15.5.07

A OUTRA COM NOME



Conhecemo-nos completamente por acaso. Como que por acidente. O típico encontro banal do: eu-ia-a-passar-ele-olhou-para-mim-e-parou. E assim foi. Eu ia para casa, já passava das 23h, vinha cansada do ensaio, como que a falar sozinha e a relembrar as deixas da última cena. Tu descias a rua no teu carro, olhaste-me fixamente. Deves ter pensado: mais uma maluca na rua a falar sozinha. E confesso que pelas minhas vestes despreocupadas de actriz às 23h30m da noite em final de ensaio, quase que poderia representar uma jovem revoltada que grita com o mundo, participa em manifestações e bebe uma cerveja no final da noite, na esplanada do Piolho. Mas na verdade esse estilo alternativo devia-se mesmo à preguiça e cansaço de não despir o figurino. Não sei o que te despertou em mim, mas viraste o carro, deste a volta ao quarteirão tão rápida, que antes de eu atravessar lá cima a passadeira de Sá da Bandeira, o teu carro já estava a abrandar para eu passar. O teu olhar seguiu e contou cada risca da passadeira. Na última risca sorriste. Eu fiquei completamente envergonhada. Paraste o carro e ficaste a olhar fixamente os meus olhos que olhavam os teus, ali parados na rua ao frio. Como sempre fui muito atrevida, dirigi-me ao teu carro, à partida para te dar uma descasca género: não tem vergonha? Ou qual é a sua ideia?
Mas quando chego e o vidro se abre num sorriso e um: o que é preciso fazer para ouvir a sua voz e lhe oferecer um café? Senti-me completamente louca e fiz entrar o figurino do ensaio no banco do co-piloto. Tu não sabias que eu era actriz e no fundo estavas a tentar engatar o personagem. E o personagem foi contigo dar uma volta de carro a fingir que procuravam um café aberto aquela hora da noite na baixa. Obviamente, não encontraram, mas encontraram um beco sem saída de uma rua tão estreita que tiveste de tirar dali o carro em marcha-atrás enquanto eu me ria do absurdo da situação. Tu estavas a começar a ficar muito sério e a perder aquele sorriso que me fez entrar no teu carro, mas eu continuava a achar a noite uma verdadeira aventura. Aventura que continuamos numa rua quase deserta, com o carro mal estacionado no escuro quando a tua boca não resistiu à minha e sentia as tuas mãos na minha face. Já há muito tempo que alguém não me beijava com as duas mãos a segurarem-me a face. Por esta altura era costume uma delas segurar o meu peito com medo que ele caia, provavelmente, e a outra perdida entre botões e fechos a desvendar todo o território. Tu foste diferente. O que parecia um típico engate género: e-já-agora-como-é-que-te-chamas-quer-dizer-não-importa, afinal não o era. Foi quando me disseste que achavas graça ao meu ar descontraído e aventureiro, ao mesmo tempo misterioso e um pouco desleixado que eu te disse que aventureira era, principalmente quando estudava personagens loucas que nem me deixavam tirar o figurino, pois eu não me vestia assim, que percebeste que eu era actriz. A tua expressão mudou. Sentiste que tudo aquilo era demasiado bom para ser tão arriscado. Afinal tens namorada! E também é actriz! Que coincidência! Não, não sei quem é, mas sim é provável que um dia possamos a vir trabalhar juntas, o mundo é tão pequeno e dá mais voltas que uma maquina de lavar em processo de centrifugação. Levaste-me a casa. Sobes apenas para te despedires e são seis da manhã e ainda estamos a dar o último beijo de quem não sabe quando nos voltaremos a ver, se é que nos voltaremos a ver. Não nos conseguimos largar e os olhos deixam cair uma espécie de lágrimas. Algo de muito raro aconteceu nesta noite em que até parecia um típico engate sem nome. Chamo-me Paula, chamaste Pedro, e não quero dizer o nome dela porque já tenho ciúmes. Quero-te e sei que me queres. Quando os nossos braços se conseguem arrancar fico ali sozinha. Antes de ir para o ensaio vejo que o teu carro continua estacionado à minha porta. Volto a casa para escrever uma carta de página e meia que enfio pelo vidro da janela que abriste a sorrir. Onde estás agora? Quem és tu? Dizes o meu nome ou dizes o dela? Uma semana depois telefonas-me à hora de almoço, eu já não fui a tempo, mas como pressinto que és tu apesar de não conhecer o número, dou-te um toque. Pedes-me para nunca o voltar a fazer, é o número do teu trabalho. Leste a carta, o carro ficou sem bateria e tiveste de lá ir buscá-lo no dia seguinte. Se tiveste de voltar ali é porque o destino quer que nos voltemos a ver, penso. E vemos. Vemo-nos durante 2 meses, nos quais cada noite é ainda mais difícil de despedir e choramos como duas crianças, tendo sempre medo que seja a última vez e que deixemos de nos ver. E apesar de ires ver os meus espectáculos e no fim saíres a correr para ires ter com ela, ou de eu ficar sozinha em casa a pensar em ti que estás com ela, ou das noites em que vens a correr dar-me um beijo e eu sentir-me a outra, um dia deixamo-nos mesmo de nos ver. Deixas de responder às minhas sms, não me telefonas, não me visitas. E percebo que acabou aquilo que afinal não foi um típico engate sem nome, mas que fez de mim durante dois meses, a outra.


(ao Paulo)

7 comentários:

Felipe Nunes disse...

as coisas começam...
as coisas vão durando..


mas tudo tem um fim.. até a eternidade tem um fim..


Desculpa a banalidade das palavras... e a simplicidade... mas nem tudo precisa de ser bonito ou complicado para ser sincero ou para ser sentido.

O que te vai na alma!! disse...

A minha opinião é semelhante a do Filipe... tudo começa... e é mt bom enquanto dura... mas depois vêm os senãos... e aí... :S

em relação ao teu comentário..
tava a falar de mim... quem perdeu algo fui eu! :S

abraço

Pralaya disse...

Estranhas as relações que criamos por vezes... a necessidade de encontrar algo fora do que temos. A procura, a adrenalina das situações e por fim o voltar ou não a normalidade.

Nuno disse...

Eu nisso sou mt prático. Não estou satisfeito, não dá para continuar. Posso tentar representar um pouco mas só o conseguirei no palco portanto não dará.
Como eu me identifico com a actriz deste texto, demasiado preguiçosa para despir o figurino. Quantas vezes já não andei por aí meio homem, meio espantalho, meio homem, meio palhaço triste, meio homem, meio personagem.
E como tu disseste uma vez só nos sabemos o cheiro daquelas tábuas...
O texto mais uma vez está muito bom.
Abraço

Denise disse...

Eu não consigo compreender o que é que leva as pessoas a assumir o papel secundário na vida de alguém. Não compreendo mesmo. Dois meses e o resultado final?! Uma história falhada?!
Eu não compreendo.

Beijinhos*

inperpetuum disse...

Acho que ninguém quer um papel secundário na vida de outra pessoa, mas por vezes acontece, pela vivacidade dos sentimentos na altura, por um grande desejo de se ser amado... e aí, nunca se pensa, nunca se quer saber.
Mais uma história do quotidiano adorável!! :)
Obrigada pelas palavras amigas e reconfortantes! ;) xi

Lu@r disse...

As paixões tem destas coisas, a atracção física e o resto perde-se com o tempo.

Sobra a mágoa.

Abraço