7.9.06

A MADEIXA LOIRA




Naquele dia fiz uma madeixa loira no meu cabelo. Uma simples e comprida madeixa loira sobressai agora nos meus cabelos negros. A Dona Rosa diz que me ilumina mais a cara, e que pareço mais nova, disse-me: Tens já quarenta anos, Maria Adelaide, está na altura de começares a cuidar de ti e de olhares para ti! O senhor Elias do talho até me perguntou se eu tinha posto na cara uma dessas coisas novas que agora aquelas loiras que aparecem nas revistas injectam, mas eu lá seria capaz que me injectassem fosse o que fosse. Tenho um medo de agulhas! Mas lá fui eu para casa toda contente com a minha nova madeixa loira, e a sorrir a achar que até parecia mais nova. Fiz um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, que ultimamente parece que é a única coisa que consegues comer sem sequer tirares os olhos do prato, e depois sentaste no sofá e pedes-me uma loira bem gelada, que é como gostas de chamar aquelas garrafas que poluem a mesa da casa jantar e te fazem a verdadeira companhia até adormeceres e eu te dizer: vá lá, homem vai para a cama! E lá guardo eu silenciosamente todas as garrafas de cerveja num saco preto de plástico para no dia seguinte as ir entregar e receber o depósito ao senhor Manel do café ao lado, que me diz sempre: veja lá a conta do mês passado, não está esquecida, pois não? Esquecida estou eu lá em casa, que quando chego à cama depois de ter lavado os tachos e as panelas e ter posto de molho as tuas meias encardidas, já tu ressonas mais alto que a bateria do miúdo do Zé Tó, que agora inventou que vai ser músico e passa as noites enfiado na garagem e diz que está a ensaiar. Eu de ensaios não percebo nada, mas se aquilo é música então mais vale fazer um dueto sinfónico contigo, pois darias um óptimo vocalista, duma dessas bandas modernas que têm todos os cabelos compridos, e andam todos com umas roupas pretas muito rotas e muito encardidas, nesses sons alternativos a que eu chamo: roncar. Pois hoje decidi que antes de começares a competir com a bateria irás ter outra loira lá em casa, e talvez assim me digas que sim, que pareço mais nova e eu sentirei até olhas para mim. Esperei até ao momento de me pedires pela tua loira bem gelada, e nesse momento sentei-me a tua frente, olhei-te e disse-te: tenho frio, sinto-me gelada. Olhas-te para mim e disseste: veste o casaco de lã que a minha mãe te ofereceu no Inverno, já que nunca o usas. E claro que não uso, mas provavelmente é assim que me vês, com esse casaco de lã tricotada cinzento-escuro, exactamente igual ao que a minha tia-avó Maria Lúcia usava no dia em que caiu das escadas do sótão por ter deixado a bengala lá na cozinha, sempre com a mania que não tinha 75anos. Pois eu não me vejo como uma velha resmungona de casaco cinzento-escuro e por isso mesmo continuei parada a olhar para ti sentada na casa de jantar. Olhaste para mim com uma expressão de pena e ao mesmo tempo de confuso, mas viraste a cara e continuaste a olhar o televisor, à espera que eu me levantasse e te fosse buscar a tua maldita loira bem gelada. Então percebi que tinha de urgentemente fazer mais madeixas loiras, e assim foi. E todos os dias me sento na cadeira da mesa da casa de jantar a olhar para ti quando me fazes o teu pedido de sempre. A única diferença é que agora vais tu buscar a porcaria da cerveja, e neste momento a conversa mais profunda que temos durante toda a noite é quando tu chegas e dizes o teu típico e irritante: então! E eu penso, então pergunto eu, os dias passam e qualquer dia já tenho o cabelo todo mais claro que os iogurtes magros que agora decidi começar a comer a ver se fico como as raparigas dos anúncios e a ver se olhas para mim, mas que também mando por na conta, e o Manel lá vai continuando as suas contas de somar que parece nunca chegarem ao resultado final, e que já ocupam metade do livrinho castanho que ele guarda ao lado da caixa registadora. Todos dizem que estou diferente, realmente parece que nunca me vou parecer com a resmungona da velha da tua mãe num aspecto, porque ultimamente já raramente abro a boca para falar, e a única coisa que te grunho é: hum! Depois do teu: então! Mas numa coisa eu e a velha resmungona da tua mãe estamos cada vez mais parecidas: o cabelo! Agora o meu cabelo todo já não é loiro, está é a ficar branco, seco e estragado, de tanta madeixa e descoloração. E hoje percebo que tu nunca viste que eu tentei que olhasses para mim e que me desses alguma atenção, porque apesar das minhas continuas e sucessivas madeixas loiras e agora já me fazem cair o cabelo, para ti a única loira que mora lá em casa, vive na prateleira de cima do frigorifico que o teu irmão Quim nos vendeu em segunda mão, quando saiu lá da terra e comprou um daqueles cromados com duas portas que aparecem nos anúncios de televisão, ou nos prémios do 123, com aquelas raparigas de pernas de quatro metros e de cabelos compridos loiros. Hoje fui buscar o tal maldito casaco cinzento-escuro que a velha resmungona da tua mãe me ofereceu, e olhei-me ao espelho. Lembrei-me do que a Dona Rosa me disse, mas na verdade eu só queria era que tu olhasses para mim, e hoje tenho cinquenta e cinco anos e já me conformei que nunca olhaste para mim, e que não posso competir com as tuas loiras bem geladas por mais madeixas loiras que eu faça.

3 comentários:

aquelabruxa disse...

escreves bem, mas acho que tás farto de o saber ;)

aquelabruxa disse...

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Anónimo disse...

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