18.5.07

DE MALA ÀS COSTAS


Os meus pais foram emigrantes e devem-me ter incutido este espírito nómada. Ambos sempre tiveram um espírito muito aventureiro e tal como eu também saíram cedo de casa. A minha mãe é alentejana, e o meu pai é da beira, conheceram-se na Alemanha e decidiram casar em Fátima para ser a meio do caminho para toda a família. Na Alemanha vivemos em duas casas. Da primeira não me lembro muito bem, só sei que quando a minha irmã nasceu já não vivíamos lá. Mas da segunda, lembro-me de um dia me irem comprar a minha caminha pequenina amarela e preta que eu mesmo escolhi, parece que já em pequenino, eu tinha gostos um bocadinho extravagantes, é natural eu nasci nos anos setenta. Mas depois, quando viemos para Portugal, com algumas mobílias e muitos sacos, enfiados numa carrinha enorme branca com não sei quantas pessoas que eu não conhecia, os meus pais explicaram-me que não podíamos trazer a cama amarela e preta e eu fiquei muito triste. Depois chegámos a Vilar Formoso, acho que estávamos à espera do comboio e eu fazia desenhos com uma caneta de filtro numa caixa de papelão enorme que tinha o desenho de um frigorifico, enquanto uma senhora de cabelos compridos caminhava de um lado para o outro, aos gritos. Eu abandonava a primeira das quatro cidades onde iria viver, Witten. Lá na vila vivemos em duas casas. A primeira era no segundo andar e tinha duas varandas, uma que dava para as traseiras e a outra dava para o jardim central da vila, mesmo à frente da Câmara Municipal, que tem um lago que na altura me parecia enorme, mas que afinal não era assim tão enorme quanto isso, sei-o eu que caí lá três vezes, um das quais caí mesmo em pé e fiquei lá em pé a rir-me e com as calças de ganga todas molhadas. O lago cheirava muito a flores, era um cheiro muito especial que às vezes me fazia ir para o Jardim, sentar-me num dos bancos sozinho a olhar o lago e a sentir aquele floral. A outra, a quarta casa, foi onde vivi seis mais anos, mas parece que lá vivi a vida toda. Vai ser para sempre a minha casa. Ali fui criança, ali mudei três vezes de quarto – eu já era nómada até dentro da minha própria casa – ali fui adolesceste, ali brinquei, ali chorei, ali escrevi, ali pus muita coisa em causa, ali conheci-me, ali perdi a virgindade, dali saí sozinho de casa, ali voltei aos fins-de-semana, dali tenho saudades e há coisas que nunca mais voltam. Nas férias andávamos sempre de mala às costas. Ou íamos passar umas semanas a Buarcos ou à Figueira da Foz, onde alugávamos mais uma casa e para onde a minha mãe levava tudo e mais alguma coisa, incluindo garrafinhas pequenas com azeite e vinagre e um saquinho pequeno com sal e outro com açúcar. Ou às vezes passava o verão inteiro no Alentejo, na casa dos meus avós, de onde a minha mãe saiu para ir para a Alemanha, ou então a brincar na barragem e a morrer de calor. Depois fui viver para casa da minha tia em Coimbra, onde senti que tinha caído completamente de pára-quedas, e a minha prima se esforçava imenso para mo lembrar. No ano seguinte mudei-me para o apartamento de cima com a minha irmã que desistiu e voltou novamente para casa dos meus pais, deixando a casa só para mim. Ali fiz os melhores jantares da minha vida, ali fiz amigos, ali ri-me e confidenciei com a melhor amiga que se pode ter, a Patrícia. Depois abandonei Coimbra e de mala às costas fui viver oito anos para o Porto, onde vivi e dois quartos e três apartamentos. No primeiro chorei quando vi a minha mãe ir embora. Andavam por lá uns gatos no quintal, que quando eu me esquecia da janela do quarto aberta, me faziam dar com cada grito de susto que até a casa estremecia. Felizmente nunca caiu, não fosse a escadaria já abanar de cansaço, a água mal correr nas torneiras, a Teresa, a segunda melhor amiga que se pode ter, dizer que via ali fantasmas e mortos o que acabou por cinco meses depois fazer-me mudar para um quarto maior, porque eu sentia que precisava de espaço, num apartamento mesmo em Santa Catarina. Ali fui vegetariano e paguei contas de telefone elevadíssimas por ter ligado para linhas de valor acrescentado que anunciam na televisão. Dali saí e fui viver para um estúdio T zero no terceiro andar, onde eu ouvia a vizinha do segundo direito aos gritos com o marido, socorro, eu chamo a policia, socorro eu mato-me, bem que ela se podia ter matado, assim não se metia na minha vida, de bisbilhoteira que era. Ou então a do segundo esquerdo, mesmo por baixo de mim, aos pontapés à porta, que o filho tinha adormecido a meio da tarde e não abria a porta, parece que está a dormir o sono da morte! Fui viver para um oitavo andar à frente do Jornal de Noticias com uma varanda parecida com a do apartamento de Coimbra mas com uma vista para toda a cidade. Não fosse a humidade nas paredes, e de vez em quando o tecto cair em cima do sofá azul que comprei com o meu primeiro ordenado de designer num atelier, o apartamento até tinha potencial a ser perfeito. Uns meses depois fiz a mudança mais fácil e simples da minha vida. Mudei-me de elevador. Fui viver para o segundo andar do mesmo prédio e os dois elevadores rapidamente me levaram a mobília toda lá para baixo. Um apartamento perfeito. O mais perfeito onde vivi até hoje e onde fui muito feliz. Curioso como no mesmo prédio pode existir simultaneamente uma casa a cair aos bocados e um apartamento tão perfeito. Um soalho novo, um papel de parede giríssimo que me faz lembrar a segunda casa da Alemanha. Ali vivi. Vivi, no melhor ascendente da palavras viver. Mas como um perfeito de mala às costas, que procura incessantemente uma perfeição e nunca está satisfeito e acha sempre que existe mais e melhor, um dia mudo-me para Lisboa. Existe um tempo certo para tudo, e também existe um tempo certo para partir. Encontro um apartamento com duas salas, quarto, cozinha, w.c., marquise, corredor e terraço, cheio de janelas e com muita luz, perto da praça de Espanha. Ali até haveria algum potencial para ser feliz. Eu precisava de um apartamento grande, com bastante espaço, e quando me dei conta era demasiado grande e tinha espaço a mais. Além disso a minha irmã e um colega meu também diziam que ali havia fantasmas e mortos, que eu não estava sozinho e que vivia ali um homem. Parece que a primeira casa que habito numa cidade é sempre a casa dos mortos. Deve ser algum presságio ou aviso, não sei. Sei é que dali mudei-me para aquela que hoje é a minha décima terceira casa, e certamente que isso me vai trazer sorte. Junto ao Marquês de Pombal, pintada de vermelho, laranja e preto, cheia de Budas, incenso, e com o quadro que a Teresa me pintou pendurado numa parede. Este apartamento é muito parecido com o último apartamento que vivi no Porto. Aqui sinto paz. Aqui sou eu. Aqui estou comigo e reencontro-me a cada fotografia que penduro, a cada vela que acendo, ou quando olho esta janela e vejo os jardim do Palácio Souto Mayor e me deixo ser invadido pela luz e pelo sol. Treze casas à minha procura. E agora percebo que home é onde tu estás. O teu lar é aquele onde tu te sentes bem. Há que personalizar o espaço, nem que seja por um curto espaço de tempo, mas torná-lo meu, acolhedor e que se identifique comigo. Afinal aqui vai ser a minha casota durante algum tempo, e o que importa é enquanto aqui estou. Sei que esta não será a minha última casa, afinal continuo sempre à procura de mais e de uma perfeição mágica que eu sei que existe. Além disso a tradição mantém-se, pois os meus pais enquanto eu me mudava para esta casa, mudavam-se eles para uma moradia fantástica, com um jardim com um óptimo potencial, onde ainda tenho de personalizar o meu quarto para que o sinta meu, já que ali não fui eu quem pôs a mala às costas. Quando cheguei, já a mudança tinha sido feita. Passamos a vida de mala às costas. Até a minha irmã já mudou várias vezes de casa e de cidade. É de família!

11 comentários:

NightWolf disse...

Ao ler-te fizeste-me recordar muita coisa, arrancando-me muitos sorrisos de lembranças que eu ja pensava esquecidas dentro de mim, porvezes sabe bem recordar o passado.

Um abraço

pedropina disse...

ainda bem k o consegui!!! tou a ver k temos málas e caixotes em comum lol!

Hata/mãe disse...

A redes de pesca, era tentando gracejar com o signo do perfil ... que não sei se é real ...
... aqui nunca se sabe o que é real...

Mas ficas a saber que o meu é carneiro (marro o dia inteiro) lol

Confesso que não li todos os contos ,,, este ùltimo tbem me fez sorrir. Até quando escreves que a tua irmã via fantasmas ... eu adorava ve-los!

Até qualquer dia

Muito obrigada pelas tuas palavras

Descrobri o teu blogue por acas

Denise disse...

Puseste-me a fazer contas... em 18 anos de vida, andei 9 vezes de mochila às costas, vivi em 9 casas... Vou num bom caminho não?! Este ano vou conhecer a minha décima casa... Hum... Daqui a nada passo-te =P

E essa casa... quero conhecer-lhe as paredes, as cores agradam-me.
Enfim...continuo com sono...desculpa*

pedropina disse...

Hata/mãe: sim, peixinho/peixinho, e aki deste lado é tudo real....c excepçao fr algund blogs k sao pur imaginaçao, mas este é real!.. e eu vou continuar a ler os seus k penso k já li tudo tudo de todos todos , ktos tem?

Denise: amiga, olha k nao me passas pk emprincipio este ano vou outra vez mudar de casa! mas desta vez nao será sozinho!!!!!

pedropina disse...

Denise: ah! já viste k finalmente já consegui por foto?! :))

Denise disse...

LOOOL... já vi sim... será que posso pensar num milagre?!
Opááá que pena. Queria mesmo ver as paredes. Sempre quis uma laranja e a minha mae nunca deixou...!

Beijinhos*

pedropina disse...

denise prometo tirar umas fotos das paredes desta casa so pa te mostrar!

Pralaya disse...

Adorei o texto e a passagem de casa em casa eu já mudei várias vezes, neste momento sinto que estou em casa custou imenso mas sinto-o pela primeira vez.

gaohui disse...

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