10.8.07

3 DESCULPAS PARA NÃO ESTAR COM ELE


Quando olho para trás, não entendo porque estive tanto tempo com ele. Muito menos depois de saber que tu existias. Um ano antes de ti eu estava frágil. Estava a terminar um curso com excesso de trabalho e estudo, e a enfrentar um puro esgotamento do qual não me estava a conseguir desembaraçar. Sentia uma solidão assustada por enfrentar o dilema de tentar entrar num mercado de trabalho e a tristeza por imensas pessoas que ia deixar de ver. Foi neste estado de medo e fragilidade, quase a sair do consultório da minha psicóloga que ele me encontrou. Esta é a primeira desculpa que eu encontro para ter estado com ele. Nessa altura ele esforçava-se, e tenho a dizer que de-ma-si-a-do, para demonstrar o quanto me queria e o quanto gostava de mim, se é que alguma vez gostou de mim. Não acredito sequer que este tipo de pessoas possa gostar de alguém, além da imagem reflectida no espelho lá de casa emparelhada com a imensa colecção de perfumes e cremes que persuadia às marcas a oferecerem-lhe. Levava-me a jantar, entupia-me o telefone com sms, telefonava-me de 5 em 5 micro-segundos porque tinha imenso tempo para isso, o que de certa forma me fazia sentir especial. O problema foi quando deixou de ser free lancer e passou a ter um horário e local de trabalho, e o substituiu por mim. Deixou então de ter tempo – que é uma desculpa que não existe, pois o tempo além de não existir, todos o têm, o dia tem sempre 24horas e o dele, certamente que também tinha.
E de repente, como uma criança na feira popular – que espero ansiosamente que renasça ao terceiro dia para eu poder ir brincar contigo – fiquei a olhar a roda gigante onde tinha andado, a apertar na mão o pau vazio que outrora me lambuzou com algodão doce, a sentir o vazio de uma feira cheia de crianças divertidas, e eu ali sem perceber porque me tinham tirado o rebuçado da boca, depois do mo terem dado a provar. O que eu não sabia é que somente a primeira película do rebuçado era caramelizada, porque no fundo era um rebuçado mais amargo que a própria solidão. Mas isso, eu so descobri depois. Depois de ter lutado por andar novamente naquela roda gigante. O que eu queria era aquilo que ele me estava a retirar. Penso que isto é uma característica comum a muitas pessoas, quando nos retiram algo, ou nos dizem que não, queremos muito e só descansamos até o termos novamente. Esta é segunda desculpa. Quando finalmente comecei a saborear as varias camadas do rebuçado, já eu sofria de uma espécie de feitiço, em que ele me fez acreditar que ele era o melhor que eu podia arranjar, que ninguém iria dar-me atenção ou querer-me, e mais valia eu ficar muito contente por ele estar comigo. E quando comecei mesmo a acreditar nisto, deixei de acreditar em mim, deixei de sonhar, deixei de esperar por ti que um dia me irias abraçar toda a noite, nunca irias adormecer sem me dar um beijo de boa noite, me irias escrever postais decorados com palavras lindas, e me irias levar a passear de mão dada nos jardins da Gulbenkian. Acreditei que ele era o melhor que eu podia arranjar, e mal por mal não estava na solidão e esta foi mesmo a terceira desculpa. Depois vieram as discussões, o álcool, as minhas inseguranças e quotidianas desconfianças, ele a fazer olhinhos a tudo o que tinha pernas, duas, ou três, ele a chegar a casa às 4h da manhã completamente ensopado em álcool, depois de levado em braços e me expulsar de sua casa aos gritos desfilando toda uma lista de palavrões, insultos e certezas que nunca mais me queria ver e para eu ir para minha casa. E eu ia. Descia a rua às 4h da manhã com um saco de duas camisolas e um livro da Margarida Rebelo Pinto, e prometia-me a mim que não iria voltar. E no dia seguinte voltava, para na semana seguinte ele terminar para sempre mais uma das 54 vezes a nossa relação e no dia seguinte dizer que me amava com a mesma voz e a mesma boca com que dizia que me odiava. E por essa altura, quando eu já tinha deixado de acreditar que eu mereço bem melhor do que dormir na mesma cama que alguém que de costas viradas adormeceu sem dizer boa noite e sem perceber sequer que eu existia, eu estava a começar a ficar sem desculpas para estar com ele. E nesse momento também nenhuma daquelas três era valida ou actual. Eu já sabia que tu existias, já há um ano, e que eras o tal príncipe de sobretudo preto comprido que a qualquer momento me poderia salvar daquele sexto andar de onde ele atirava o cinto às 5h da manhã porque não o conseguia tirar das calças, e que bastava eu fazer um sinal e tu dizias-me boa noite, toda a noite. E quando comecei a perguntar-me afinal porque estava com ele se nesse momento já não tinha desculpas para isso, tinham passado dois anos, muitas mentiras, insultos e telefonemas, e sem qualquer desculpa, depois dele ele fingir que ia para casa dormir e afinal ter ido para uma discoteca gay com uns amiguinhos, eu desliguei o telefone e desliguei-me a mim num silêncio de três dias, ao fim dos quais renasci e lhe anunciei que pela primeira vez, era eu a dizer acabou, mas desta vez a palavra fim tinha mesmo esse significado, porque eu sempre tive um bom dicionário, eu já não tinha era desculpas.

20 comentários:

O que te vai na alma!! disse...

gostei do post.. sao 3 boas desculpas... mas que nem sempre sao suficientes quando se esta infeliz e a sofrer...

por vezes por um ponto final em certos assuntos é bom..

continua assim... abraço

Dhyana disse...

Há momentos que temos de dizer "basta". Ainda bem que o fizeste, pq quem odeia e ama ao mesmo tempo, não ama de verdade.
Beijos...

alguém+ neste mar de gente disse...

parebens, tiveste a coragem de dizer não a quem amas. isso não me parece fácil!

Pralaya disse...

Enfim, como se diz o "amor é cego" ou melhor o amor cega-nos a sorte é que quando ele acaba ficamos a ver tudo em perfeitas condições e ai apenas temos de resolver as coisas de forma a conseguir-mos ser felizes.

Felipe Nunes disse...

É Pedrito... o Bruno até que tem razão o melhor a fazer por vezes é por um ponto final.

o que custa então num ponto final? Acreditar nele (no ponto) e interiorizarmos esse mesmo fim. Se não nada feito... e eu sei o que isso é! ...nada feito...


Aquele abraço,
fn

pedropina disse...

flipugo: eu sei k sabes, mas é possivel desenhar esse ponto final, bem redondo, .... kdo sabemos k nao há mais parágrafos!

Mike disse...

Bem... revi demasiado a minha última relação nas tuas palavras. Sei bem o que custa pôr um ponto final em algo que ainda arde dentro de nós. É dificil acabar uma relação quando ainda se ama a pessoa mas existe sem dúvida a necessidade de um ponto final! E esse ponto por vezes chega tarde, chega quando já nos eliminámos demasiado, quando já não nos sabemos valorizar... é esse o meu retiro, valorizar-me, aprender o meu valor e vir a partilhá-lo com alguém no futuro.

Gemini disse...

Bolas, passaste por momentos difíceis! Há momentos em que dava jeito ser como o Mr Data, do Star Trek e desligar simplesmente o "Chip emocional".

pedropina disse...

passado este tempo todo as vezes da-me vontade de rir de mim mesmo, como aturei semelhantes coisas! na altura desejei fazer uma lobotomia pra me retirarem a parte da memória!

Conguitos disse...

Só não percebo como para resolvermos situações temos de sofrer imenso porque no fundo gostamos.
Os sentimentos são a nossa maior perdição. Retiram-nos consciencia a razão...

Marcos disse...

Só pelo inicio vi logo como iria acabar. Conheço uma história semelhante a essa. Alguém que brincou em perigosos terrenos... Mundos mudos?!E tb sei o que é tudo isto!Ver isto escrito =)

Will disse...

Eu ainda podia ter inventado mais umas outras 3 ou 4 desculpas... Todos as inventamos quando estamos ao lado de alguém com quem já fomos muito felizes.

Martinha disse...

Bem, momentos duros não faltaram.
E a verdade é que os sentimentos às vezes cegam-nos.
Mas como a maioria do pessoal já disse, há momentos na nossa vida em que é necessário dizer "acabou" e fechar essa etapa.
:)

gato vadio disse...

O texto prende-nos e leva-nos pendurados pela avidez das palavras em catadupa, a ponto de, no fim, o tamanho da imgem "fim" funcionar como o peso desse cartaz físico repentinamente caído na nossa frente..
Excelente sensação.. Assim com quem anda de montanha russa.. mas na leitura. Parabéns.

pedropina disse...

Gato Vadio: foi dos comentários mais bonitos que ja me escreveram! obrgd! Hug, p.p.

borrowing me disse...

não é fácil
mas faz parte de nos amarmos afastar as pessoas que apenas nos magoam da nossa vida
verás que a serenidade em breve te acompanhará

boa semana e bjs

Nuno disse...

Bem, descobri recentemente que os meus comentários tendem a ser patéticos e a não reflectirem o que eu sinto e penso. Desse modo, resolvi tentar fazer um comentário com aquilo que mais gosto e que me apetece sentir neste momento: " "
Silêncio de palavras. Há coisas que são impossíveis de comentar. Só quem as vive deve ter a experiência necessária ao comentário. Quanto ao colocar um ponto final numa relação quando ela ainda arde falamos daqui a dois meses, sou capaz de já ter a experiência necessária ao comentário.
Abraço!

pedropina disse...

pk daki a 2 meses???

pois eu espero bem k daki a 2 meses NAO tenhas essas experiencia!

Denise Silva disse...

A palavra Fim tem de ser sempre essa, não outra...! Tu sabes, já me ensinaste isso!

Anónimo disse...

hj foi a primeira x k li o teu blog, simplesmente... GENIAL
estou sem palavras, sera que tds temos estorias tao parecidas uns com os outros?
ao ler os teus post vi tanto da minha vida, senti tanto a tua escrita.
a cena da porta e veres os pés do outro lado, os telefonemas, as idas ao porto(espinho)as infedilidades, a arvore de natal...
o teu blog esta...
parabens, serio, muitos parabens
pela vida (nao sei se sao historias reais) pela tua coragem, por tudo. muitos parabens!
nao acabei 54 x a minha relaçao... acredita foram muitas mais, foram 4 anos de ilusao e acredita ainda hj o amo é isso k me deixa frustado comigo mesmo.

aquele abraço :)
beto valles