3.5.07

O GRITO DA MÃE URSA




Ainda hoje põe três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos. Como se ele ali estivesse. Mas não está. Como se a qualquer comento entrasse por aquela porta a correr e se sentasse cheio de fome. O pai que é policia estava de folga em casa. No quintal mesmo à frente das escadas conversa com um amigo e experimentava a arma nova. Uma pistola toda XPTO que tinha chegado essa semana à policia. Ela estava na cozinha mesmo em frente ao quintal a preparar o jantar, e gritava-lhe da janela “pára lá com isso, o janta já está pronto”, enquanto punha na mesa três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos. O pai dá um último tiro contra a parede. A mãe olha-o pela janela e mal tem tempo de dizer “onde é que tu vais? O jantar está pronto” quando o rapaz salta repentinamente as escadas a correr, ele andava sempre a correr, e uma bala lhe atravessa o crânio de um lado ao outro. Os médicos acharam extraordinária a velocidade da bala, capaz de nem sequer se alojar, alugando umas das cavidades do crânio com terraço e vista para o rio. Em vez disso, entrou, pesquisou num ápice toda a moradia cerebral e saiu, deixando como sentença uma morte imediata, ali no quintal, ao fundo das escadas. O jantar arrefeceu. Ninguém comeu. Ali ficaram na mesa os três pratos rasos, os três pratos de sopa, os três garfos, as três facas, as três colheres, os três copos e os três guardanapos. A mãe ficou parada, calada, a olhar para aquilo. A sua boca entreaberta, os olhos muito esbugalhados como os daqueles palhaços com um ar assassino género palhaço da MacDonalds, e que sempre me assustam imenso. Não emitiu uma única palavra. Levou as duas mãos à cabeça e ficou ali em pé, no meio das escadas, de pernas abertas na saia rodada, um delas já num degrau de baixo. Ainda se ouviu um grito, um grito que vinha das entranhas, lá mesmo do fundo das cavernas e que ecoou por toda a vila. Parecia ter sido dado pela mãe ursa, no fundo de uma caverna quando descobre o filho urso deitado no chão sem respirar, sem se mexer, e de olhos esbugalhados a olhar para ela. Assim ficou ela, depois desse grito ensurdecedor de terror e aflição, parada sem respirar e sem se mexer, com a boca entreaberta e os olhos bem esbugalhados a olharem para ele. Nunca mais disse nada. Depois do grito nunca mais se ouviu qualquer som a tentar escapar por aquela boca. Acho que esgotou toda a sua voz naquele último grito de aflição e terror, e como um rio esvaziado por um grito, assim ficou ela, seca, vazia, esgotada de qualquer capacidade de emitir sons ou emoções. E se a voz não lhe saiu toda no grito, esvaziando-lhe por completo o coração, o restante deixou ir naqueles olhos esbugalhados deitados no chão do quintal, de dezoito anos que olhavam tudo isto pela última vez. Mas ela não se despede uma última vez, porque todos os dias atravessa a vila, e quer faça chuva ou sol, ela arrasta-se ao cemitério para depositar as flores enquanto olha a fotografia tipo passe sorridente numa pequena moldura de vidro. Parece dizer “estou aqui mãe, não me fui embora!” E com a certeza de que o ouve, e de que ele não se foi embora, ou pelo menos com uma vontade animalesca de não o deixar partir, todos os dias ali se senta junto da sua campa a olhar aqueles dezoito anos que um dia saíram de dentro dela. Porque uma mãe ursa quando abre as pernas para permitir e oferecer o pequeno urso ao mundo, nunca corta o cordão umbilical. Pode até parecer que corta, mas esse pequeno cordão invisível que os liga eternamente como que uma espécie de telepatia que sempre transmite e sente se um filho está bem ou precisa de ajuda, nunca se corta definitivamente. O pai teve de deixar a polícia, pois experimentava ilegalmente uma arma em casa, no seu dia de folga. Ali está ele, sentado no sofá, olha as manchas de palavras num jornal silencioso. Com um ar gasto, frágil e culpado. Olha-o mas não o lê. Talvez traumatizado com receio de voltar a ver o seu nome imprimido naquelas páginas ou de ver a fotografia tipo passe dum sorriso de dezoito anos, que a bala que saiu da arma que estava na sua mão fez partir apressadamente sem sequer fazer o check out. E ela olha para ele com sua boca entreaberta e os seus olhos esbugalhados cujo seu silêncio o acusam da morte do filho. “Foste tu que o mataste!” É o que ele lê nesses olhos. E por mais que ele sinta que apenas segurava na mão a arma que disparou a bala que o matou, e que tudo se resume a um trágico acidente, também sente esse peso da culpa. A culpa dum silêncio vazio que agora habita essa casa e que todos os dias relembra aquele grito de terror e aflição saído do fundo da caverna da mãe ursa. E nesse silêncio incomodador de acusação, culpa, sofrimento e martírio, todos os dias ele põe na mesa três pratos rasos, três pratos de sopa, três garfos, três facas, três colheres, três copos e três guardanapos.

6 comentários:

Denise disse...

Ñ que seja sensivel, mas não consigo comentar este tipo de coisas...baaah!*

pedropina disse...

poix.....nao é?

pedropina disse...

ah.....ainda me doi kdo vejo a senhora em kestao, a filha era amiga minha de infancia....isto foi ha mais de 15anos...

Nuno disse...

Isto passou-se de verdade, pedro? Nem sei bem que dizer...
Escrita arrebatadora. Até dói só de ler...

pedropina disse...

sim passou-se de verdade...em viseu onde eu vivi kdo tinha 14anos...

Pralaya disse...

Uma história triste e que aconteçe ainda muito por infeliz que seja. Nunca percebi a adrenalina que dá ter uma arma na mão e poder utiliza-la e nem quero saber.