou-me mal com essa organização. Discuti com ela quando era adolescente e nunca mais fizemos as pazes. Mas não foi sempre assim. Quando era criança, criticava muito a minha irmã, por o quarto dela ser uma verdadeira caserna em tempo de guerra. A cama estava sempre por fazer. A noite deitava-se nos lençóis amarrotados e às vezes nem lhes puxava as orelhas. No roupeiro estava tinha explodido uma bomba vestuária. Enquanto eu, tinha o meu roupeiro organizado por casacos, camisas, e depois calças e cada secção estava alinhada por cores, abrir as portas do armário da minha irmã era uma aventura. Um dia cedi-me a viver essa aventura e desvendei essas portas. Assim que as abro caem-me logo duas camisolas na cara e deparo-me com umas jardineiras quase a escorregar dum cabide. Na roupa que está pendurada encontro: várias calças no mesmo cabide, saias aos gritos umas com as outras, camisas com as mangas ainda dobradas, enrugadas e emparelhadas com casacos de Inverno, um cabide só com um cinto e um outro com uns collants pendurados. Em cima d prateleira: pilhas de camisolas misturadas com calças e saias enrugadas, dobradas, do avesso, com moedas e lenços nos bolsos, por cima e por baixo das almofadas, cobertores, um urso de peluche, umas folhas rasgadas de um caderno e uns sapatos. No quarto havia ainda mais um parque de estacionamento vestuário: uma cadeira. Na cadeira que ficava ao lado da porta, por debaixo do espelho, morava uma família de t-shirts, meias, jeans e saias que partilhavam do movimento Ocupa. Um dia ouço a minha irmã furiosa com a minha mãe porque queria vestir aquela saia e não a encontrava em lado nenhum e não estava pronta a ser vestida. A minha mãe, paciente e angelical como sempre, procurou no cesto de roupa para passar a ferro, procurou no varão de roupa a secar, no cesto de roupa para lavar e nada. Achou que a saia tinha pedido independência, se tinha juntado a um par de jeans, e juntos numa união de facto, partido para bem longe, quem sabe para um roupeiro dividido por secções. Quando desistiu de procurar nos sítios possíveis, a minha mãe decidiu aventurar-se a contra o inimigo e participar na guerra montada no roupeiro da minha irmã. Claro que está que, amarrotada, engelhada e qual testemunha sobrevivente escondida por debaixo duma pilha de roupa e entalada numas t-shirts, a minha mãe salva a bendita saia. Anos mais tarde, eu quando comecei a viver sozinho, para matar a solidão de chegar a uma casa vazia, em silencio e sem nada para fazer, fui deixando uma ou outra camisola fora do sitio, para sentir que algo esperava por mim ao fim do dia naquela sala. Assim já não me sentia tão sozinho e tinha com que ocupar o tempo. A pouco e pouco tornei-me adepto da cadeira ao lado da porta, na prateleira do roupeiro moram t-shirts e camisolas viradas do avesso, bonés, meias, almofadas, um cobertor, umas calças que já não uso e umas correntes. Os pendurados ainda sobrevivem por ordem. Mas nas gavetas as meias nenhuma delas está dobrada, nem os boxers. Não passo a ferro. Despedi-o. As t-shirts, dobro-as bem dobradas, assim como toalhões de banho, toalhas e panos da loiça. Os jeans saiem do estendal directamente para as pernas e as camisas, agora é moda usarem-se engelhadas. Tornei-me num autentico caos, onde as gavetas coleccionam cheques, papeis, canetas, cartas, Cds, moedas, lenços, uma faca, um cigarro esquecido, isqueiros sem gaz, agendas, mapas, preservativos, entre outros objectos que me vão surpreendendo cada vez que as abro. Mas, em armários e gavetas, encontro sempre tudo o que quero na minha casa, nem que seja duas semanas depois. Não sei se o quarto da minha irmã também sofreu uma transformação tão radical como o meu. Tenho de lá ir abrir as portas a ver se ela agora organiza as blusas e os vestidos por comprimentos e cores e se declarou guerra definitiva e se o roupeiro se parece com o fundo de uma maquina de lavar de roupa.

ELA É MINHA!




Ela é minha. Eu amo-a. Quero ficar para sempre com ela. Quero e vou ficar para sempre com ela. Já temos dezanove anos. Já nos podíamos casar. Era só eu juntar mais umas semanadas e comprava-lhe uma aliança toda catita na feira da ladra. As miúdas adoram essas cenas. Curtem ter uma anilha. É para saberem quem é o dono. Acho muito bem. É como os cães. Têm sempre uma coleira. Era mais umas semanadas e gravava o meu nome e o meu número de telefone na anilha dela, para o caso dela se perder. Que é para saberem que ela é minha. Nem sequer lhe admito que use aqueles tops curtinhos e justos. Mas ela pensa que isto é algum concurso de Miss t-shirt molhada? Primeiro ela nem sequer tem umas mamas como as da Pamela, e se tivesse nem sequer saía de casa, isso era certinho. E segundo, as que tem pertencem-me a mim, e eu é que decido. Era tão simples, primeiro era desfazer-se daqueles tops, e começar a usar umas camisolas compridas e decentes. No outro dia vi uma miúda de óculos com uma camisola comprida que era mesmo aquilo. Devia-lhe ter perguntado onde é que ela a comprou para comprar uma igual e oferecer. Caso contrário, muito simples, eu ia ao quarto dela, pegava-lhe nos tops todos e queimava-os. E as mini-saias? Nem pensar. Eu não deixo. Desde quando é que os corredores da escola são uma passerelle de pernas? As pernas são minhas e não as mostra a ninguém. Mostra-mas a mim que sou namorado dela. Era começar a usar já umas saias compridas, e largas que é para não se ver as formas. E nada de calças. Que isso das miúdas andarem de calças justas tem muito que se lhe diga. As calças são para os homens e não os vejo a andarem para aí de calcinha justa. A não ser os mariconços. Anda lá um liceu que anda mesmo a pedi-las. No outro dia estava no balneário só a olhar. Ele que deixasse cair o sabonete que o fazia-o comer que deslizava que nem ginjas. E essas pinturas já estavam na hora de acabar. A culpa é das amiguinhas dela. São todas umas “maria-vai-com-todos” e andam a influencia-la. Más companhias, é o que dá. Já andam todas pintadas. Parecem aquilo que eu cá sei. Se ela hoje me tivesse chegado assim pintada tinha levado logo um estalo naquela cara, mesmo antes de dizer “olá” que era para aprender. Ela ainda não aprendeu que é minha? É minha e nada nos vai separar. Nada. Nada nem ninguém. Más companhias. Nós rapazes não temos disso. Somos todos unidos. A cena de um é a cena de todos. Eu que apanhasse um deles a olhar-lhe as pernas! No dia seguinte passava a fazer parte do coro da Igreja ao Domingo de manhã a cantar em falsete. E nada de andar a passear o cão. Ou ela pensa que eu não sei que andar a passear o cão é só uma desculpa para andar na rua e os rapazes meterem conversa com ela? A menina a passear o cão. Que bonito. Que bonito cão. Que bonito decote. Que bonitas pernas. Não queres passar lá por casa? Põe-se já fim ao cão num instante. Ela a dizer que eu sou muito ciumento e muito possessivo. Eu não sou ciumento. Nem sou possessivo. Apenas sei defender aquilo que é meu. Como é que os cães fazem para marcar território? É isso que ela quer que eu lhe faça? Assim já me respeita mais, é? Se calhar até gostava. Que aquelas amigas dela das rastas e piercings têm ar de gostarem de cenas muito estranhas. Mas ela é virgem e é minha. E eu vou ser o único homem que ela vai ter. Queria acabar comigo. Achava mesmo que eu ia aceitar. Ela precisa de mim, ela é que não sabe. Bem tentou acabar tudo na sexta-feira santa. De santa tem ela muito pouco. Já devia querer ir com as amiguinhas, todas pintadas para as docas. Nem pensar. Ela é minha e não há-de ser de mais ninguém. E se não for minha, então pode ter a certeza que não será mesmo de mais ninguém. Não sei para que é que ela se põe com estas coisas. Ela é minha. Não era muito mais simples ser minha, estar calada e fazer aquilo que eu lhe digo? Por isso é que no dia de Páscoa marquei um encontro com ela, e no meu carro, quando ela se recusou a admitir que era minha, tive de pegar na faca e de esfaqueá-la toda. Provei-lhe ou não lhe provei que era minha e não ia ser de mais ninguém? Depois, para ir te com ela e ficarmos juntos para sempre, atirei-me para a linha do comboio, mas não percebo o que é que correu mal, que estou para aqui deitado no Hospital, em coma. Mas ela que me espere que eu já vou ter com ela.

UMA ESMOLA À CEGUINHA!




Estava tão bem na cama e já me veio pôr aqui. Uma esmola à ceguinha! Eles passam mas não são capazes de deixar uma esmola à ceguinha. Pelo menos podiam pôr uma moedinha das pequeninas, a ver se lá para o meio-dia já dá para comer uma sopinha ali no café do Jaime. Uma esmola à ceguinha. Olha que com o calor que está não me apetecia nada comer uma sopa quente. Mas com estas moeditas não dá para muito mais. Estas pessoas realmente são muito fonas. Também o que é que lhes custa? Que diferença é que lhes faz uma moedita de um euro no salário? Esta coisa do euro é que foi coisa boa. As pessoas não fazem as contas e agora dão-nos uma moeda de um euro a achar que estão uma de cem escudos, ou cinquenta cêntimos, a achar que estão a dar cinquenta escudos. Palermas. Quem ajuda a ceguinha? Mas com este calor nem sequer saem de casa. Devem ficar estendidas ou penduradas em ares condicionados das melhores marcas enquanto eu fico o dia todo a fritar nesta cadeira. O dia todo não. Das 10h às 18h que o meu filho vem-me cá pôr e cá buscar – eu que nem queria, mas o meu filho obriga-me a vir para aqui pedir, uma esmola à ceguinha, diz que toda a gente tem que ter uma profissão e a minha é esta - e ao meio-dia vou ali ao Jaime comer uma sopita. Às vezes com muita sorte, uma alminha caridosa lá me paga a sopita e poupo umas moedinhas. Sim que pelo menos as moedinhas que trago no bolso para a sopita que sejam para mim de vez em quando. Antigamente era mais fácil ficar com umas moeditas para mim, porque estendia a mão e guardava as que queria. Mas agora o meu filho arranjou-me esta caixinha com um buraquito, uma espécie de mealheiro com asas que fica preso ao meu pescoço e à cadeira, para não mo roubarem, e tenho que declarar ao meu filho, que diz que é a minha contribuição para a renda da casa e para a sopa que como à noite, as moedas todas que lá depositam, que nem consigo abrir isto. Alguém auxilia a ceguinha! E isto está bem amarrado, contra mim e contra os ladrões. Que uma vez, e o meu filho não queria acreditar, tinha um chapéu no chão e ouvi o dia todo a tilintar moedas, aquilo já devia estar cheio, e passou um moço a rir-se e a cantar, cheirava a vinho que tresandava, pôs-se para aí a contar as moedas, disse que me estava a fazer um favor, e no fim só me disse: Eh velha tás rica tu! Ainda lhe perguntei várias vezes quantas moedas é que tinha, chamei por ele, mas quando ouvi umas meninas a rirem-se é que me apercebi que devia estar a falar sozinha. Por causa disso é que o meu filho arranjou este mealheiro e o amarrou a mim e à cadeira, que é para não pensarem em levá-lo. Assim se tentarem roubá-lo têm de me levar a mim e à cadeira como brinde de três em um. Quem faz o favor de auxiliar a ceguinha? Ele nunca acreditou que eu tinha sido roubada, ainda hoje acha que eu é que fiquei com as moedas todas e não lhe disse. Mas eu só fiquei com duas ou três, que no fim até as lá pus e não fiquei com nada para mim. Devia era ter ficado com as moedinhas todas, a ver se um dia destes alugo um quartito para mim e não tenho que o ouvir aos gritos à noite depois de me dar uma sopa fria e me mandar para o meu quarto, esta velha, esta velha, já estou farto desta velha sempre aqui em casa a cirandar parece um fantasma, não se pode ter paz em casa, um dia destes meto-te num lar e nunca mais ouves falar de mim! Olha, era um favor que ele me fazia, pelo menos no lar, davam-me banho todos os dias, comia sopa quentinha e não me mandavam para o meu quarto aos gritos para eu fingir muito sossegadinha que não existo enquanto ouço os gemidos duma flausina qualquer que depois de tomar banho se vai logo embora. Essas pelo menos têm direito a tomar banho quando lhes apetece e não têm de estar o dia todo amarradas a uma cadeira a fritar com um mealheiro no colo. Uma moedinha à ceguinha! Isto agora também é só estrangeiros, já nem se ouve falar português. E estes estrangeiros não dão moedas à gente. Uma esmola à ceguinha! Um dia destes farto-me de ser pedinte, de estar amarrada a uma cadeira com um mealheiro amarrado, da sopa fria, dos gritos do meu filho e dos gemidos das flausinas, rebento o mealheiro que mais valia ser uma porca de barro dava-me menos trabalho, e em vez de estar para aqui a fritar ao sol o dia todo, uma esmola à ceguinha, alugo um quarto perto da praia e vou o dia todo para ao pé do mar. Já devem ser seis da tarde, já me vou embora, que já lá vem o meu filho que me obriga a estar aqui, para buscar e desamarrar a uma esmola à ceguinha. Não gosto nada de o ver com a barba por fazer.

3.5.07

O ASPIRADOR TEMPORAL




Agora nunca vens ter comigo. Dizes que deixaste de ter tempo. Ora aí está uma questão bem interessante. Só se o perdeste em algum sitio. Queres que o vá procurar? Acho que vou à secção de perdidos e achados a ver se encontram esse tempo perdido. O problema é que não sei descreve-lo para um retrato-robot. E se o vir, acho que não vou conseguir reconhece-lo. Tem forma de quê? Aspirador digital sem, ponteiros? Como é que as pessoas deixam de ter tempo? Nunca percebi. Tem-se tempo e de repente, de um dia para o outro, deixa-se de o ter. Evapora-se. Desaparece instantaneamente atrás de uma máquina de fumos ou gelo seco? Ter ou não ter tempo, eis a questão. Será que o teu dia é mais curto que o meu? Será que o teu relógio não marca as 24horas diárias e ultrapassa duas ou três, eliminando-as como que desclassificadas da corrida? Que corrida é essa contra o tempo? O tempo não estica e andamos todos a correr contra o tempo. Porquê contra o tempo? Eu até nem tinha nada contra ele. Que inimigo é esse? Quem lhe declarou essa guerra? É por causa dessa guerra declarada, que ele começou a aspirar e a absorver as pessoas para uma espécie de buraco negro intemporal? Desculpa, mas essa desculpa, de não teres tempo não existe. Que eu saiba todos temos exactamente o mesmo tempo. Aliás, todos vivemos exactamente no mesmo tempo. A máquina do tempo também não existe, trata-se de uma metáfora de filmes de sábado à tarde dos anos 80. E pensando bem, o tempo nem sequer existe. Trata-se de um mero conceito inventado por nós. Afinal quanto tempo, tem o tempo? Em criança aprendi que, o tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem e que o tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem. Mas, o único tempo que existe é aquele que se pode medir do nascer ao pôr-do-sol. Não existe outro tempo além deste. A divisão que fazemos desse resultado, é completamente aleatória e não existe. Foi inventada por nós. Os minutos e as horas, como divisões temporais, não existem. São contas de somar e dividir, equações de quem não tem nada para fazer a tanto tempo de sobra. Quem é que se deu ao trabalho de medir com uma fita métrica temporal, a distancia que vai de um sol ao outro? E quem é que se pôs a dividir em parcelas esse resultado? Inventou as horas, para quê, pergunto? Para que se inventam as horas se elas não chegam? Para que se inventa uma coisa que depois não chega para nada? O homem deve ser mesmo masoquista. Inventa um tal de tempo, que afinal nem sequer lhe chega. Inventou o tempo. E agora diz que não tem tempo. É mesmo coisa de homens, inventar coisas que não servem para nada ou que nem sequer chegam. Criam uma solução que nem lhe responde às necessidades. Eu a isso chamo masoquismo. Mas segundo estipulado pelo masoquista criador temporal, o dia tem sempre 24horas, quer na tua casa, quer na minha. E o teu, certamente que também as tem. Olha lá bem o teu relógio? Vê lá se não marca vinte e quatro possibilidades de estarmos juntos por dia? Sabes, é que o tempo que existe, não é aquele que contas no relógio, mas aquele que eu quero passar contigo. O tempo, é aquele que passo cheia de saudades tuas. Esse sim, garanto-te que existe. E por mais forte que seja esse aspirador que aspira e absorve as pessoas para uma espécie de buraco negro intemporal, o tempo, essa saudade espalha-se por toda a minha casa e é vê-lo a suspirar por ti. Acredita que a saudade é bem mais forte que esse aspirador temporal. Mas se eu apanho esse aspirador, vou ter uma grande conversa com ele. Vou dizer-lhe das boas. Tiro-lhe o saco, faço-lhe, não sei quantos buracos com agulhas de vudu, que ele há-de espremer os minutos todos que tem. E depois quero ver-te a inventares novas desculpas para não me vires matar as saudades intemporais.

O GRITO DA MÃE URSA




Ainda hoje põe três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos. Como se ele ali estivesse. Mas não está. Como se a qualquer comento entrasse por aquela porta a correr e se sentasse cheio de fome. O pai que é policia estava de folga em casa. No quintal mesmo à frente das escadas conversa com um amigo e experimentava a arma nova. Uma pistola toda XPTO que tinha chegado essa semana à policia. Ela estava na cozinha mesmo em frente ao quintal a preparar o jantar, e gritava-lhe da janela “pára lá com isso, o janta já está pronto”, enquanto punha na mesa três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos. O pai dá um último tiro contra a parede. A mãe olha-o pela janela e mal tem tempo de dizer “onde é que tu vais? O jantar está pronto” quando o rapaz salta repentinamente as escadas a correr, ele andava sempre a correr, e uma bala lhe atravessa o crânio de um lado ao outro. Os médicos acharam extraordinária a velocidade da bala, capaz de nem sequer se alojar, alugando umas das cavidades do crânio com terraço e vista para o rio. Em vez disso, entrou, pesquisou num ápice toda a moradia cerebral e saiu, deixando como sentença uma morte imediata, ali no quintal, ao fundo das escadas. O jantar arrefeceu. Ninguém comeu. Ali ficaram na mesa os três pratos rasos, os três pratos de sopa, os três garfos, as três facas, as três colheres, os três copos e os três guardanapos. A mãe ficou parada, calada, a olhar para aquilo. A sua boca entreaberta, os olhos muito esbugalhados como os daqueles palhaços com um ar assassino género palhaço da MacDonalds, e que sempre me assustam imenso. Não emitiu uma única palavra. Levou as duas mãos à cabeça e ficou ali em pé, no meio das escadas, de pernas abertas na saia rodada, um delas já num degrau de baixo. Ainda se ouviu um grito, um grito que vinha das entranhas, lá mesmo do fundo das cavernas e que ecoou por toda a vila. Parecia ter sido dado pela mãe ursa, no fundo de uma caverna quando descobre o filho urso deitado no chão sem respirar, sem se mexer, e de olhos esbugalhados a olhar para ela. Assim ficou ela, depois desse grito ensurdecedor de terror e aflição, parada sem respirar e sem se mexer, com a boca entreaberta e os olhos bem esbugalhados a olharem para ele. Nunca mais disse nada. Depois do grito nunca mais se ouviu qualquer som a tentar escapar por aquela boca. Acho que esgotou toda a sua voz naquele último grito de aflição e terror, e como um rio esvaziado por um grito, assim ficou ela, seca, vazia, esgotada de qualquer capacidade de emitir sons ou emoções. E se a voz não lhe saiu toda no grito, esvaziando-lhe por completo o coração, o restante deixou ir naqueles olhos esbugalhados deitados no chão do quintal, de dezoito anos que olhavam tudo isto pela última vez. Mas ela não se despede uma última vez, porque todos os dias atravessa a vila, e quer faça chuva ou sol, ela arrasta-se ao cemitério para depositar as flores enquanto olha a fotografia tipo passe sorridente numa pequena moldura de vidro. Parece dizer “estou aqui mãe, não me fui embora!” E com a certeza de que o ouve, e de que ele não se foi embora, ou pelo menos com uma vontade animalesca de não o deixar partir, todos os dias ali se senta junto da sua campa a olhar aqueles dezoito anos que um dia saíram de dentro dela. Porque uma mãe ursa quando abre as pernas para permitir e oferecer o pequeno urso ao mundo, nunca corta o cordão umbilical. Pode até parecer que corta, mas esse pequeno cordão invisível que os liga eternamente como que uma espécie de telepatia que sempre transmite e sente se um filho está bem ou precisa de ajuda, nunca se corta definitivamente. O pai teve de deixar a polícia, pois experimentava ilegalmente uma arma em casa, no seu dia de folga. Ali está ele, sentado no sofá, olha as manchas de palavras num jornal silencioso. Com um ar gasto, frágil e culpado. Olha-o mas não o lê. Talvez traumatizado com receio de voltar a ver o seu nome imprimido naquelas páginas ou de ver a fotografia tipo passe dum sorriso de dezoito anos, que a bala que saiu da arma que estava na sua mão fez partir apressadamente sem sequer fazer o check out. E ela olha para ele com sua boca entreaberta e os seus olhos esbugalhados cujo seu silêncio o acusam da morte do filho. “Foste tu que o mataste!” É o que ele lê nesses olhos. E por mais que ele sinta que apenas segurava na mão a arma que disparou a bala que o matou, e que tudo se resume a um trágico acidente, também sente esse peso da culpa. A culpa dum silêncio vazio que agora habita essa casa e que todos os dias relembra aquele grito de terror e aflição saído do fundo da caverna da mãe ursa. E nesse silêncio incomodador de acusação, culpa, sofrimento e martírio, todos os dias ele põe na mesa três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos.

SÓ MAIS UM BILHETINHO




Vou a casa a meio da tarde buscar já não me lembro o quê e encontro uma carta na caixa do correio. Mesmo antes de sair de casa leio-a. Numa letra muito miudinha toda torta consigo decirar a tua apresentação, as músicas que eu ouço, os sítios que eu frequento, a escola que frequento e até os meus horários. Dizes que temos muita coisa em comum nesta vida e só me pedes para me conheceres pessoalmente. Muita coisa em comum, não temos concerteza porque eu não faço o género de entrar na vida das pessoas que não conheço, sem sequer pedir autorização. Claro que esta carta me assusta. Caminho na rua e olho para trás e para todos os lados no receio de uma perseguição. Imagino alguém louco com um andar estranho escondido atrás dum carro a caminhar devagar, a escrever num bloquinho de notas rasgado, a caminhar devagar enquanto me persegue. Vê lá se não tropeças em alguma coisa e cais no meio do chão e dás um bocadinho nas vistas durante a tua discreta perseguição. À noite, quando chego a casa, depois de trancar portas e janelas, sento-me no sofá e releio a tua carta. Portanto, neste momento existe alguém que após uma árdua investigação, ou por amizade a Sherlock Holmes, sabe quase tudo sobre mim, e quer estar comigo pessoalmente. Sinto-me completamente num filme de sábado à noite, daqueles que no intervalo nos leva a ir a correr à casa de banho, passando pela cozinha para encher os braços de bolachas e sumos, para não perdermos nem uma pitada da segunda parte enquanto por distracção e emoção mordemos o dedo e trincamos a língua, com uma bolacha na mão. Dois dias depois chego a casa e sinto-te a invadires cada vez mais a minha vida e o meu espaço. Deixaste-me um bilhete, agora mesmo por debaixo da porta, com o teu número de telefone e a pedires para te ligar e maçar um encontro contigo. Ou seja, estiveste dentro do meu prédio, à frente da porta de minha casa, e parece que até bateste à porta e por isso deixaste o bilhete. Sorte a tua eu não estar em casa a essa hora, pois a cozinha fica mesmo em frente à porta de entrada e eu tinha comprado à relativamente pouco tempo um faqueiro de cozinha com quatro facas enormes. Quase sinto o teu cheiro. Olho a porta de casa e imagino-te ali do outro lado. Apenas uma placa de madeira nos separava. Quase que estiveste em minha casa e sinto a tua presença a invadir-me o pensamento, o tempo, o espaço e a pele. Tomo um banho de água a ferver que me limpa a tua existência. Acho que já estás a ir longe demais e resolvo enfrentar a tua taradice directamente. Sejas quem fores não me vais continuar a assustar e a soprar no meu ouvido durante o sono. Com o meu número em modo confidencial e ligo-te para o telemóvel para averiguar que coisas tão interessantes temos nós em comum. Atende uma voz frágil, assustada que a tremer a única coisa que me pede é um café numa esplanada para me conhecer pessoalmente. Pede-me uma oportunidade de me fazer feliz e quase que se atreve a fazer-me uma declaração de amor enquanto eu grito que a única coisa que quero saber é quem és e como raio tens conhecimento da minha existência neste mundo e com todos os pormenores sobre mim. Dizes-me que me explicas tudo pessoalmente enquanto eu te faço entender que isso jamais irá acontecer, mesmo antes de desligar o telefone. Não aguento ficar em casa. Imagino-te a bateres-me à porta dentro de vinte minutos, se é que não estás já a subir pelo elevador por teres vindo a caminho durante o telefonema. Saio de casa. Caminho sem direcção a nada nem a lado nenhum. Como é que eu me vou ver livre de alguém que eu nem sequer sei quem é? A tua voz anda à volta da minha cabeça. É como uma gravação virtual que rodeia o meu crânio e não me deixa pensar. Acho mesmo que deves ser doente para quase me pedires em namoro depois de me perseguires e me deixares catas à porta. Eu não sei quem tu és, entendes? E sinceramente já nem quero saber. Apenas quero que tires essa voz da minha cabeça e nunca mais passes pelo meu prédio de papel e caneta na mão. Já que tens tanto jeito para escreveres bilhetinhos, escreve um ti com a frase “Lembrar-me todos os dias de esquecer que esta pessoa existe!” Um dia estou em casa e começo a juntar as peças do puzzle. Lembro-me da Nádia me ter dito que tinha visto o meu ex-namorado com um enfermeiro com um ar muito estranho chamado André. Lembro-me de um destes dias o meu ex-namorado me ter telefonado de um número que não era o dele. Revejo a lista das últimas chamadas recebidas no telemóvel e ali está o número. As pistas estão quase todas encontradas. É preciso verificar os dados. Ponho o telefone no confidencial e ligo para esse número, rezando para que ninguém atenda e para ouvir o nome na gravação. Alguém atende. É preciso manter a calma e levar o plano até ao fim? Boa tarde! Este não é o telefone do André. Sim, mas o meu filho não está, foi para o Hospital. Ligo uma segunda vez para ter a certeza. Vai para a caixa postal. Olá, ligou para o André, neste momento não posso atender. E ainda bem, porque neste momento partia-te era a cara. É a mesma voz. A voz frágil e assustada. Olho o bilhete que tirei debaixo da porta e é evidente meu caro Watson o número coincide. Ou seja, o Sherlock – Romeu dos bilhetinhos está relacionado com o meu ex-namorado. Decido levar a investigação até ao fim e telefono ao meu ex-namorado. Faço-lhe um relatório pormenorizado de todos os acontecimentos, que ele conclui com: Não precisas de ter medo, ele não faz mal a ninguém. Isto depois de ele me explicar que tiveram um caso, mas que não deu, e agora ele mexe-lhe nas suas coisas, agendas, telefone, e gavetas pessoais afim de investigar a sua vida e agora decidiu conhecer e namorar com todas as pessoas com quem teve alguma espécie de relação. Ao que parece no dia em que o pai me atendeu o telemóvel, tinha-se tentado suicidar, e pelos vistos não era a primeira tentativa. Se ainda partilham apartamento, aconselho o meu ex-namorado a ver-se livre dessa pessoa que me parece completamente perturbada. Um dia estou lá em casa a conversar como meu ex-namorado e aparece o tal do André. Uma figurinha baixinha com uma cara muito estranha que rapidamente o chama à cozinha, saindo a correr para ir comprar leite. Ainda lhe reconheço a voz frágil no telefonema a seguir, no: Porque não me avisaste que ele estava aqui? Que vergonha. Bem, eu é que sinto vergonha de estar no meio deste disparate todo e vou para casa. Esqueço o André, as perseguições, a voz frágil, os bilhetinhos, o Sherlock, o Watson e o Romeu. Mas parece que deixaste de escrever bilhetinhos, pois no outro dia ninguém conseguiu perceber quando encontraram o teu corpo frio e sem expressão deitado no chão com alguns frascos de comprimidos como decoração. Parece que desta vez conseguiste mesmo André, podias era ter deixado só mais um bilhetinho escrito numa voz frágil e assustada que nunca ninguém percebeu que precisava de ajuda.




(Espero que agora tenhas encontrado a tua paz André)

28.4.07

CROISSANTS VOADORES




A noite tinha sido altamente. Tínhamos arranjado umas roupas muito à frente e a animação tinha sido fantástica. O Bruno tinha levado umas pastilhas que um amigo lhe trouxe de Londres, que nos fizeram bombar a noite inteira. Eu, que por norma encharco-me em álcool, mas não sou nada de drogas, percebi que em tempo de guerra não se limpam armas e entrei na onda. Eram oito da manhã, quando em botas pelo joelho com plataformas e mini calções dourados e fosforescentes, saímos da festa. A animação tinha sido bem paga, e como estávamos os três a morrer de fome, decidimos ir tomar o pequeno-almoço. Mas de preferência a uma pastelaria perto de minha casa, porque nenhum de nós já sentia as pernas. E antes que o Ronaldo começasse a reclamar e a pedir muletas, e cadeiras de rodas, ou pior, para o levarmos ao colo, lá saímos do táxi e entrámos numa pastelaria de bairro, mais pequena que a minha casa de banho, cheia de velhotas com ar de missa de domingo. Isto depois do taxista nos ter aturado o caminho todo, com a mania que éramos estrangeiros, a falar inglês bêbado e mocado. Ronaldo, calça as botas! Já era suficientemente mau termos a maquilhagem de olhos rasgados, azul, prateado e laranja até à testa, toda borratada, estarmos semi-nus, com o peito cheio de correntes e purpurinas, os cabelos cheios de penas azuis, eu com uma trança de índio enorme, e o Bruno com pregos de plástico colados na cabeça rapada, agora sem botas é que não podia ser. Um artista, seja de noite ou de dia, neste caso, da-noite-no-dia, tem de preservar a sua imagem, nem que tenha de sofrer para isso, mesmo que isso implique entrar na pastelaria às 8h da manhã de botas até ao joelho com plataformas, depois de estar a dançar desde a meia-noite. O Ronaldo, a muito custo, calçou as botas, e eu já sonhava com um croissant prensado com queijo e fiambre, que me estava a dar água na boca. Água, era definitivamente a última coisa que me apetecia beber, depois de toneladas de shots de vodka. Eu queria leite com chocolate, bem quentinho. O Bruno já se tinha decidido por um galão, e o Ronaldo ainda estava a decidir, quando o funcionário se aproxima da nossa mesa. A fome era tanta que mesmo antes de ele dizer “Bom dia!”, acho mesmo que não o disse, ou seria “Boa Noite!”? Despejei logo ali o pedido. Bom Dia, são três croissants prensados com queijo e fiambre, um galão morno e um leite com chocolate bem quente. Os senhores não estão vestidos à altura de serem servidos, queiram sair, por favor. Não estávamos à altura? Equilibrados em plataformas de 20cm, não estávamos à altura? Que altura é que era precisa para comer um croissant ranhoso esmagado na tostadeira com queijo numa espelunca de bairro num domingo de manhã, a abarrotar de velhas de missa? Eu, muito calmo, olhei para ele e simplesmente sorri. Levantámo-nos da mesa e calmamente dirigimo-nos para a porta da saída. Aceitei. Estávamos cansados e cheios de fome e não íamos comer os croissants. Mas eu não me detive. Mesmo antes de sair, fiz uma paragem no balcão e bem alto perguntei se não tinha livro de reclamações, ao que o homenzinho muito nervoso responde que não. Pois devia ter. Porque além de não se poder recusar a servir-nos, pode ter que pagar uma multa por não ter um livro de reclamações neste estabelecimento! E se nós daqui a pouco viermos com a policia? Eu em altos gritos esbracejando ao balcão. O Bruno atira o casaco pelo ar e entra em calções de Lycra fosforescente para dentro do balcão, com gestos de ameaça, como quem desafia o inimigo para lutar. Estão, ou melhor estavam duas travessas recheadas de croissants acabados de sair do forno, que o Bruno com um golpe de braço faz voar. Foi lindo ver croissants quentinhos a voar pela pastelaria. O Ronaldo sentado em cima do balcão, que já não aguentava das pernas, mas aguentou-se a não tirar as botas ali, gritando, oh Bruno, oh Bruno, vamos embora, oh Bruno, oh Bruno! Quando saímos do campo de batalha, desatámos todos a rir, imaginando o campo recheado de restos de croissants voadores! Eu disse ao Ronaldo para tirar as botas, ali mesmo no meio da rua, a batalha estava ganha, era hora de arrancar as armaduras. E aqui estamos os três em minha casa, sentados pelo chão e pelo sofá. Continuamos em boxers, desta vez de algodão, depois de um banho e prontos para irmos dormir. Já são 10h da manhã. Não comemos os croissants, mas eu cozi um fusili fantástico, que com atum e queijo fundido, nos sabe que é uma maravilha!

UM SUICIDIO AZARADO




Existem momentos em que nada faz sentido. Fiquei desempregada. Talvez devesse ter dormido com o patrão. Mas aquele bigode, mal aparado com as pontas para fora enoja-me. Já não pago a renda há três meses. Quando saio de casa até tenho medo de encontrar o senhorio no vão das escadas, pois já não me lembro de mais nenhuma desculpa de jeito depois da última de ter de emprestar dinheiro para a operação aos rins à minha tia que só por acaso morreu o ano passado de ataque cardíaco. A mim é que me podia dar um ataque cardíaco, que assim não tinha de passar pela tortura de olhar para o Jorge, sentir o cheiro da amante, e ficar calada. Escrevi-lhe uma carta. Disse-lhe que ficasse com ela, e que fossem muito felizes. E já agora, que ela lhe pagasse a renda da casa, a divida no talho e a prestação do carro. Pego na faca de cortar os bifes, que por sinal está mesmo muito mal afiada, ele deve-a ter utilizado outra vez como chaves-de-fendas, mas que mania que este homem tem. Nem consigo cortar os pulsos com esta faca toda torta. Já estou é toda arranhada, e acabei de manchar a saia que comprei para o casamento da minha prima Odete, toda de sangue. Uma saia nova. Isto assim não resulta. Vou-me arranjar. Ponho os sapatos pretos de tacão de ir à missa, que também foram para o casamento da Odete e que só por acaso nem sequer sei andar nelas, mas elas diziam que me faziam elegante e ia fazer boa figura. Mas nunca consigo caminhar. Mas hoje é um dia especial. Afinal é o dia do meu suicídio. Hoje sim tenho de fazer boa figura. Já que me vou embora, vou toda aperaltada, pode ser que lá do outro lado esteja alguém jeitoso a receber-me e que não chegue a casa com cheiro de perfume comprado nos Chineses. Já pus as caixas todas dos comprimidos na carteira. Vou de carro até ao rio. Quando lá chegar já estou meio tonta e afogo-me logo. Com muita sorte quando o meu corpo andar para lá a boiar ainda se me aproveitam os sapatos que me custaram uma fortuna. Mas quem é que mandou aquela Odete casar-se? Agora ele arranjou uma amante, ela diz-me que já arranjou outro e já estão separados. Devia-a obrigar a pagar-me os sapatos. Tropeço nos sapatos e quando me apercebo já rolei pelas escadas do quarto andar até ao primeiro. Dói-me as costas. Mas não morri. Um dos sapatos ficou com um tacão partido. Assim nem a Odete os aproveita. O pior é que com a queda, os calmantes saltaram-me da mala e caíram lá para baixo para a cave. E eu perdi a chave da cave quando me andaram a fazer obras na parede da casa de jantar. É preciso ter azar. A sorte é que ainda tenho mais comprimidos suplentes guardados na gavetinha debaixo da cómoda, não fosse acontecer algum azar. A muito custo subo as escadas e vou buscar os comprimidos. Até a saia rasguei. Já estou numa linda figura, sim senhor. Não encontro os comprimidos. Isto não me está a correr bem. Depois é que me lembro que os tinha guardado embrulhadinhos num papel atrás do quadro do menino da lágrima que o Jorge me ofereceu pelo meu aniversário. Devia estar a tentar dizer-me que me ia fazer chorar ainda muito. Vou é já tomar cinco ou seis compridos antes que me arrependa. O copo com água escorrega-me das mãos e parte-se mesmo em cima do tapete novo. O Jorge vai ficar fulo quando vir este tapete cheio de vidros miudinhos, ele adora este tapete, comprou-o quando estivemos em Marrocos. E o copo era tão lindo. Comprado naquelas colecções que vem nas revistas semanais. Estive seis meses para fazer o serviço todo e agora parto um. Nem sequer o posso substituir. Muito menos antes do Jorge chegar a casa. Acho que os comprimidos já me estão a fazer efeito, já me estou a sentir um bocado tonta. Acho que já não consigo conduzir até ao rio. Mas acho tão romântico morrer afogada. Como naqueles livros da Bianca. Acho é que vou encher a banheira e vou-me lá deitar vestida e é romântico na mesma. Não é um rio, mas é afogamento na mesma e serve muito bem. O Jorge é que não vai achar grande piada aos tapetes da casa de banho todos encharcados se a banheira começar a transbordar. É melhor ir guarda-los na cozinha. A garrafa do gaz acabou e percebo que tenho que me afogar em água fria. O que afinal já ia acontecer no rio, mas aqui em casa parece-me estranho. Já que ia morrer na banheira, pelo menos adormecia quentinha. Preparo-me para o afogamento frio, e percebo que também não pagámos a conta da água, e por causa disso houve mesmo um corte. O Jorge vai ficar furioso quando se aperceber. Ele que adora tomar banho quando chega casa. Bem tenho mesmo que ir até ao rio. Cambaleio pelas escadas. Consigo identificar o meu carro apesar dos olhos já estarem semi cerrados, mas o objectivo é mesmo atirar-me ao rio, não me posso distrair. Não sei quantos compridos tomei nem quantos carros estão à minha frente. E também não percebo o que é que estou aqui a fazer deitada nesta cama de hospital. Parece que bati em quatro carros que ficaram desfeitos, mas eu fiquei intacta. É mesmo preciso ter azar. Mas de certeza que estou aqui deitada porque ainda devo estar sob o efeito dos comprimidos, porque as enfermeiras parecem-me ter duas cabeças e sinceramente não entendo o que é que o Jorge está aqui a fazer. Deve ter vindo discutir comigo por ter partido o copo em cima do tapete novo. E ainda por cima em vez de poder tomar banho teve de vir buscar a mulher ao Hospital por se ter tentado suicidar e nem sequer ter conseguido. Não percebo é porque é que ele está a sussurrar no ouvido da Odete. Não acredito. A amante do Jorge é a minha prima Odete. Não me consegui suicidar, estraguei a saia e os sapatos do casamento da Odete e ainda por cima descubro que ela é que é a amante do Jorge. Não me faltava mais nada. Ainda por cima ela tem uns sapatos exactamente iguais aos meus, mas sem estarem estragados. É mesmo preciso ter azar.


à Rita

O MACACO PAPÃO




Vivia debaixo da minha cama e estava lá, sempre que eu me ia deitar. Eu encolhia-me todo nos cobertores e entalava assim as partes laterais mesmo por debaixo dos meus braços para que ele não pudesse tocar-me. Punha sempre uma quantidade incrível de cobertores na cama, que a minha mãe não percebia mas para ficar bem pesado ara ele não conseguir meter a mão e tocar-me. Depois colocava a almofada um pouco mais abaixo que o costume para me atirar lá bem para o fundo da cama e para que os cobertores me pudessem cobrir completamente. Assim dormia eu, completamente sufocado em cobertores mas com a certeza que ele não iria conseguir tocar-me. Claro que a meio da noite já nem sequer me lembrava dele, e destapa-me por completo antes de sufocar naquele sarcófago de cobertores suicida que eu mesmo tinha preparado.
Todos me falavam no bicho papão como se fosse um monstro estranho com muitos braços e um saco enorme onde depositava as criancinhas para as armazenar por categorias e a pouco e pouco as ir tufando com mel para o pequeno-almoço. Mas eu era o único que o conhecia. Ele era um macaco. Mas um macaco enorme, género chimpanzé, mas maior ainda. Aliás pensando bem, não sei como é que ele sendo tão grande, se conseguia enfiar debaixo da minha cama. Ele era tão grande que me conseguia agarrar todo só com uma mão. Não que alguma vez o tivesse conseguido, porque eu com a minha estratégia sarcófoga conseguia sempre escapar-lhe. Acho que ele devia ter algum parentesco com o King Kong. Mas com o primeiro, aquele a preto e branco.
Mas ele, ou era muito inteligente, ou muito perspicaz. Ou então estava sempre a escutar as conversas dos meus pais. Pois mudamos varias vezes de casa, e dentro da mesma casa cheguei a mudar três vezes de quarto, e ele descobria sempre o esconderijo por baixo da minha cama. Na penúltima casa onde os meus pais viveram, primeiro o meu quarto dividia-o com a minha irmã, com uma mobília de duas camas individuais mas que nos davam uma grande dor de cabeça rotula-las. A que estava mesmo junto à porta era a da minha irmã, até ela perceber que exactamente por estar junto da porta, era a que me servia de armário de apoio pois eu apenas abria a porta do quarto e atirava para lá a mochila. Quando decidiu que afinal a cama dela era a da janela, percebeu que me servia de banco, porque me empoleirava nela para espreitar pela janela lá para baixo. Felizmente um dia, de tanto salto, parti o estrado da cama junto à porta, e peguei no colchão, que arrastei até à sala de jantar, que transformei no meu quarto.
Pouco tempo depois, os meus pais compraram-me uma mobília de quarto, com uma cama igual. E comecei a sentir a minha independência e a minha individualidade, abalada com três tiros quando a minha irmã pediu uma mobília exactamente para o quarto que agora era só dela. Mas porque é que ela tinha sempre que me imitar? Até quando eu comecei a usar gel no cabelo, ela passado um tempo pediu a minha mãe para lhe comprar gel. Ela até me imitou quando eu decidi ir viver para Coimbra, um ano depois já lá estava! Isto para não falar que dois anos depois de eu ter ido viver para Lisboa, lá estava ela de marcação cerrada. Mas pelo menos desta ultima vez disfarçou melhor, e foi viver para o Cacém para casa do Pedro, o seu namorado. É melhor eu nem comentar a escolha do nome do namorado.
Depois decidi que ali eu não estava bem, e mudei todo o meu quarto - sozinho porque ninguém me ajudou nem a desmontar, nem a montar a mobília composta por uma cama, duas mesinhas de cabeceira, uma cómoda, um espelho, uma estante e um guarda-fatos com três portas – lá para cima, no sótão, mesmo ao lado da casa de banho que agora era só para mim.
Mas esse macaco papão sabia sempre onde eu estava. Não me valia de nada andar sempre a mudar de quarto que ele descobria-me. Percebi que tinha de fechar as portas do guarda-fatos e todas as gavetas, tal como fechar muito bem as persianas e a porta do quarto. Mas mesmo assim ele conseguia entrar. Mesmo quando eu, por debaixo da cama, entre aquele vácuo das tábuas escondia alguns brinquedos com os quais os meus pais não me deixavam brincar porque diziam que eu já não tinha idade para brincadeiras. Cá para mim o papão entretinha-se era a noite toda a brincar com os meus brinquedos e a pouco e pouco foi-se esquecendo de mim.
Agora a minha cama é muito baixinha, tem apenas uma pequena trave preta que eu mesmo fiz, transformando a cama que era dos meus pais, quando viemos viver para Portugal. E agora, bem que olho para debaixo da cama, mas única coisa que encontro é debaixo do estrado uns quadros e um charriot desmontado, que eu ali guardei por falta de espaço, e que nunca me lembro, e certamente só o vou ver da próxima vez que mudar de casa.
O papão já não dorme no meu quarto, deve ter encontrado outra criança para assustar, ou então percebeu que ferros de um charriot não são tão divertidos para brincar como aqueles brinquedos que de certeza algum menino tem escondidos debaixo do colchão. Trocaste-me por outro papão, mas ainda durmo com uma quantidade incrível de cobertores que no Inverno me pesa nos ombros, me aquece e me protege.

O TESTE DE FIDELIDADE





Tinhas ido para o Porto, a trabalho. Se é que se pode chamar a isso trabalho. Um desfile de moda, um jantar e a seguir uma festa. O meu melhor amigo tinha ficado incumbido de te vigiar para perceber se não irias ter tentações de me trair, ou pelo menos perceber o modo como de comportavas. Assim género Big Brother, mas sem câmaras, e com relatórios diários ao final do dia. The big friend is watching you. Nessa noite tu perguntaste-lhe se ele não teria um amigo para levar também à festa. Ele falou-te do Rui. O Rui, que era conhecido por ser a cama mais rodada da cidade nortenha, tinha estado um mês antes em minha casa e tinha ouvidos os meus desabafos, e que não acreditava na tua fidelidade. Aconselhou-me a acabar a nossa relação. Assim género Lídia Franco a apresentar o All You Need Is Love, mas ao contrário. Assim que o Rui chegou ao Jantar de encerramento do desfile não tiraste os olhos dele. Piscavam os olhos, insinuavam-se. Até se devem ter empernado por debaixo de mesa. Qualquer coincidência com o Instinto Fatal é mera coincidência. Claro que esta era a hora perfeita para uma ida ao confessionário, e para um relatório do meu melhor amigo, mas não o fez. No início da festa ainda lhe perguntaste se ele era fácil, e levaste a resposta que alguém com vontade de trair deseja ouvir. Dançaram juntos. A vodka limão e redbull aproximavam-te ainda mais a ele e quando o meu melhor amigo percebeu que facto te tinha dado asas, simplesmente respondeu: “Eu não estou a ver nada!” A discoteca toda deve ter percebido que ias pra a cama com ele e que de fiel tinhas muito pouco, mas infelizmente parece que ninguém tinha como ir de emergência ao confessionário fazer relatórios. Pouco antes de chamares um táxi, o Rui foi ter com o meu melhor amigo e confessa-se: “ Lembraste de quando tu me contaste que uma vez tinhas sugerido insinuares-te para perceberes a sua fidelidade? Não é preciso. Já percebi que de fiel tem muito pouco e quer ir para a cama comigo. Estou eu a fazer-lhe esse teste e está a falhar redondamente.” Claro que quando tu chamaste o táxi já tinhas reprovado no teste, portanto estava na hora da primeira nomeação, se não tivesses já direito a expulsão de emergência. Mas o Rui, que é um rapaz muito incrédulo e discípulo de São Tomás entrou no táxi e acompanhou-te até ao hotel. Claro que quando chegaram ao hotel, mesmo antes de entrarem no teu quarto, tinhas claramente chumbado o teste como aqueles chumbos pretos a arder que os dentistas queimavam antigamente na boca. Estaria evidentemente na hora de uma segunda nomeação. E num jogo com quatro participantes, sendo que um dos quais tinha pleno desconhecimento da existência do mesmo – que era eu – e já tinhas duas nomeações, parece que a coisa não estava mesmo a teu favor. Mas o Rui que é daqueles rapazinhos que gosta mesmo de ter a certeza das coisas, e que não gosta de julgar de ninguém levou a coisa até ao fim. Entraram no quarto. Enrolaste-te a ele aos beijos. Sugaste-o como um aspirador. E claro que a próxima cena é a cena preferida do espectador atendo. A cena da cama. Não existe espectador de reallity show que perca esse episódio. No final da cena tinhas conquistado a tua terceira nomeação, e como à terceira é de vez, e nisso o grande público é soberano, acabavas de merecer a tua grande expulsão por finalmente o Rui ter percebido que tinhas mesmo chumbado no teste e me tinhas mesmo traído. Claro que até o grande público já tinha percebido isso desde o genérico inicial, mas como diria alguém: “ Isso agora, não interessa nada!” Parece que depois do acto propriamente dito disseste o meu nome e pediste o isqueiro ao Rui. Ele respondeu-te que eu estava em Lisboa. Tu não comentaste. O Rui confrontado com as três nomeações responde: “Eu queria mesmo ter a certeza até que ponto essa pessoa era capaz de chegar!” Ao que eu respondo: “Tu querias mesmo era mandar uma queca no último piso do Hotel Sheraton!” O meu melhor amigo, quando lhe telefono, diz-me que afinal estava com sono e não foi à festa. Telefona-me dois dias depois começando com o típico: “ Senta-te, que eu tenho uma coisa para te contar!” A ti, não te confronto com toda esta situação porque não faço o género de ir ao sábado à noite com um ramo de rosas encarnadas insultar-te à frente de dez milhões de portugueses. Mas realmente segundo o meu conceito de fidelidade, chumbaram os três. Porque se me tivessem consultado ou perguntado a minha opinião sobre esses vossos testezinhos de vodka à noite, tinha-vos respondido que quando me fazem testes, sobretudo de contas de somar, seja em que posição for, para mim um mais um, são sempre dois.


(os três já estão perdoados!)

27.4.07

BERDINHEU, BERDINHEU


Quem é que te disse que podias vestir esse vestido e ires-te embora? Perguntaste-me se eu concordava, por acaso? Vestiste o vestido, desceste as escadas e foste embora. Assim, sem mais nem menos. Vestiste, não. Chamaste-me para te ajudar a vesti-lo. Aperto os inúmeros botões pequeninos do corpete enquanto vejo as minhas lágrimas na cauda da saia. Cresceste. Cresceste e vais-te embora. Quando eu chegar à sexta à noite o pai já estará a dormir, e ficarei sozinho na cozinha a falar com a mãe, porque tu não foste sair à noite com as tuas amigas, tu já não vais voltar a rir-te e a contar as peripécias da noite, e ao sábado de manhã enquanto os pais foram trabalhar, a casa fica mergulhada num silêncio, e entro no teu quarto e em vez de te ver a dormir ou a ver televisão, embrulhada em ursos, vou-me sentar na tua cama estática e saber que todos aqueles bonecos que moram em cima do teu guarda-fato sentem a tua falta. Até pareces uma mulher, com esses saltos e essa maquilhagem. Mas não és, ouviste? Portanto, tira lá esse vestido, põe a t-shirt e os calções e vamos subir a ribanceira de triciclo com a palavra mágica que tu inventaste para ele subir mais depressa: “berdinheu, berdinheu”! Vejo-te a descer essas escadas e vens tão linda, mas não és tu. Essa não és tu. Tu não desces as escadas de vestido de noiva para te ires embora. Não. Tu, como dizias, metias uma t-shirt na mochila e ias fugir para viver numa casa bem velhinha à beira rio, porque me tinhas perdido a bota-botilde e eu estava triste. Triste estou agora porque não quero que te vás embora. Não podes fingir para mim que ainda és menina e que corres atrás de mim com a bengala do avô a dizeres que me queres bater? Vamos outra vez deixar a mãe furiosa com as nossas guerras. Vamos tirar as almofadas todas do sofá e armar uma tenda. Anda, vamos operar os bonecos todos com tintura de iodo para a mãe nos voltar a encontrar todos sujos envolvidos em ligaduras e pomadas. Vamos outra vez dar aquele pijama de bebé à vizinha da frente embrulhado com muito jeitinho num jornal. E se eu disser: “berdinheu, berdinheu”, vens? Anda, o triciclo, as bicicletas, o periquito e o tareco estão prontos. Porque é que estas a colocar a aliança no dedo dele, a dizer o nome dele e a dizer sim? As lágrimas caem-me, agora nas minhas calças. Porque é que vais fazer isso? É porque eu me fui embora? É porque eu fui estudar para fora, e já não estava lá? Foi por isso que tu decidiste também ir embora? Eu volto! Prometo que volto. Vamos voltar os dois, ligamos o vídeo no concerto da Tina Turner e ficamos a noite toda a cantar e a dançar, a ver qual dos dois consegue transpirar mais do que ela. Deixa-me ir pular para cima da tua cama enquanto tu gritas “oh mãe olha ele, oh mãe, oh mãe!” Tens a certeza que não vens? Estás a ver como o casamento não resultou? Eu bem te estava a dizer para ficares no quarto a brincar às escondidas comigo, em vez disso preferiste esconder-te noutra casa, assim é complicado eu encontrar-te. Anda lá dizer “berdinheu, berdinheu” comigo e vais ver que já nem te lembras nem do casamento, nem desse parvalhão que não sabe de certeza que tu tens uma teoria de evolução muito mais avançada. Disseste-me, “um dia vão-te dizer, sabias que o homem descende do rato? E tu vais dizer que sim, que sabias, que foi a tua irmã que te disse”. E disseste, e tens razão, o Darwin não percebia nada do assunto, o homem descende do rato e eu sempre descendi de ti. Sempre te admirei, sempre te invejei, e se calhar sempre soube que um dia te ia perder. Tens a certeza que te queres casar outra vez? Porque não vamos os dois procurar a bota-botilde e viver para uma casinha bem velhinha? Temos pão com nutela, não precisamos de mais nada. Eu não te obrigo a beber o leite todo com nesquick, se não quiseres não bebes. Já vi que não vens. Por isso olho-te agora com outro vestido, abraço-te e digo-te “gosto muito de ti, sei que agora vais ser muito feliz”. Não sei se me ouviste, mas espero bem que tenhas ouvido, senão vou ter de te ir buscar no triciclo a dizer “berdinheu, berdinheu” e depois nunca mais te deixo ir embora. Vá lá, tira lá esse vestido e vamos para o sótão brincar à Heidi depois do pai nos ter obrigado a arrumar o sótão todo. Vem dizer “oh mãe olha ele, oh mãe, oh mãe”. Olha, ou então eu vou indo para a casa bem velhinha e ponho lá uma janela redonda como a da Heidi e fico à tua espera. E quando te cansares de ser casada, diz-me que eu vou-te buscar no triciclo a dizer “berdinheu, berdinheu”. Porque afinal a mãe não sabe, mas eu ainda não tirei a carta com trinta anos porque este triciclo leva-nos para todo o lado, basta dizer “berdinheu, berdinheu” como tu me ensinaste.



à minha irmã

NAO VAIS COMER MAIS, POIS NAO SANDRO?



Sandro, importaste de acabar de comer rapidamente para pegares na tua filha? Mas que coisa, eu bem te disse que não queria vir. Também quem é que a manda casar num dia de tanto calor? Sandro despacha-te! A tua filha está a começar a enervar-me a paciência. Eu bem te disse ontem à tarde que não queria vir. O teu irmão é que me convenceu. Se a Cristina não tivesse ficado com a menina a tarde toda nem tinha comprado esta saia. Acabou por me emprestar estes brincos e este colar. Também não faz mais do que a obrigação dela. Ela é que se vai casar, não sou eu. Tinha mais é que me ficar com a menina. Além disso eu expliquei-lhe bem a quantidade de pó e de água que tinha de pôr para dar de biberão à tua filha. Quero lá saber que ela nunca tenha dado biberão a um bebé. Ela não diz que te filhos? Então é bom que comece a praticar. Olha, eu se soubesse o que sei hoje não a tinha tido. Bem arrependida estou. Sandro, ainda não comeste? Até parece que não comes em casa! Bem, em casa não comes, mas comes no restaurante. Sim, que eu não tenho paciência para cozinhar. Além disso estou desempregada e preciso de descansar. Para que é que esta miúda se põe assim a suspirar? Pareces tu quando estás com a telha ou enervado. Sai mesmo ao pai, a miúda. Até parece que tem algum motivo para se enervar, a miúda. Não tem de ficar o dia todo em casa a lavar a roupa com uma criança a chorar. Se ela se ouvisse chorar de certeza que parava com isso imediatamente. Só não percebo porque é que no colo dos outros ela não chora. Deve fazer mesmo de propósito para me enervar. A propósito, a tua roupa já está toda lavada. Está lavada. Mas nas máquina. Tens de a estender e depois arrumar. Sim, que eu já arrumei a minha e a da tua filha. E vê lá se não demoras tanto tempo a arrumar a roupa como demoras a comer. Que a tua filha está cheia de fome. Até nisso sai ao pai. Se tivesses sido tu a carregá-la durante nove meses na barriga já sabias o que era. Eu é que sei. Dá-me cá um cigarro, que já estou a ficar enervada. Que coisa, esta miúda está cada vez mais pesada. Olha Sandro, eu assim vou-me embora. Ficas aqui com a tua filha e eu vou para casa ou vou dar uma volta. Que estou eu aqui a fazer neste casamento onde não conheço ninguém e as únicas pessoas que conheço são os teus irmãos aqui sentados na nossa mesa e sinceramente já não suporto olhar para a cara deles. Eu devia era ter chamado a polícia naquele dia que me estavas mesmo a enervar. Quero lá saber se não estávamos na nossa casa, tu estavas-me a enervar. O teu irmão não tinha nada que se ter metido e ter dito que a casa dele eu não chamava a policia, e que a menina estava sozinha na cama de casal e que se podia mexer e cair. Olha mais valia ter caído. Não vais comer mais, pois não Sandro? Porque é que disseste ao homem para te servir outra vez Sandro? E o que é que aquela rapariga está a olhar para mim? Também deve querer vir fazer festinhas à miúda. Devem pensar que isto é algum macaco no circo. E olha que às vezes bem parece. Nasceu tão peluda e tão bochechuda. Também com aquilo que me obrigou a comer a gravidez toda, não admira que tenha estas bochechas gordas. Olha, gorda estou eu e a culpa é da tua filha. Já viste estes pneus? Quando é que eu me vou livrar disto, Sandro? Sandro, estás-me a ouvir? Tu não vais comer mais, pois não? Olha agora é que me vou mesmo embora, ficas aí com a tua filha que eu vou pegar no carro e vou para casa. E tu se quiseres apanha um táxi ou pede a um dos teus irmãos para te levar. Também quem é que mandou o teu irmão vir casar tão longe? Quando eu me casar há-de ser bem pertinho de casa para quando eu quiser me ir embora, e tu ficas lá a comer com os teus convidados. Quando é que paras de comer e me pedes em casamento Sandro? Já acabaste de comer? Pega na tua filha Sandro. Sandro, onde é que vais Sandro? Se vais à casa de banho, acho bem que não te demores. Sandro? Nem penses em ir fumar lá para fora ou ires dançar, estás-me a ouvir Sandro? Sandro? Ainda não está na hora de irem sujar o carro todo ao teu irmão com espume de barbear e pó de talco. Sandro? Sandro, nem penses que te vais embora sem mim! Sandro, onde é que vais? Sandro? Sandro?

EU ADORO A AMÁLIA!

Olá! Boa tarde! Posso tirar um rebuçadinho? Sabe, é para os meus sobrinhos. Eles gostam muito de rebuçados! Eu é mais chocolates! Ai eu adoro chocolates! Ando a dar uma volta, sabe! Vou ver “o macaco”! Ai eu gosto muito do macaco, aquele filme, sabe, o King Kong amigo. Gosto muito do King Kong. É às seis e dez. Mas a menina disse-me que ainda podia comer o meu gelado às seis horas. Não vou agora, tenho muito medo! Não! São quatro da tarde! Tenho muito medo! Almocei à bocado com a minha amiga, ela pagou-me uma sopa, ali, no “Caldo Verde”, sabe. Ela é muito minha amiga. É mesmo uma boa amiga. Deu-me umas camisolas que ela lá tinha e vai dar-me uma capa para o edredão da cama. Sim, que eu agora já tenho uma cama. Eu antes dormia no chão que era para os meninos dormirem na caminha. Mas juntei um dinheirinho da minha reforma que recebo todos os meses, sabe amigo, e comprei a minha caminha. Porque Deus ajuda amigo. Eu acredito muito. Tenho muita fé! Até tenho aqui uma Santinha, quer ver amigo? Tenho aqui na carteira, este retrato da Nossa Senhora. Eu acredito muito na Santinha! Tenho aqui ao pé da fotografia do meu pai. Já morreu coitadinho. Eu chorei muito, sabe amigo! Chorei muito, até tiveram de dar-me uma água das pedras para eu me acalmar. Que eu fico muito nervosa. Eu sofro dos nervos, sabe amigo. Fico muito nervosa. Custou-me muito, o meu paizinho. Até me vêm as lágrimas aos olhos. Ele gostava muito de mim. Ele dizia “Lurdes, agora já podes ir brincar”, coitadinho. Eu chamo-me Lurdes, sabe. Coitadinho. Mas tenho aqui a fotografia dele comigo, e anda sempre comigo. Aqui ao lado da fotografia da Amália! Eu gosto muito da Amália! Também tenho lá na minha sala, o retrato da Amália, lá na parede! É! É verdade amigo! Ai, é uma coisa, uma coisa sem explicação! Tenho o Nosso Senhor pendurado na cruz, e ao lado tenho o retrato da Amália! E tenho o xaile da Amália, e um guitarrinha, assim pequenina, é verdade amigo! E tenho uma boneca que é a Amália! É igual à Amália, assim com o vestido preto! E tenho assim com uma folha de cartão que eu fiz, assim enrolada, e pus-lhe um tecido preto, igual à Amália! É verdade amigo, é uma coisa, uma coisa sem explicação. Mas não deixo que os meus sobrinhos mexam, não isso não. É o museu da Amália. Ainda me falta o leque da Amália, sabe amigo, a ver se um destes dias encontro na feira de Carcavelos. Ou então faço eu, assim com um papelinho pequenino. Eu acredito muito na Amália. E rezo muito à Amália, peço-lhe muito. No outro dia, sabe amigo, estava a rezar no túmulo da Amália e estava a chorar, e estava uma moça. Até meti conversa com ela. É verdade amigo. E ela pedi-me o meu número de telemóvel. E ficámos amigas. É verdade. É uma coisa, uma coisa sem explicação. Como no outro dia eu achei uma nota de dez eurios, estava assim dobradinha na calçada, e eu apanhei-a, é verdade amigo, é uma coisa, uma coisa sem explicação. Era para ir almoçar à minha amiga, já não fui. Fui ao café e comi. Porque Deus ajuda. Eu acredito, e tenho muita fé. Até pus uma moedinha igual a esta nos pés da Santinha. Acredito muito na Santinha e na Amália. Até trago aqui na minha mala uma moeda igual, aqui ao pé destes livrinhos do tio patinhas. Eu gosto muito de ler o tio patinhas assim quando vou no autocarro, ou quando estou à espera do 58. Eu sou muito infantil, sabe amigo, tenho 45 anos, mas sou muito infantil. Vou dar mais uma volta, que é para às seis ir comer o meu gelado, que a menina disse que dava tempo, e às seis e dez vou ver “o macaco”. E depois levo os rebuçados aos meus sobrinhos. Obrigado amigo. Boa tarde. Muita saúde, e muitas vendas. Adeus.

(à Sra. Dª. Maria de Lurdes, um beijinho)

UM ASSALTO QUASE PERFEITO




Já tinha atravessado Sá da Bandeira, a rua perfeita para assaltos, e preparava-me para virar para Gonçalo Cristóvão às onze e meia da noite quando vejo um carapuço preto que rasteja à minha frente. Rapidamente o meu instinto de sobrevivência dita-me duas soluções. Entrar na sex-shop do lado esquerdo que creio que fechava à meia-noite, não sei como é que eu sabia o horário daquele estabelecimento, ou ultrapassar o capuz preto que era mais alto que eu, e num passo acelerado percorrer Gonçalo Cristóvão e entrar no 224. Armo-me em herói e escolho a segunda opção. Claro que no dobrar da esquina o capuz preto vomita um: dá-me tudo o que tens acompanhado pela amiga seringuita. Mas será que estes projectos de assaltantes não conseguem ser mais originais? Ou formam-se todos no mesmo Curso Intensivo da Escola Para Assaltantes Portuenses, onde se verifica uma escassez de frases e só lhes resta usar todos a mesma? Aproveito e pergunto-me se a seringa não será também a mesma, passada uns aos outros género estafeta em corridas de Jogos Olímpicos. Estava eu de mochila às costas e mãos nos bolsos, quando, e para não perder muito tempo com aquilo, retiro a carteira do bolso de trás dos jeans, e enquanto lhe exibo uma pequena moeda de cinco cêntimos, lhe digo: tenho apenas cinco cêntimos, queres cinco cêntimos? Ora aquilo não lhe estava a correr bem e o carapuço preto começa a desconfiar da perfeição daquela tentativa de assalto quando eu repito: tenho uma moeda de cinco cêntimos, queres cinco cêntimos? Estás a gozar? Eu dou-te um murro! Mas para quê, o que é que isso te vai adiantar se os cinco cêntimos não se transformam em cinco contos se me bateres? Eu parto-te a cara toda! Não percebo para quê! E uma mota com dois capacetes pára e pergunta em eco: oh chefe há problema? Ao que eu respondo: há, ele está a tentar assaltar-me, mas eu só tenho cinco cêntimos e ele não quer! Olho fixamente o carapuço preto exibindo firme e hirto como uma barra de fero a moeda preta e questiono novamente: tenho cinco cêntimos, queres cinco cêntimos? Ele não quer! Um dos capacetes salta da mota, abraça-me enquanto viramos costas e caminhamos em sentido contrário e me tenta confraternizar: deixa lá o gajo! Mas eu queria dar-lhe cinco cêntimos, ele disse-me para eu lhe dar tudo o que eu tinha e agora não quer! Preparo-me para subir por Sá da Bandeira e fazer um desvio, quando percebo que estava demasiado perto de casa, e não me apetecia nada reencontrar um destes dias o capuz preto à porta do 224. Decido descer em direcção à Trindade, para fazer um desvio maior, mas que certamente o iria despistar e para eu poder chegar a casa e tirar a mochila pesada das cotas. Estava quase a fundo de Fernandes Tomás, a primeira rua que conheci no Porto, quando me sinto seguido, e avisto o capuz preto em minha direcção. Tentando remediar a situação numa espécie de oh-tempo-volta-pra-trás ou porque-é-que-eu-não-entrei-na-sex-shop, entro numa Boíte. O porteiro olha para mim. Eu conto-lhe o episódio do assalto quase perfeito do capuz preto não fora eu ter apenas cinco cêntimos e o porteiro diz-me: deixe-se estar aqui um bocadinho, que eu já ouvi falar dele e ceio que costuma andar por aí. Sai um bigodinho aparado, blaser vermelho, exibindo uma cruz dourada que realçava os pelos do peito que a camisa aos quadrados verdes deixava ver, a quem o porteiro diz: não se importa de deixar este senhor ali em Gonçalo Cristóvão e que me deixa à porta do 224 num carro todo XPTO. Entro em casa. Sento-me no sofá. Abro a mochila de onde retiro o meu novo discman, três Cds já não sei de quem e o telemóvel. Guardo a carteira e apercebo-me que tinha escondido de mim mesmo ao fundo da carteira, para me proteger de não gastar e poder comprar não sei o quê, cinquenta contos. Atirei-me para o sofá a rir do capuz preto que não teve a inteligência e perspicácia para me pedir para abrir a mochila, nem muito menos para me revistar a carteira e me surpreender, ao descobrir o segredo que eu guardava e escondia de mim mesmo. E pobre e mal agradecido nem sequer aceitou a moeda de cinco cêntimos?

26.4.07

OS ELEVADORES




Porque é que as pessoas nunca se olham nos elevadores? Estejam duas ou mais pessoas, nunca se olham. Não há nada para fazer dentro de um elevador. Os olhares cruzam-se várias vezes e podiam muito bem falar qualquer coisa, enquanto matam aqueles minutos que descem ou sobem. Mas não. Preferem olhar atentamente o visor que vai testemunhando os números dos andares, com muita atenção como se desse olhar dependesse a avaliação para o elevador se movimentar. O telemóvel costuma ser uma grande solução para estes casos. Retira-se o telemóvel e vai-se escrevendo sms para toda a lista, o que ocupa vários minutos. Escrevendo ou fingindo que se escreve o que para o caso dá igual desde que se vá passando o tempo e enchendo uns chouriços. Mas só mesmo escrever, porque fazer telefonemas ou atende-los, está completamente fora de questão. Primeiro, com uma pessoa tão perto, a nossa voz baixa logo de tom e o receptor não percebe o motivo daquela voz de mistério. E segundo, porque não queremos dar a conhecer a nossa vida íntima a um vizinho, que não precisa de saber se onde vamos comprar boxers ou se nos esquecemos de trazer manteiga. Uma óptima invenção é também o leitor de mp3. Coloca-se os headphones nos ouvidos e liga-se a mp3 nas músicas preferidas. Nesse momento é como se não estivéssemos ali. De repente o facto de estarmos com música nos ouvidos, parece alienar-nos daquele espaço, conferindo-nos o estatuto de presentes-ausentes. Ficamos assim protegidos de sermos incomodados com comentários género: ‘tá de chuva! Depois há aqueles elevadores tipo gaveta de meias, onde toda a gente quer entrar e no qual cabe sempre mais um. É facto que nunca percebi. Porque é que, se o elevador já parece uma lata de sardinhas, não esperam pelo próximo e insistem em se infiltrarem? Ninguém consegue respirar e todos desejam arduamente que se abram as portas num piso onde muitos passageiros façam a sua saída. Respirar, torna-se impossível, quando um passageiro entra a fumar, ignorando completamente se está a incomodar ou não os outros, sabendo que está num espaço mesmo muito reduzido, e proibido para tal acção, por lei. Ainda há aqueles que ficam muito ofendidos quando lhes pedimos para apagarem o cigarrinho. Como se o facto de ser apenas um piso ou dois atenuasse eu estar a engolir aquele fumo todo. Mas do melhor é uma criança eléctrica, dentro do elevador, a falar alto, com mil porquês, que os pais se esforçam por ignorar. Bom, é quando a criança irrequieta, depois de nos ter já pisado três vezes e dado encontrões aos nossos sacos, que nos faz suspirar e sorrir educadamente, antes de sair, carrega em todos os botões do elevador. Não só ficamos com vontade de a esganar, como temos agora muito mais tempo para o reflectir, já que temos de parar em todas as estações e apeadeiros. Há quem apanhe o elevador apenas por um andar. Há quem coma dentro do elevador. Quem aproveite para retocar a maquilhagem, facto que nunca percebi como. Há os que têm a fantasia de o parar, para fantasias sexuais, até um dia destes serem surpreendidos pelos bombeiros. E há aqueles que morrem de medo de elevadores e se recusam a entrar. Não por claustrofobia ou coisa parecida. Mas porque temem ficarem suspensos a meio de um andar ou pior, uma queda mortal como nos filmes. E como simplesmente não confiam nos elevadores, sobem e descem oito ou mais andares de escadas todos os dias, de manha e à noite, incluindo a hora de almoço ou jantar, dependendo do horário de trabalho. Eu não tenho nada contra este meio de transporte, apenas os prefiro grandes, e de preferência com espelho. Não para me estar a apreciar, mas para acreditar na ilusão que o espelho os torna maiores e não me vai faltar o ar. Claro que é uma crença puramente psicológica, porque o ar não aumenta, nem diminui pela presença de um espelho. Mas deixem-me continuar a acreditar que sim, porque moro num sexto andar e já faço suficientes horas de passadeira por dia.

CERVEJA COM TREMOÇOS


O que faz uma simples mortal no meio de tanta televisão, passerelle e socialite? Tu ficas espantado quando nos vês e eu, atrapalhada e inibida com tanta figura pública. Tudo com um ar muito importante e sempre com um sorriso estudadamente desenhado e preparado para qualquer flash desprevenido. Vou com a Susana beber qualquer coisa a ver se me passam os nervos e como disseste que era bar aberto assim sempre recuperamos o dinheiro do táxi. Pedimos duas vodkas limão. Viramos costas e vamos observar da varanda o panorama. Ouço alguém a chamar, mas de certeza que não é comigo. Aqui ninguém me conhece. Uma manequim toca-me nas costas e faz-me sinal que o barman nos está a chamar. Tenho vontade de lhe cuspir naquele sorriso irónico, mas delicadamente engulo e agradeço. Vamos até ao bar para averiguar os acontecimentos.
- Esqueceram-se de pagar as vodkas. São 15€ cada uma.
- Mas não era bar aberto?
- Só para a cerveja!
Que vergonha! Estas coisas realmente só me acontecem a mim. Pagamos os 30€ e desaparecemos dali em micro-segundos. Agora percebo porque cheira tanto a cerveja! Realmente, nenhuma das figurinhas sorridentes está de flute na mão. Que não há Moe Chandom e que nas festas se bebe espumante nacional disfarçado de chique, já eu andava cá desconfiada, mas estão a beber cerveja! Agora percebo porquê. A festa é patrocinada por uma marca de cerveja nacional, que é oferecida aos convidados. E é ver os VIPS de copo de plástico na mão e a comer tremoços, sempre prontos para a fotografia só para não pagarem 15€. Ora lá se foi o dinheiro do táxi e a dobrar! Afinal as figurinhas sorridentes são tão pobres como nós. Sorriem é mais porque vivem de vestidos emprestados e borlas nos cabeleireiros, como tu já me explicaste. A meio da festa vens ter comigo. Dizes-me que acabaste agora mesmo de falar de mim a um cantor qualquer que ali estava. Eu bem te vi a apontares para mim.
- Vês? Já tens? Eu tenho!
Sinto-me completamente a tua boneca de estimação nocturna. Uma conquista barata da noite, a tua última brincadeira ou aquisição. Estou mesmo quase a chamar-te palhaço, quando uma loira qualquer apresentadora de televisão ou modelo, não sei muito bem o que faz, além de sorrir e mostrar as pernas e os namorados nas revistas e de adivinhar o tamanho do sexo dos homens pela análise dos dedos das mãos, chega para te dar dois beijinhos.
- Tiram uma fotografia connosco?E lá tiramos a fotografia. Eu a fingir que sorrio e a Susana a rir-se daquilo tudo. A cientista despede-se num sorriso cínico e enjoado de gozo, olhando para mim. Chega! Acabei mesmo agora de decidir que chega. Digo à Susana que me quero ir embora o mais rapidamente possível, senão ainda arranco as extensões à loira enjoada que está a gozar comigo como se eu fosse alguma criança órfã, perdida no meio dum palacete. Estou completamente arrependida de ter vindo. Isto não faz sentido absolutamente nenhum. Preciso de ir para minha casa e já! A Susana insiste que é boa educação e que lhe fica muito bem despedir-se da vedeta do meu namorado, ou talvez ex. Lá vamos nós, só para ela se despedir, já que eu não faço a menor intenção de o fazer. Não tenho porquê despedir-me de alguém que me considera um troféu semanal, daqueles que saiem naquelas máquinas em que se colocam moedas, género animais amestrados de peluche. Quando o encontramos, ele ri-se junto duma figura metade homem, metade mulher, casada com uma idosa de maquilhagem escura e cabelo armado em sotaque inglês. O pesadelo converteu-se em realidade. Não grito porque me contenho. Mas que apanho um susto, apanho. Eu que não faço a menor intenção de ser apresentada a semelhante ave rara, dou meia volta em peão e dirijo-me exactamente para o lado oposto da discoteca, assim que o vejo fazer o típico gesto com a mão, de modelo que declama: and the winner is...! Apanhamos táxis para casa. Eu estou na minha, a chorar, quando a meio das lágrimas, ela me telefona a dizer que se esqueceu das chaves dentro de casa e não quer acordar os senhorios. Realmente a noite está a ser perfeita para as duas. Acabamos a noite a beber chá de pétalas de rosa e canela, mas de telemóvel completamente desligado. Depois disseste-me que tinhas estado à minha porta de táxi, mas como eu tinha o telefone desligado não te atreveste a tocar à campainha. E ainda bem, porque eu estava tão furiosa que era bem capaz de dar um salto mortal em karaté, género um dos anjos de Charlie quando atacado, a ver se arranjas outra mascote para exibires nas tuas festinhas.

22.4.07

SÃO VALENTM ALENTEJANO




No primeiro dia de São Valentim do nosso namoro fizeste-me um convite todo romântico. Convidaste-me para ir passar um fim-de-semana contigo num Hotel estupendo em Beja. Fiquei tão emocionada. Eu ia rever o meu Alentejo. Já não vou lá há tanto tempo. Até parece um sonho. Começamos a namorar e vamos passar o Dia de São Valentim, juntos ao Alentejo. É bom demais para ser verdade. Parece perfeito. Tudo aquilo que eu sonhei começa a realizar-se. Até pode ser que a caminho possamos visitar os meus pais. Mas a pouco e pouco e ao aproximar do dia 14, a minha emoção e entusiasmo começam a esmorecer. Ao que parece o teu fim-de-semana é a trabalho e eu entro por acréscimo. Afinal, ficaste encarregue de convidar vários casais para irem passar dois dias de borla com tudo pago a troco de algumas fotografias para uma revista cor-de-rosa qualquer. Eu respeito, afinal é o teu trabalho. Mas confesso que senti um pouco de desilusão subir-me pelo peito acima, como uma cobra venenosa vai trepando pelas artérias dos pulmões e não nos deixa respirar. Dói no peito. Nunca gostei que me convidassem para algo que já estava planeado inicialmente sem mim. Não gosto que me convidem por piedade e se alguém costuma ter pena de mim, sou eu e já me chego o suficiente. Eu adoro misturar condimentos mas não gosto de me sentir um pedaço de couve-flor que caiu no meio de chocolate branco. Se ainda forem raspas de chocolate preto no meio de uma tarde de chocolate de leite, tudo bem. Tentas convencer-me que não tem mal nenhum e que serei bem-vinda. Claro que me explicas que terás pouco tempo para estares comigo, pois estarás a trabalhar e a organizar o fim-de-semana, mas que à noite dormimos juntos. E que se eu quiser posso ficar no quarto a descansar e ninguém percebe que eu lá estou. Mas eu não quero ser um membro da resistência, escondida e exilada, resguardando-me dum crime que não cometi. Ouve com muita atenção, eu só vou dizer isto uma vez: não tenho porque me esconder dois dias num quarto de Hotel, não fiz mal a ninguém, nem cometi nenhum pecado mortal. A ideia de estarmos juntos, num dia tão especial, principalmente sendo recém namorados, era para o saborearmos juntos, sozinhos, na companhia e no sorriso um do outro, desfrutando da magia e calma do meu Alentejo. Apesar de insistires para eu me misturar no meio dos famosos, percebo que uma comum mortal alentejana não se iria sentir bem a comemorar um dia especial com não sei quantos Vips estranhos, que não conheço de lado nenhum. Afinal era mesmo demasiado bom para ser verdade, e ainda que imperfeito, percebo que afinal é bem mais romântico ficar sozinha em casa, deitada no sofá a ver o Pretty Woman e a afogar-me numa chávena de chocolate bem quente.

14.4.07

O QUASE-ASSALTO OU A SAGA CONTINUA





Primeira parte:
Seriam umas dez da noite. Subia de sandálias a Rua Sá da Bandeira, a caminho de casa. Mesmo ao virar da esquina de Sá da Bandeira com Gonçalo Cristóvão, o típico: “tens uma moeda?” aproxima-se de mim. Junto aos meus calções, uma seringa nervosa olha-me. Eu olho-a. Olho a seringa. Olho as cicatrizes, crateras, e manchas desfeitas numa cara em que desfiguravam aqueles não-mais-que-vinte-anos. Olho novamente a seringa. Olho novamente as manchas desfiguradas. E de repente, sem pré-aviso, as sandálias iniciam uma corrida desenfreada que só termina no sofá de casa, deixando o monstrinho boquiaberto e sozinho em plena Sá da Bandeira.

Segunda parte:

Eram umas onze da noite. O ensaio havia terminado mais cedo, exactamente uma hora antes de terminar aquele dia de São Valentim. Decidi aproveitar esses restantes sessenta minutos finais, para os passar em Espinho junto da pessoa que um ano depois me iria iludir que não mantinha uma relação paralela durante o ultimo mês de namoro. Eu que era raro fumar, dado que nem sequer tinha tabaco comigo, peço um cigarro a uma colega que queria que eu cuspisse fogo num espectáculo, e desço as escadas. E lá vem ele o típico: “tens um cigarro?”, não, não tenho, cravei este lá em cima, mas se quiseres fica com ele e fuma-o, ‘tás a vontade. Não aceitou, e eu ainda pensei em lhe oferecer o BigMac que trazia embrulhado na mala, antes que se fizesse o típico “tens uma moeda”, mas reconheço as cicatrizes, crateras, e manchas desfeitas numa cara em que desfiguravam aqueles não-mais-que-vinte-anos. Viro costas e atravesso a rua em direcção à Estação de São Bento. Estou mesmo ao fundo de Sá da Bandeira quando, do outro lado da estrada sinto uma forte energia ou presença que me faz parar. Olho para trás, e ali está o monstrinho, do outro lado da estrada a olhar-me fixamente, a guardar a presa. Pisco os olhos e ele já está ao meu lado. A saga continua sem qualquer originalidade e a repetitiva e nervosa seringa espreita-me as pernas acompanhada do: dá-me tudo o que tens. Comentário gasto, e que considero pouco original, copiado ao pior filme de sábado à noite passado no Texas, mas que mais posso eu pedir a uma seringa que treme mais que uma picadora de hamburguers, que me faz esgaçar uma quase-gargalhada mas que se traduz num: eu não tenho nada, além de cento e setenta e dois escudos par o comboio para Espinho. Abro a carteira, tento comprovar-lhe a minha honestidade mostrando as esquecidas moedas ao fundo da carteira, interrompido por um: as notas, eu quero é ver notas. A quase-gargalhada começava a atrever-se numa expansão aventureira, acompanhada dum: eu não tenho notas, enquanto as minhas mãos se divertiam a atirar recibos do pingo doce que distraidamente ocupavam e substituíam o lugar das tais das eu-quero-é-ver-notas. O polegar e o indicador elevam os cento e setenta e dois escudos, acompanhados dum: tenho cento e setenta e dois escudos, é tudo o que tenho, queres? As manchas começam a alargar e a mudar de cor, e mesmo antes de se desfazerem em pó ou num líquido viscoso: eu vi aí o cartão Multibanco, vamos levantar dinheiro. Parece que o monstrinho estava mesmo determinado, e procurava soluções para me conseguir quase assaltar. A saga continua e o monstrinho ataca novamente. Mil escudos, só mil escudos, ok? Era dia catorze, estávamos exactamente a meio do mês de Fevereiro, e eu sabia que os restantes oito contos na conta da Caixa Geral de Depósitos, já mal me restavam até ao final do mês, ora claro que não me dava jeito nenhum aquele quase-assalto. Mil escudos, só mil escudos, mas digita dez contos no teclado e a imagem de o 1 com tanto zero como acompanhamento género batata frita com salada e ovo a cavalo, rasgaram por completo a sofrida e apertada gargalhada acompanhada dum: “Eu não tenho dez contos na conta!” que explode mesmo em cima das crateras que se preparam elas próprias para explodir em lava a ferver mesmo antes do: Mil escudos, só mil escudos, e lá me levanta da triste e solitária conta da Caixa Geral de Depósitos cinco contos. A máquina Multibanco cospe-me o cartão. Viro costas ao monstrinho e caminho finalmente em direcção à estação de São Bento. Anda cá, o que é que queres não tens já o dinheiro, se contas isto a alguém ‘tás feito, não me chateis já terminaste finalmente o teu quase-assalto, feliz noite de São Valentim. E lá fui adiar mais um bocadinho aquilo que seria um ano depois um grande pesadelo, deixando sozinho ao fundo de Sá da Bandeira o monstrinho das cicatrizes, crateras, e manchas desfeitas numa cara em que desfiguravam aqueles não-mais-que-vinte-anos depois da sua conturbado e sofrida imitação de um guião de escalão B, para realizar um quase-assalto, mas de facto muito esforçado. Reconheço-lhe o esforço, e como que um pedido de desculpas por tanta gargalhada mesmo naquela espécie de cara em desconstrução pensei: oh rapaz, fica lá com os cinco mil escudos a ver se comes alguma coisa em condições e arranjas uma cara que se pareça com gente, isto se não fores já a correr injectar aquilo que tanto precisas no braço e explodes duma vez essas crateras todas.

O ACROBATA DOS CIGARROS





Todos os dias ao final da tarde íamos tomar café ao Imperial. Que agora já não existe e transformaram em mais um MacDonalds. São os espelhos antigos, os lustres e é o empregado a gritar “Sai mais um simbalino”, que para quem não sabe é um café com cheiro e sabor a Porto. Ali não se bebiam cafés. Bebiam-se “simbálinos”! Tu também costumavas lá ir, embora eu não soubesse quem tu eras. As gargalhadas do nosso grupo evidenciavam-nos e claro que o facto de estarmos todos vestidos de pretos com uns penteados que poderiam muito bem terem sido feito por aranhas, e umas pastas enormes especificas para folhas A3 ou A2 denunciavam que durante o dia estávamos numa Escola de Moda. Não sei porquê o Bruno, que gostava que o chamassem de Piérre, vá-se lá saber porquê, um dia disse-me que tu olhavas para mim. Achei disparatado mas quando dei conta, na tarde seguinte entre um simbalino e um pastel de nata, já estas sentado na nossa mesa. Já todos trocavam bilhetinhos por debaixo da mesa apostando quanto tempo demoraríamos a começar a sair juntos. E eu que nem te levava nada a sério, ria-me. Nessa tarde, ou melhor dizendo, noite, porque entretanto já eram 20h30 o Bruno, desculpa, o Piérre, disse-me: “Amanha quando for a tua casa acordar-te para irmos para o curso, até aposto quem lá esta! Beijinhos, até amanhã!” Eu disse-lhe que ele era muito disparatado, porque nem sequer fazia parte dos meus planos fazer serão, até porque tínhamos um trabalho mesmo muito importante para entregar no dia seguinte. E confesso que o meu ainda estava no estado de fecundação. De maneira que tudo aquilo me parecia muito disparatado. Ofereceste-me boleia até casa. Desconfiei. Resisti. E quando dei conta estavas sentado no meu sofá a ajudar-me a escolher as cores e a decidir a gola que melhor se adequava aquela camisa. Não preciso dizer que passamos a noite entre aguarelas, carícias, pincéis e muitos beijos, e de facto quando o B…, Piérre chegou deu uma gargalhada que nos serviu de despertador e anunciou a hora da primeira aula. Uma semana depois levaste-me a jantar a um restaurante chinês giríssimo de dois andares. Lembro-me que quis ficar na parte de cima porque parecia uma espécie de varanda e achei aquilo muito romântico. Passados uns dias estávamos em minha casa e disseste-me “Tenho pensado muito em ti.” Eu não quis ouvir, e devo ter respondido qualquer coisa como “Não digas isso, não sejas disparatado!” Eu no fundo não te achava disparatado mas não queria mesmo era entregar-me e fazia um esforço enorme para que não acontecesse. Ali estávamos nós no Imperial a rir, quando tu apareceste e me disseste que domingo passavas à tarde por minha casa e me irias levar a dar um passeio muito especial. E ali fiquei eu a tomar simbálinos e a rir-me com Piérre, à espera de Domingo. Não sei bem porquê antes de Domingo foste a minha casa com a Mónica, que era uma colega do curso de manequim do Piérre, não sei fazer bem o quê, alguma coisa disparatada certamente. E enquanto a Mónica e o Piérre davam gargalhadas estrondosas na cozinha apanhei-te a sós no quarto e disse-te “Tenho pensado muito em ti, sabes?” Tu afastastes-te e disseste “Não digas isso.” Não percebi, quem tinha receio de me entregar no inicio era eu, mas se tu já pensavas em mim então eu podia-me permitir pensar em ti e baixar um bocadinho as defesas. Esperei a tarde toda de Domingo por ti. Não apareceste. Afinal a especialidade desse passeio parecia se o facto de não existir. Fui ter com a Sara, conversámos. Tentei que ela me ajudasse a descortinar aquele mistério que eu sinceramente não entendia, já que nem sequer o teu telefone tinha. E o Bruno dizia que não mo dava sem a tua autorização. Bruno, porque quando estava zangado com ele, chamava-lhe Bruno. Passou uma semana e não sabia nada de ti. O único sitio onde costumava ver-te era no Imperial. De maneira que, em vez de ir saborear gargalhadas e simbálinos, comecei a ir todas as tardes, mas para ver se te via. Um dia a Mónica disse-me que tinha descoberto que a tua relação estava quase acabada. “Ah, ele é comprometido?” Foi quando percebi que aquilo ainda era mais disparatado do que eu pensava, e não imaginava eu o desfecho disto tudo. Uma semana depois vejo-te a entrar no Imperial. Trazias uns jeans coçados e uma camisola branca de malha tricotada, daquelas da Serra da Estrela. Aproximaste-te da nossa mesa. Eu disse: “Senta-te.” Ao que tu respondeste: “Vou só ali à Sá da Bandeira comprar tabaco, venho já!” E nunca mais voltaste. Acabei o curso. Nunca mais vi nem o Piérre, nem sequer o Bruno, nem a Mónica nem a Sara. Já não bebo simbálinos no Imperial, até porque o Imperial já nem existe. No outro dia passei por lá, comprei um Sunday de chocolate e lembrei-me de ti. Será que ficaste pendurado nalgum dos prédios de Sá da Bandeira a enrolar cigarros?

13.4.07

BISCOITOS ENTALADOS DA LENINHA




Fui! Já não sou. Isso já foi há muito tempo! Não me lembro do Whispers, nem do Ad Lib. Esses tempos já passaram. As camisinhas aos quadrados e os sapatinhos de vela com berloques ficaram numa prateleira que já não é a minha. Eu sempre fui muito rebelde. Nunca dava só um beijo, dava dois. Só mesmo pra implicar. Ficavam todas passadas quando lhe procurava a cara com a boca uma segunda vez, não tás bem a ver. Os meus amigos bem insistiam e as mães, principalmente, para eu as tratar “tia”, mas tia é a tia Maria Teresa a quem toda a gente chama de Titi. Essa cena não tem nada a ver comigo. Não ouvia Júlio Iglesias, tocava guitarra e fui o primeiro a começar a fumar às escondidas no quarto, enquanto a minha mãe batia à porta.

Diogo, o menino deve tar a queimar alguma coisa. Tá um cheiro insuportável. Ouça, despachasse lá com isso, ‘tão cá os tios da herdade e a Leninha trouxe os biscoitos que o menino gosta.

Tava farto dos tios da herdade, que na verdade nem da família são, de ser mais um betinho queque da Lapa e de estudar em colégios particulares. Um dia passei-me da mona, levantei o dinheiro todo que o meu pai me punha na conta. Enfiei umas t-shirts pretas que tinha escondidas, debaixo da cama e uns biscoitos da Leninha, num saco e bazei. Dormi duas noites numa pensão na Praça da Figueira. Ou melhor, dormi uns dias porque à noite ia p’ro Bairro Alto beber cervejas e dormia o dia todo. Um dia, fiz directa, paguei a pensão, peguei nas minhas cenas e comprei uma mota. Corri o país todo. Ficava em pensões, dormia na praia, no rio, conheci gente bem bacana. O dinheiro foi-se acabando. Já só comia hamburguers, salsichas ou atum enlatado, com pão. Comecei a poupar o dinheiro pra comer, em vez de o gastar em pensões. Passei a dormir por todo o lado. Dormi no chão enrolado em folhas de jornal ou em caixas de papelão, dormi em jardins, em escadas de prédios, passei frio, passei muito frio. Catei restos de comida no lixo. Passei um mau bocado. Até que fui parar a um prédio abandonado, onde uns tipos ficavam e deixaram-me lá abancar também. Vivi ali uns tempos. Era a minha casa. Comprava umas cervejas ou uns pacotes de vinho de mesa, acendia uma vela e tocava na minha guitarra. Às vezes fazíamos uma fogueira, por causa do frio e eles ficavam a ouvir-me tocar. Um dia acordei, estavam dois ou três à pancada por causa de uma lata de atum. Fui dar uma volta. Quando voltei um deles estava morto. Deitado no chão de olhos abertos e cheio de sangue. Os cabrões tinham-lhe posto a lata de atum vazia na mão p’ra gozar com o gajo. Nunca mais me vou esquecer daqueles olhos mortos a olharem p’ra mim. Foi quando me bateu uma luzinha na cabeça e percebi que não era aquilo que eu queria p’rà minha vida. E que se não fizesse alguma coisa, um dia destes quem estava morto a segurar numa lata de atum vazia, era eu. Depois fui uns tempos até à Holanda. Lá ouve-se boa música. Comecei a servir às mesas num bar e as vezes os tipos deixavam-me lá dormir atrás. Depois, comecei a falar com uns clientes que eram músicos. Um dia disse-lhes que tocava guitarra. Uma noite, combinamos umas cervejas, lá é que se bebe boa cerveja, e toquei-lhes umas musicas que tinha escrito enquanto dormia na rua. Convidaram-me para trabalhar com eles e já viajamos meio mundo em concertos. Até hoje ninguém sabe que sou português. Mas hoje liguei à minha mãe a dizer que tou cá. Vamos dar um concerto no Pavilhão Atlântico e vou assumir que nasci aqui. Ela atendeu, no seu tom distante com que me criou.

Ouça, não conheço nenhum Diogo.

Mas eu conheço. Conheço um puto que ela criou pra ser um betinho queque e que apesar de se ter convertido num dos melhores guitarristas internacionais, ainda não tem mãe. Tem uma tia. No lugar da mãe, puseram-lhe uma tia com voz de bagaço e cabelo armado. Vou continuar a tocar por este mundo fora, pode ser que encontre uma mãe. Pode não servir biscoitos da Leninha em pratos porcelana. Pode até servir atum entalado com pão. Mas será minha mãe.

12.4.07

DEMASIADO TEMPO




Não sei o que hei-de fazer para que voltes para casa, Luís António. Hoje limpei a casa toda, até sacudi as almofadas do sofá, por causa das tuas alergias. Estás sempre a queixar-te delas. Eu sei que não sou perfeccionista em limpezas, mas sinceramente tu às vezes deves inventar pó, onde ele não existe. Só mesmo tu para te lembrares de fazer uma inspecção ao écran da televisão com a ponta do dedo. Como se os filmes alterassem a história e o assassino passasse de repente a herói só por causa de umas graminhas de pó. Eu também não me queixo das horas que tu passas deitado no sofá de comando na mão, pois não? Há homens que deixam crescer a unha do dedo mindinho, a ti cresceu-te um telecomando. Estou aqui sentada no sofá. Está frio. Parece que o comando nem funciona com os meus dedos. Deve ser do verniz. Hoje fui arranjar as unhas, Luís António. Estás sempre a queixar-te delas. Dizes que não cuido de mim e que tenho as unhas mal arranjadas e meias roídas. É porque eu nunca tenho tempo. Será que tu não percebes? Uma pessoa anda no dia a dia e nem se apercebe que não tem tempo para nada e um dia passou demasiado tempo e olha, fiquei com as mãos gretadas. No outro dia ainda tentei fazer-te uma festinha na cara quando vi que tinhas tirado a barda, mas disseste logo que te estava a arranhar. Também não são propriamente feitas de pedra pómos, que exagero. Está bem, têm alguns calos, estão secas, gretadas e com umas peles a sair. Mas eu trabalho o dia todo, não tenho tempo. E não me vou pôr a gastar dinheiro desnecessário em manicures que cobram uma fortuna e é um desperdício. Temos de juntar dinheiro para esses canais todos por cabo que tu mandaste instalar, não é? Eu sei que estou sempre, como tu dizes, com ciúmes da televisão, mas não achas que são canais a mais? Serão mesmo precisos 60 canais? Não sei o que de tão interessante vês tu na televisão, sinceramente. Mas para te provar que posso ser como as mulheres da televisão, comprei uma lingerie nova. Soutien vermelho, fio dental, meias e ligas. Não sei se me fica muito bem. Sinto o peito um bocado apertado mas realmente nunca o tinha visto tão cá em cima. Agora as meias é que me apertam um bocado as coxas, parece que faz aqui um papo. E o fio dental incomoda-me imenso, parece que o sinto dentro de mim. E não sei se me favorece lá muito por causa da celulite. Não sei se é de ser vermelho, mas parece que estes buracos no rabo ainda ficam maiores. Parece a casca das laranjas. Achas que é da cor? Eu bem disse à menina que devia ser cor-de-rosa, mas ela insistia que vermelho era mais sexy. Olha, não sei, desde que tu gostes é que interessa, afinal é por uma boa causa. Ainda pensei que passasses por cá esta noite. Até pus pratos de loiça à mesa e tudo. Andas sempre a queixar-te que só usamos pratos de plástico ou de papel, que esta noite decidi fazer-te a vontade. Mas é que esses vão logo para o lixo e não dão trabalho nenhum. É que eu nunca tenho tempo. Engraçado, encontrei uns pratos com umas bolinhas azuis e cor-de-rosa que a minha mãe nos ofereceu quando nos casámos. Nunca os tínhamos usado. Já foi há tanto tempo. Acho que passou demasiado tempo! A minha mãe disse logo que isto não ia durar muito, mas vês? Bem se enganou. Ela achava que no primeiro ano, tu te ias logo embora. Mas não foste. Achava ela que tu eras demais para mim e que eu não ia conseguir bem dar conta do recado. E eu provei-lhe que não. Provei-lhe que conseguia bem dar conta do recado e ao final destes anos todos ainda somos casados. Bem sei que estou um bocado gorda, que não há saia que me sirva, só visto calças e umas t-shirts XXL que compro na Praça de espanha quando tenho tempo. Também sei que nunca estou em casa, chego sempre depois da meia-noite e por norma já adormeceste de comando na mão. Mas oh Luís António, eu não sei porque é que te queixas tanto. Temos uma boa casa, um bom carro, nas ferias vais sempre viajar para fora, bem sei que nunca vou contigo porque não tenho tempo, já não tiro ferias à mais de 4 anos. Mas nunca faltou nada nesta casa e nunca passaste fome. Nunca deixei que te faltasse nada. Não tens razoes de queixa. Anda lá, volta para casa que estou a ficar cheia de frio, aqui sentada no sofá de fio dental vermelho escondido por debaixo da minha barriga. Anda lá para casa, para eu provar à minha mãe que dou conta do recado, que somos muito felizes e que não és demais para mim, apesar de ter já passado demasiado tempo.

10.4.07

QUERES NAMORAR COMIGO?



Abraçaste-me, beijaste-me e levaste-me a jantar ao chinês. 5 Minutos depois disseste que me amavas. 10 Minutos depois pediste-me em namoro. Foi como aquelas dietas fantásticas, do tipo: perca tudo em 5 dias. Mas neste caso era mais: ganhe tudo em 5 minutos! E tal como nos filmes: -Posso pensar? Que costuma ser mais ou menos a tábua de salvação para quem não quer ser mal-educado, nem desagradável. Eu conheço-te há uns minutos, como é que vou aceitar namorar contigo? Namorar para mim é uma coisa muito séria. É preciso estar apaixonada, ter sentimentos e objectivos em comum. Como diz a música, é preciso alguém que ouça a mesma canção. E eu nem sequer sei se tu gostas de música, muito menos o que ouves. Ainda não sei nada de ti. Vou à casa de banho. Desço as escadas. Procuro o interruptor. Não encontro. Bolas, só a mim é que me acontecem estas coisas. Também não faz mal, eu só vim aqui para fugir da situação e fazer tempo. Posso perfeitamente cozinhar uns segundos às escuras. Entro. A luz acende-se automaticamente. Boa, já nem para acender uma luz precisamos das mãos. Qualquer dia basta pensar e por telepatia: acendem-se luzes, abrem-se portas e enviam-se mensagens internacionais para a Austrália. Agora podia ficar aqui a dissertar um pouco mais sobre portas e luzes automáticas mas não posso, tenho outro dilema entre as têmporas. O que faço eu agora? Se não aceito, podes ficar ofendido e achar que tenho alguma coisa contra ti. E não tenho. Afinal se eu não te conheço, nem sei absolutamente nada acerca de ti, como posso ter alguma coisa contra? Se aceito, posso bem estar a mostrar que sou uma rapariga fácil e quem sabe se não me estou a meter numa alhada. Já estou aqui há demasiado tempo. É melhor subir, não vás tu pensar que assustaste a presa e que fugi pela porta traseira dos chineses. Lavo as mãos, só por descargo de consciência e sentir que estive aqui a fazer alguma coisa. A barcaça do ananás está vazia e enquanto desistimos de procurar restos de gambas como um sem abrigo procura um pedaço de pão seco no lixo, vamos discutindo a impossibilidade de se dizer “eu amo-te” cinco minutos depois de se conhecer alguém. Eu, como não gosto das sobremesas chinesas, tento explicar-te que “amor à primeira vista” é apenas um conceito, uma metáfora género fábula de animaizinhos falantes, que possui o seu simbolismo e que por sinal acho muito bonito e bastante romântico, mas não é para ser levada à letra. Tu pareces que levas tudo à letra e só dizes que me amas desde o primeiro minuto em que me viste, tudo com esse sorriso embevecido e um brilho no olhar flamejante de quem me deseja conquistar profundamente. Mas eu não levo tudo à letra. E, ou estás dar-me conversa a ver se caio na tua cantiga ou então não te entendo. Estranho. Espero não ter voltado à Torre de Babel. Não falamos a mesma língua. Eu acredito na paixão à primeira vista, no olhar, na sedução, no romance, no encantamento, na curiosidade, no morder de lábio, no brilho do olhar, na conquista, nas rosas vermelhas, nos poemas, nos chocolates, nas surpresas, em dançar abraçado, em andar de mão dada, em estarmos nus deitados na cama a ver a lua depois de fazermos amor e na esperança da transformação de tudo isso num grande amor, forte e verdadeiro que me ligue a alguém eternamente. Mas não acredito que se pode começar a amar alguém desde o primeiro minuto. Para mim amor é algo mais profundo. Uma palavra banalizada pela televisão e que penso que até hoje eu nunca senti. Não te sei explicar o que é amor. Deve ser uma daquelas palavras que não devia ter significado do dicionário, pois é impossível de verbalizar por outras palavras. Uma vez fui ao dicionário ver o que tinham escrito. amor, s. m. – sentimento que nos impele para o objecto dos nossos desejos. Não me identifiquei nada com essa descrição de manual técnico de informática acerca de um chip ou dispositivo raro, em códigos de fios de todas as cores e muitos números. Não sei descrever essa palavra. Mas sei que não se pode reduzir a essa explicação da Porto Editora. E o “s. m.“ eu acho sempre que é sado-masoquismo. Tu, que já não sei se me estiveste ouvir ou não, porque eu falo pelos cotovelos, rematas o meu discurso com um olhar de forno em alta temperatura. E derretes-me. - És um perfeito diamante em bruto que gostaria de lapidar. Vê lá não de magoes com as limas, não vás partir uma unha. Não sei como reagir. Não sei o que dizer. O que é que se diz quando alguém nos faz inesperadamente um elogio, que por acaso nós nem sequer achamos que corresponda à verdade? E que sou linda de morrer e que sou uma estampa e mais não sei o quê. E eu, que não estou nada habituada a esse tipo de elogios, mudo de cor e em vez de esmeralda transformo-me em rubi de tão embaraçada que estou. É que na verdade não me acho bonita. Sou uma simples rapariga de caracóis ruivos que saiu do Alentejo para ser pintora. Considero-me normal, comum. Tão somente uma rapariga. E tu deves dizer isso a todas, tens a lábia toda e conheces de cor a cantiga do malandro, mas para já sabe-me bem ouvir. Ando tão perdida que talvez me encontre nos teus elogios e o meu ego se levante um bocadinho. O teu pelos vistos alugou uma suite na nuvem mais alta concerteza. Tens sempre um ar muito confiante de quem tem a certeza das coisas que diz. Pareces ter a certeza de tudo e principalmente de ti, que é o mais importante. Acreditas em ti. Confias em ti. Eu diria que tens auto-estima e auto-confiança avaliadas no sítio certo. Caminhas com o olhar de arquitecto, que é como quem mede o último telhado do prédio mais alto. Nunca olhas para o chão. Nunca olhas para trás. Olhas em frentes, destemido e convicto das tuas certezas. É esta segurança que começo a admirar em ti. Quem sabe até me podes vir a fazer bem? E quem sabe até sejamos felizes e compramos joias e uns cavalos? Não sabia eu, o quanto patética estava a ser, ao por em causa verdades tão absolutas e verdadeiras como a intuição. Um dia vou perceber que existe um sentimento chamado intuição, que não sabemos de onde vem, que não sabemos o que quer dizer, posto em causa por muitas pessoas e que até nos faz tremer porque de repente nos aparece ali uma luzinha a piscar, a piscar. Mas essa luzinha, enquanto acende e apaga, purpurinada pela Sininho, mostra-nos imagens daquilo em que acreditamos ser o certo. Nessa altura não devemos duvidar da luzinha. Devemos aceitá-la apesar de não a compreendermos ou sabermos explicar. É uma questão de fé. E no fim, misteriosamente, ela prova-nos que esteve sempre certa. Mas, ignoro-me a mim mesma e às luzes de Natal. Depois de te dizer que não faz sentido levares-me a casa de taxi, que é a cinco minutos a pé do restaurante, que eu adoro caminhar e que muitas vezes quando estou stressada vou até baixa a pé, lá aceito os teus esforços conturbados para mostrares que és um cavalheiro. Seja o que Deus quiser, no meio do taxi digo-te sim. Tu olhas para mim com cara de espanto.
- Sim, o quê?

27.2.07

AO CIMO DAS ESCADAS



Esta é a porta que dá para o meu mundo. Entro e a música está alta. Está tão alta que me faz estremecer, a mim e a todos os que aqui estão. Estavam todos à minha espera. É bom saber que temos pessoas que gostam de nós e que nos abraçam quando entramos por esta porta. As luzes são vermelhas e azuis. Acho que também são roxas, ou lilases, mas como eu sou daltónico, são azuis-ponto-final. Pedem-me para eu cantar a minha melhor música. Não sei qual delas. Qual é a minha melhor música? Aquela que me persegue e se instalou deitada dentro dos meus olhos ou aquela que escrevi a subir as escadas agora mesmo? Em tantos discos, sinto que todas são as minhas melhores músicas. Afinal sou eu que as canto. Começam todos, em coro, a cantar um tema muito conhecido, talvez até o mais conhecido. Eu não sei qual é, mas a banda sabe. A banda acompanha. As luzes mudam. Um fumo invade-me os pés, e é como se estivesse a dançar numa nuvem. Danço numa nuvem. Os bailarinos invadem-me numa coreografia sincronizada e a minha voz começa numa viagem inesperada, sem regresso, de quem não fez check in, e levantou voo mesmo antes do boarding. Descem painéis pintados por mim, com cores de mar e pêssegos e eu sou elevado numa espécie de estrado, que treme e faz o meu coração ganhar na corrida dos ponteiros. Enquanto lá em cima me colocam umas asas enormes brancas, uma fonte que se transforma em cataratas naturais, faz brilhar em focos de luz, e arrepiar todos. Não sei se da emoção, se do frio. Eu adoro água. Mas água em movimento. Rios, mares, cascatas. Água que se desloca para algum lado e vai purificando tudo por onde passa. Águas azuis como aquelas que vemos nos postais da Grécia. Depois, um grupo de bailarinos, que parecia homens-estatua, ganha vida, e completamente encharcados iniciam a dança do renascer, enquanto todos gritam e aplaudem, e eu desço, a voar, preso por uns cabo de aço muito fortes que quase me arrancam as costelas flutuantes e mal me deixam respirar para poder flutuar, e vou deixando cair algumas penas. É uma verdadeira emoção dançar, cantar e voar sobre as nuvens. Depois de assinar muitas fotografias a preto e branco, porque são as que mais gosto, têm um ar antigo e misterioso ao mesmo tempo, com uma assinatura que eu mesmo inventei, e que ninguém consegue decifrar, bebo uma taça de champanhe, enquanto tiro algumas das penas que ficaram coladas a mim. Ainda bem que não voei muito alto, estou cheio de fome e ainda me dava uma tontura lá em cima, e como não tinha hospedeira de bordo que viesse a correr se eu tocasse a campainha, nem sacos para o enjoo, não sei o que ia fazer. Talvez me atirasse directamente para a fonte, que mais parecia um lago enorme artificial, de modo que me refrescava a respiração e também me iria borrar toda a maquilhagem em tons prateados que demora horas a fazer. A orquestra estava mágica, quase senti os violinos a ganharem vida e a voarem comigo. Estamos todos a dançar e a desenhar sorrisos e gargalhadas, porque afinal as letras que escrevi ecoaram em todos os olhos e por momentos vi um mar de velas acesas. É uma sensação misteriosa de paz, sentir tantas velas juntas. É como estar no santuário de Fátima à noite. Não tem absolutamente nada a ver com religião ou espiritualidade, mas um poder e uma paz fascinante que nos deita a respiração numa rede em alto mar e vamos flutuando ao som da lua. Estou a ficar tonto do champanhe, ou é da fome ou é das gargalhadas, pois são todos tão divertidos, que desde que a musica começou ainda não parei de rir de felicidade. Sou feliz. Sou feliz nas musicas que canto, nas letras que escrevo, nos quadros que pinto. Pinto a minha vida a óleo, e não deixo secar, para assim escorregar melhor como um escorrega de água onde chapinho como os patos. Sim, sou feliz, mas estou tonto. Se calhar é da fome. É melhor fechar a porta e ir jantar que a minha mãe já me está a chamar pelo menos à mais de uma hora ao fundo das escadas.

4.11.06

MEMORIA DE MISSAGA




Mudar de casa é sempre um encontro com o passado. Revemos todos os nossos objectos e as suas histórias, encaixotamos memórias e revivemos emoções antigas, guardadas em gavetas e armários esquecidos pelo tempo. E deparamo-nos sempre com um ou outro objecto, que afinal, desde que viemos para esta casa, nunca saiu do caixote. Mas tu saíste do caixote. Saíste, encontraste uma nova morada numa caixa de veludo preto, lindíssima, e aí ficaste deitado desde o dia em que a comprei, até hoje. Lembro de te ter desembrulhado de uma folha rasgada de uma revista, que noticiava a morte da princesa Diana – o tempo que já lá vai desde que deixei a nossa casa – que protegia um saquinho de veludo preto. Mas a noticia que embrulhava este colar talvez predestinasse a minha vida. Quando vim para esta casa, demorei muito tempo até te desembrulhar. Penso que apenas 2 anos depois comprei a tal caixinha de veludo preto. Era uma caixa antiga, comprada em segunda mão numa daquelas semi-feiras/exposições que fazem junto da escadaria principal das Amoreiras. Apaixonei-me logo por ela e percebi que era perfeita para te proteger, acarinhar e ao mesmo tempo esconder de mim mesma a tua memória. Ali ficaste escondido de mim, a proteger-me das lágrimas e dos sábados à noite nostálgicos, enrolados naquela manta cor-de-vinho, tão quentinha que comprei para me abraçar e adormecer a solidão de Inverno. E assim ficaste mais uns anos escondido de mim. Agora ao ver estas caixas, e ao embrulhar copos de cristal em folhas de jornal amassado pelo tempo pelas mesmas mãos que um dia os brindavam no teu sorriso, lembro-me da noite em que o ofereceste. Tínhamos ido jantar ao bairro alto. Eu levava um vestido preto comprido. Quando saímos do restaurante sentia-me tão feliz, que descalcei os sapatos e corri e dancei descalça até ao príncipe real. Foi aí, numa noite de Verão quente, no cheiro das árvores que descalça recebi como presente este colar de missangas pretas. Não sei o que aconteceu, mas nunca o usei. Deve ter sido mais uma daquelas recordações fantásticas, que dizemos amanhã, e um dia passou demasiado tempo, já mudámos 3 vezes de casa e nunca o usámos. Lembro-me também de te dizer que nunca mais iria mudar de casa nem empacotar bibelots de cerâmica, que não servem para nada, depositados no fundo dos armários sob pretexto de aniversário. Foi algo que nunca percebi. Porque fico um ano mais velha quer dizer que têm de me oferecer objectos que não servem para nada? E assim, fui eu acumulando caixas e caixas de papelão e espaçoso que carrego pela vida. Olham para todas estas coisas, e percebo agora que arrasto histórias que não são as minhas apenas por pena de quem mas ofereceu. Pena, deviam ter elas de me fazerem carregar estes caixotes cheios de nada e vazios de qualquer emoção ou sentimento. Hoje, mudo mais uma vez de casa, mas a mudança será maior. Desfaço-me de tudo aquilo que não é meu, nem nunca foi, porque não tem a ver comigo, porque não foi oferecido com sentimento, porque não me faz falta ou simplesmente eu já não gosto. Assim, elimino já três caixotes. Porque em tanta coisa, procurava-me a mim, e nunca me encontrei, e talvez por isso tenha vivido estes anos todos tão sozinha, à minha procura em objectos que colecciono e armazeno. Nunca me encontrei, porque sempre te procurei a ti. Porque eu estava em ti, e sem ti, deixei de existir, como me predestinou essa folha de revista que te embrulhava com a cara da princesa morta. Eu devia estar em transe quando o embrulhei, ou cega de tristeza. A tristeza cega-nos a vista, e não nos deixa ver. Fazemos as coisas como se não as fizemos ou como se elas não existissem. Não vemos nada porque nada existe, porque estamos tristes. E eu estava muito triste. E foi embrulhar este colar com a morte da princesa que me condenou à solidão. Ainda me lembro de ti e hoje, depois destes anos todos, ainda me apertas o pescoço, e talvez por isso nunca o tenha posto. Porque tu não és um simples colar de missangas preto, mas alguém que marcou a minha vida e que eu nunca consegui aceitar o afastamento. Hoje não vou embrulhar o colar missangas, nem em saquinho de veludo, nem em papel de jornal ou folha de revista. Vou colocá-lo ao pescoço porque tu não és este colar de missangas, mas a memória do grande amor da minha vida, que eu não vou esquecer ou esconder, mas que sempre viverá comigo.

26.9.06

O MENINU DA LUA E PIANO



Já vou! Porque é que eu não fiquei em Lisboa? Porque não posso passar o Verão todo dentro do mar? Deitava-me e ficava três meses a boiar. Deitado de braços abertos a flutuar com a lua a tomar conta de mim. Depois ela vinha-me buscar e embalava-me. Já vou! Pelo menos em Lisboa, eu como à hora que me apetece e aquilo que me dá vontade. Nem que seja nutela o dia todo. Não é exactamente por isso que cada humano tem uma vontade diferente do outro? Não é isso que faz de cada um de nós seres tão especiais? A felicidade está em vermos cumprida a nossa vontade, em cedermos aos nossos impulsos. É essa a liberdade que procuro. De respirar fundo, e estar em paz comigo mesmo porque sei que fiz aquilo que me apeteceu e satisfiz o meu eu mais profundo. Quero ser livre. Eu já vou! Quem disse que tenho de passar três meses na terrinha a trabalhar na empresa dos meus pais? As ferias, que eu me lembre, não são para acordar com despertador. São para dormir até explodir e depois sair da cama a correr em direcção ao mar. Ou então deambular pela casa em boxers e t-shirt até à hora de almoço e sentar-me à mesa ainda a tentar abrir os olhos e decifrar o que a mãe preparou para comer. Dar-lhe um beijo, dizer-lhe que a adoro e depois ir deitar na relva do jardim deitado de mão-dada com ela a decifrarmos as formas das nuvens. O criador das férias neste momento deve estar a ter uma verdadeira congestão. A sua criação não foi concerteza para passar os dias todos até as 19h na empresa afundado em papéis enquanto os outros correm sem destino. Também não quero ter destino. Lisboa liberta-me, aqui sinto-me verdadeiramente oprimido. E começa pelo facto de a maioria das minhas opiniões não ser tomada em contada. Acabo sempre por guarda-la no bolso pequeno dos jeans e fecha-la bem fechada até ela se engolir e se esquecer dela própria. E assim também eu me esqueço de mim. Num mundo onde a minha opinião não é valida, eu não existo. Já vou, eu não disse que já ia? E o pior de todos é o meu irmão. Ele terá a consciência de que eu existo, sou um ser com um cérebro plantado no crânio a desenvolver-se – pelos vistos mais que o dele – que já não tenho 14 anos e que por ter um ponto de vista diferente, não quer necessariamente dizer que estou a abater aviões suicidas contra as torres do quarto dele? Mas eu não lhe vou explicar isso. A atitude dele é uma reflexão-espelho da do meu pai. E como filho de peixe...não toca piano, sento-me, estico os dedos e esqueço tudo isto. É a melodia que me faz sair daqui. Os meus dedos, um a um tocam nos pontos de saída. Fecho os olhos e deixo ir-me. Vens comigo avó? Levamos o piano e vamos até à lua. Já não quero ir para o mar, avó. Balança muito e depois tudo me soa a si bemol. A lua tem lá um cantinho perfeito para pormos o nosso piano e tocarmos. À noite deitamo-nos na nela, esperemos que não caia. Acho que essas duas pontas estão bem presas no céu e é como a nossa rede para dormirmos, mas de uma luz resplandecente de magia. Nas noites em que estiver muito vento, avó, eu sento-me ao piano e toco aquela música, lembraste? Tu levantaste e danças para mim na tua camisa de noite e os teus cabelos brancos voam e dançam contigo. Quando tivermos saudades da mãe, peço ao peter pan, que é o meu mano adoptivo, para ir lá buscá-la, e ficamos os quatro sentado na lua partida ao meio. Depois, tu fazes-me festinhas nos meus cabelos, e chamas-me menino da lua. O piano está esquisito