27.4.07

EU ADORO A AMÁLIA!

Olá! Boa tarde! Posso tirar um rebuçadinho? Sabe, é para os meus sobrinhos. Eles gostam muito de rebuçados! Eu é mais chocolates! Ai eu adoro chocolates! Ando a dar uma volta, sabe! Vou ver “o macaco”! Ai eu gosto muito do macaco, aquele filme, sabe, o King Kong amigo. Gosto muito do King Kong. É às seis e dez. Mas a menina disse-me que ainda podia comer o meu gelado às seis horas. Não vou agora, tenho muito medo! Não! São quatro da tarde! Tenho muito medo! Almocei à bocado com a minha amiga, ela pagou-me uma sopa, ali, no “Caldo Verde”, sabe. Ela é muito minha amiga. É mesmo uma boa amiga. Deu-me umas camisolas que ela lá tinha e vai dar-me uma capa para o edredão da cama. Sim, que eu agora já tenho uma cama. Eu antes dormia no chão que era para os meninos dormirem na caminha. Mas juntei um dinheirinho da minha reforma que recebo todos os meses, sabe amigo, e comprei a minha caminha. Porque Deus ajuda amigo. Eu acredito muito. Tenho muita fé! Até tenho aqui uma Santinha, quer ver amigo? Tenho aqui na carteira, este retrato da Nossa Senhora. Eu acredito muito na Santinha! Tenho aqui ao pé da fotografia do meu pai. Já morreu coitadinho. Eu chorei muito, sabe amigo! Chorei muito, até tiveram de dar-me uma água das pedras para eu me acalmar. Que eu fico muito nervosa. Eu sofro dos nervos, sabe amigo. Fico muito nervosa. Custou-me muito, o meu paizinho. Até me vêm as lágrimas aos olhos. Ele gostava muito de mim. Ele dizia “Lurdes, agora já podes ir brincar”, coitadinho. Eu chamo-me Lurdes, sabe. Coitadinho. Mas tenho aqui a fotografia dele comigo, e anda sempre comigo. Aqui ao lado da fotografia da Amália! Eu gosto muito da Amália! Também tenho lá na minha sala, o retrato da Amália, lá na parede! É! É verdade amigo! Ai, é uma coisa, uma coisa sem explicação! Tenho o Nosso Senhor pendurado na cruz, e ao lado tenho o retrato da Amália! E tenho o xaile da Amália, e um guitarrinha, assim pequenina, é verdade amigo! E tenho uma boneca que é a Amália! É igual à Amália, assim com o vestido preto! E tenho assim com uma folha de cartão que eu fiz, assim enrolada, e pus-lhe um tecido preto, igual à Amália! É verdade amigo, é uma coisa, uma coisa sem explicação. Mas não deixo que os meus sobrinhos mexam, não isso não. É o museu da Amália. Ainda me falta o leque da Amália, sabe amigo, a ver se um destes dias encontro na feira de Carcavelos. Ou então faço eu, assim com um papelinho pequenino. Eu acredito muito na Amália. E rezo muito à Amália, peço-lhe muito. No outro dia, sabe amigo, estava a rezar no túmulo da Amália e estava a chorar, e estava uma moça. Até meti conversa com ela. É verdade amigo. E ela pedi-me o meu número de telemóvel. E ficámos amigas. É verdade. É uma coisa, uma coisa sem explicação. Como no outro dia eu achei uma nota de dez eurios, estava assim dobradinha na calçada, e eu apanhei-a, é verdade amigo, é uma coisa, uma coisa sem explicação. Era para ir almoçar à minha amiga, já não fui. Fui ao café e comi. Porque Deus ajuda. Eu acredito, e tenho muita fé. Até pus uma moedinha igual a esta nos pés da Santinha. Acredito muito na Santinha e na Amália. Até trago aqui na minha mala uma moeda igual, aqui ao pé destes livrinhos do tio patinhas. Eu gosto muito de ler o tio patinhas assim quando vou no autocarro, ou quando estou à espera do 58. Eu sou muito infantil, sabe amigo, tenho 45 anos, mas sou muito infantil. Vou dar mais uma volta, que é para às seis ir comer o meu gelado, que a menina disse que dava tempo, e às seis e dez vou ver “o macaco”. E depois levo os rebuçados aos meus sobrinhos. Obrigado amigo. Boa tarde. Muita saúde, e muitas vendas. Adeus.

(à Sra. Dª. Maria de Lurdes, um beijinho)

2 comentários:

Nuno disse...

Cómico, gostei. Como sempre, não é? Tá muito bem conseguido. E até podia estar escrito em Japonês que eu dizia logo que era portuguesa. E não é só por causa da Amália.
Abraço

pedropina disse...

oh Nuno, nao imaginas quantas vezes ouvi as histórias desta senhora..., a primeira vez está aqui fielmente descrita! um dia destes dedico-lhe outra, já que havia uma altura em que fielmente, todos os dias ela minha desabafar comigo a sua vida e o televisor a preto e branco que queria comprar nos indianos, com uma nota de 50euriós e 5 notas de 20!