28.4.07

O MACACO PAPÃO




Vivia debaixo da minha cama e estava lá, sempre que eu me ia deitar. Eu encolhia-me todo nos cobertores e entalava assim as partes laterais mesmo por debaixo dos meus braços para que ele não pudesse tocar-me. Punha sempre uma quantidade incrível de cobertores na cama, que a minha mãe não percebia mas para ficar bem pesado ara ele não conseguir meter a mão e tocar-me. Depois colocava a almofada um pouco mais abaixo que o costume para me atirar lá bem para o fundo da cama e para que os cobertores me pudessem cobrir completamente. Assim dormia eu, completamente sufocado em cobertores mas com a certeza que ele não iria conseguir tocar-me. Claro que a meio da noite já nem sequer me lembrava dele, e destapa-me por completo antes de sufocar naquele sarcófago de cobertores suicida que eu mesmo tinha preparado.
Todos me falavam no bicho papão como se fosse um monstro estranho com muitos braços e um saco enorme onde depositava as criancinhas para as armazenar por categorias e a pouco e pouco as ir tufando com mel para o pequeno-almoço. Mas eu era o único que o conhecia. Ele era um macaco. Mas um macaco enorme, género chimpanzé, mas maior ainda. Aliás pensando bem, não sei como é que ele sendo tão grande, se conseguia enfiar debaixo da minha cama. Ele era tão grande que me conseguia agarrar todo só com uma mão. Não que alguma vez o tivesse conseguido, porque eu com a minha estratégia sarcófoga conseguia sempre escapar-lhe. Acho que ele devia ter algum parentesco com o King Kong. Mas com o primeiro, aquele a preto e branco.
Mas ele, ou era muito inteligente, ou muito perspicaz. Ou então estava sempre a escutar as conversas dos meus pais. Pois mudamos varias vezes de casa, e dentro da mesma casa cheguei a mudar três vezes de quarto, e ele descobria sempre o esconderijo por baixo da minha cama. Na penúltima casa onde os meus pais viveram, primeiro o meu quarto dividia-o com a minha irmã, com uma mobília de duas camas individuais mas que nos davam uma grande dor de cabeça rotula-las. A que estava mesmo junto à porta era a da minha irmã, até ela perceber que exactamente por estar junto da porta, era a que me servia de armário de apoio pois eu apenas abria a porta do quarto e atirava para lá a mochila. Quando decidiu que afinal a cama dela era a da janela, percebeu que me servia de banco, porque me empoleirava nela para espreitar pela janela lá para baixo. Felizmente um dia, de tanto salto, parti o estrado da cama junto à porta, e peguei no colchão, que arrastei até à sala de jantar, que transformei no meu quarto.
Pouco tempo depois, os meus pais compraram-me uma mobília de quarto, com uma cama igual. E comecei a sentir a minha independência e a minha individualidade, abalada com três tiros quando a minha irmã pediu uma mobília exactamente para o quarto que agora era só dela. Mas porque é que ela tinha sempre que me imitar? Até quando eu comecei a usar gel no cabelo, ela passado um tempo pediu a minha mãe para lhe comprar gel. Ela até me imitou quando eu decidi ir viver para Coimbra, um ano depois já lá estava! Isto para não falar que dois anos depois de eu ter ido viver para Lisboa, lá estava ela de marcação cerrada. Mas pelo menos desta ultima vez disfarçou melhor, e foi viver para o Cacém para casa do Pedro, o seu namorado. É melhor eu nem comentar a escolha do nome do namorado.
Depois decidi que ali eu não estava bem, e mudei todo o meu quarto - sozinho porque ninguém me ajudou nem a desmontar, nem a montar a mobília composta por uma cama, duas mesinhas de cabeceira, uma cómoda, um espelho, uma estante e um guarda-fatos com três portas – lá para cima, no sótão, mesmo ao lado da casa de banho que agora era só para mim.
Mas esse macaco papão sabia sempre onde eu estava. Não me valia de nada andar sempre a mudar de quarto que ele descobria-me. Percebi que tinha de fechar as portas do guarda-fatos e todas as gavetas, tal como fechar muito bem as persianas e a porta do quarto. Mas mesmo assim ele conseguia entrar. Mesmo quando eu, por debaixo da cama, entre aquele vácuo das tábuas escondia alguns brinquedos com os quais os meus pais não me deixavam brincar porque diziam que eu já não tinha idade para brincadeiras. Cá para mim o papão entretinha-se era a noite toda a brincar com os meus brinquedos e a pouco e pouco foi-se esquecendo de mim.
Agora a minha cama é muito baixinha, tem apenas uma pequena trave preta que eu mesmo fiz, transformando a cama que era dos meus pais, quando viemos viver para Portugal. E agora, bem que olho para debaixo da cama, mas única coisa que encontro é debaixo do estrado uns quadros e um charriot desmontado, que eu ali guardei por falta de espaço, e que nunca me lembro, e certamente só o vou ver da próxima vez que mudar de casa.
O papão já não dorme no meu quarto, deve ter encontrado outra criança para assustar, ou então percebeu que ferros de um charriot não são tão divertidos para brincar como aqueles brinquedos que de certeza algum menino tem escondidos debaixo do colchão. Trocaste-me por outro papão, mas ainda durmo com uma quantidade incrível de cobertores que no Inverno me pesa nos ombros, me aquece e me protege.

4 comentários:

Va.So. disse...

Ontem enquanto dava uma vista de olhos pela revista tvmais, reparei num comentário ou melhor na sugestão do Cláudio Ramos que dizia: “Esta semana na net descobri http://ascronicasminhas.blogspot.com. Textos e desabafos de Pedro Pina.Espreite!”.

E eu espreitei! E olhem o que encontrei! Um blog cheio de histórias…mais um blog espectacular que passarei a visitar.

Parabéns pelo blog.

Nuno disse...

Tá 5* também... Também eu, ainda hoje, durmo com uma carrada de cobertores... Mais para adormecer rapidamente, não percebo bem o efeito que uma montanha de cobertos tem no adormecer mas que tem, tem... Bem abraço e parabéns pelo blog.

gaohui disse...

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