28.4.07

UM SUICIDIO AZARADO




Existem momentos em que nada faz sentido. Fiquei desempregada. Talvez devesse ter dormido com o patrão. Mas aquele bigode, mal aparado com as pontas para fora enoja-me. Já não pago a renda há três meses. Quando saio de casa até tenho medo de encontrar o senhorio no vão das escadas, pois já não me lembro de mais nenhuma desculpa de jeito depois da última de ter de emprestar dinheiro para a operação aos rins à minha tia que só por acaso morreu o ano passado de ataque cardíaco. A mim é que me podia dar um ataque cardíaco, que assim não tinha de passar pela tortura de olhar para o Jorge, sentir o cheiro da amante, e ficar calada. Escrevi-lhe uma carta. Disse-lhe que ficasse com ela, e que fossem muito felizes. E já agora, que ela lhe pagasse a renda da casa, a divida no talho e a prestação do carro. Pego na faca de cortar os bifes, que por sinal está mesmo muito mal afiada, ele deve-a ter utilizado outra vez como chaves-de-fendas, mas que mania que este homem tem. Nem consigo cortar os pulsos com esta faca toda torta. Já estou é toda arranhada, e acabei de manchar a saia que comprei para o casamento da minha prima Odete, toda de sangue. Uma saia nova. Isto assim não resulta. Vou-me arranjar. Ponho os sapatos pretos de tacão de ir à missa, que também foram para o casamento da Odete e que só por acaso nem sequer sei andar nelas, mas elas diziam que me faziam elegante e ia fazer boa figura. Mas nunca consigo caminhar. Mas hoje é um dia especial. Afinal é o dia do meu suicídio. Hoje sim tenho de fazer boa figura. Já que me vou embora, vou toda aperaltada, pode ser que lá do outro lado esteja alguém jeitoso a receber-me e que não chegue a casa com cheiro de perfume comprado nos Chineses. Já pus as caixas todas dos comprimidos na carteira. Vou de carro até ao rio. Quando lá chegar já estou meio tonta e afogo-me logo. Com muita sorte quando o meu corpo andar para lá a boiar ainda se me aproveitam os sapatos que me custaram uma fortuna. Mas quem é que mandou aquela Odete casar-se? Agora ele arranjou uma amante, ela diz-me que já arranjou outro e já estão separados. Devia-a obrigar a pagar-me os sapatos. Tropeço nos sapatos e quando me apercebo já rolei pelas escadas do quarto andar até ao primeiro. Dói-me as costas. Mas não morri. Um dos sapatos ficou com um tacão partido. Assim nem a Odete os aproveita. O pior é que com a queda, os calmantes saltaram-me da mala e caíram lá para baixo para a cave. E eu perdi a chave da cave quando me andaram a fazer obras na parede da casa de jantar. É preciso ter azar. A sorte é que ainda tenho mais comprimidos suplentes guardados na gavetinha debaixo da cómoda, não fosse acontecer algum azar. A muito custo subo as escadas e vou buscar os comprimidos. Até a saia rasguei. Já estou numa linda figura, sim senhor. Não encontro os comprimidos. Isto não me está a correr bem. Depois é que me lembro que os tinha guardado embrulhadinhos num papel atrás do quadro do menino da lágrima que o Jorge me ofereceu pelo meu aniversário. Devia estar a tentar dizer-me que me ia fazer chorar ainda muito. Vou é já tomar cinco ou seis compridos antes que me arrependa. O copo com água escorrega-me das mãos e parte-se mesmo em cima do tapete novo. O Jorge vai ficar fulo quando vir este tapete cheio de vidros miudinhos, ele adora este tapete, comprou-o quando estivemos em Marrocos. E o copo era tão lindo. Comprado naquelas colecções que vem nas revistas semanais. Estive seis meses para fazer o serviço todo e agora parto um. Nem sequer o posso substituir. Muito menos antes do Jorge chegar a casa. Acho que os comprimidos já me estão a fazer efeito, já me estou a sentir um bocado tonta. Acho que já não consigo conduzir até ao rio. Mas acho tão romântico morrer afogada. Como naqueles livros da Bianca. Acho é que vou encher a banheira e vou-me lá deitar vestida e é romântico na mesma. Não é um rio, mas é afogamento na mesma e serve muito bem. O Jorge é que não vai achar grande piada aos tapetes da casa de banho todos encharcados se a banheira começar a transbordar. É melhor ir guarda-los na cozinha. A garrafa do gaz acabou e percebo que tenho que me afogar em água fria. O que afinal já ia acontecer no rio, mas aqui em casa parece-me estranho. Já que ia morrer na banheira, pelo menos adormecia quentinha. Preparo-me para o afogamento frio, e percebo que também não pagámos a conta da água, e por causa disso houve mesmo um corte. O Jorge vai ficar furioso quando se aperceber. Ele que adora tomar banho quando chega casa. Bem tenho mesmo que ir até ao rio. Cambaleio pelas escadas. Consigo identificar o meu carro apesar dos olhos já estarem semi cerrados, mas o objectivo é mesmo atirar-me ao rio, não me posso distrair. Não sei quantos compridos tomei nem quantos carros estão à minha frente. E também não percebo o que é que estou aqui a fazer deitada nesta cama de hospital. Parece que bati em quatro carros que ficaram desfeitos, mas eu fiquei intacta. É mesmo preciso ter azar. Mas de certeza que estou aqui deitada porque ainda devo estar sob o efeito dos comprimidos, porque as enfermeiras parecem-me ter duas cabeças e sinceramente não entendo o que é que o Jorge está aqui a fazer. Deve ter vindo discutir comigo por ter partido o copo em cima do tapete novo. E ainda por cima em vez de poder tomar banho teve de vir buscar a mulher ao Hospital por se ter tentado suicidar e nem sequer ter conseguido. Não percebo é porque é que ele está a sussurrar no ouvido da Odete. Não acredito. A amante do Jorge é a minha prima Odete. Não me consegui suicidar, estraguei a saia e os sapatos do casamento da Odete e ainda por cima descubro que ela é que é a amante do Jorge. Não me faltava mais nada. Ainda por cima ela tem uns sapatos exactamente iguais aos meus, mas sem estarem estragados. É mesmo preciso ter azar.


à Rita

7 comentários:

Nuno disse...

OPA BRUTALL... Sério, escreves de uma maneira tão simples mas que ao mesmo tempo prende as pessoas. Não conseguia parar de ler e a história tá muito bem conseguida. Hilariante e dá que pensar... Sim senhor. Parabéns.
Abraço

Denise disse...

Ora...suicidio frustrado...Sei o que isso é. Só não entendo bem a razão dessa mulher... Eu mandava era o Jorge ir às couves e fazia algo pela minha vida que não me parece que seja o caso...!

Beijinhos*

pedropina disse...

o pior é k esta historia é verdadeira, duma amiga minha! claro k troquei os nomes.... mas n fim nao me adiantou de nada lol!

Feitixeira disse...

Olá! Encontrei o teu blog por acaso e tomei a liberdade de deixar aqui umas palavras...
Agradou-me a forma como retratas-te a personagem...
Dos rituais, aos pensamentos bizarros, atravessaste o suicídio com ironia... e não foi um azar... foi puro talento:-)

gaohui disse...

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