14.5.07

EM MADRID, NADA É ESTRANHO!




Não sei como me passou pela cabeça. Saí de casa e fui até à loja onde comprámos os fatos para o nosso casamento. Paguei o meu e o teu. Vesti o meu. Deixei lá a minha roupa e saí vestido, depois de dizer à senhora que tu logo à tarde ias lá buscá-lo. Saí pela baixa, vestido de smoking às 11h30m da manhã. Ninguém achou estranho. Em Madrid nada é estranho. Nem eu apaixonar-me por um homem e pedi-lo em casamento. Os meus pais ficaram todos contentes e gostam imenso de ti. A esta hora devem estar em casa a falar contigo. Telefonei-lhes depois de pagar o fato. Apanhei um táxi e fui até à esplanada onde nos conhecemos. Foi ali que nos conhecemos. Tu estavas sentado a beber um café, típico português. Eu sentei-me e deparei com o teu olhar. Nunca mais consegui desviar o meu olhar do teu. Passou um ano e continuo a olhar apenas para ti. Eu já tinha tido algumas relações com homens, mas nenhuma mais longa que um mês. Eram relações mensais. Até ao dia de me sentar nessa esplanada. Viajámos imenso e tínhamos um namoro perfeito. Os nossos pais aceitaram o nossos casamento, assim como os nossos amigos. Dormimos sempre abraçados e tenho-me sentido o homem mais feliz do mundo. Por isso é que achei estranho tu uma semana antes decidires ir fazer a tua última viagem como solteiro. Mas, como já estava quase tudo preparado para o casamento e senti que eu também precisava de ficar sozinho uns dias, antes de me unir para sempre a ti, aceitei. Mas o telemóvel que agora está aqui ao lado, desligado, dois dias depois deixou de tocar. Mal me davas noticias. Senti-te longe e não era apenas fisicamente. Estavas frio, seco, diferente. Não percebi. A família mais chegada já está em Madrid e os nossos amigos mais próximos têm tudo preparado para a nossa festa. Será no Palacete de uns amigos dos meus pais. Estão todos excitados com o nosso casamento e a ajudar nos últimos preparativos. Todos, menos tu. Tu resolveste ficar mais uns dias e voltar dois dias antes de nos unirmos. Não percebi, devias estar aqui super entusiasmado com o nosso casamento. Mas não só não te sinto entusiasmado, como nem sequer estás aqui. Não percebo. Mas em Madrid nada é estranho. Chegaste ontem de manhã. Vieste ter comigo, abraçaste-me e disseste que precisávamos de conversar. Não percebi nada do que me disseste. Deixei-te a falar sozinho na casa que já compramos e mobilamos juntos para passarmos o resto da nossa vida, e saí porta fora sem perceber nada. Apaixonaste-te por outro homem e já não queres casar comigo? E dizes-me isso dois dias antes de casarmos? Não percebo nada. Por isso fui buscar mais cedo o fato de casamento e sentei à porta do conservatório. Sei que ainda faltam dois dias, mas vou passá-los aqui sentado, à tua espera. Afinal em Madrid nada é estranho. Talvez mudes de ideias e venhas casar comigo. Entretanto, enquanto esperava fui tomando estes comprimidos todos que trouxe às escondidas antes de sair de casa, misturando-os com os que comprei na farmácia ao lado da esplanada. Não sei se já é o dia do nosso casamento, porque me sinto um bocado tonto. Ia jurar que na entrada do conservatório não existiam macas, nem tubos de oxigénio, nem enfermeiras. Mas deve ser de me sentir tonto e com muito sono. Vou só fechar mais um bocadinho os olhos enquanto espero por ti.

4 comentários:

Denise disse...

Quantas são as vezes que damos mais do que deviamos a quem não nos merece?!
Enfim, acho que compreendo as duas partes, há decisões que só se tomam em cima da hora e podemos sempre apaixonarmo-nos, hoje ou amanhã, por alguém que acabamos de conhecer e esquecer aqueles que antes amávamos...
E não o conservatório não tem macas e tubos à porta... Isso é um hospital e deves estar a ter - ou já ter tido - qualquer coisa parecida com uma overdose...!

Beijinhos =)

pedropina disse...

Denise: felizmente ele já saiu de coma...andei ali uns dias mt preocupado, mas o meu amigo já me ligou e já me disse k ta tudo bem!!

Pralaya disse...

Mais uma razão pelo que afirmo que só nos devemos apaixonar por nós próprios...
Claro fácil dizer dificil de fazer como tudo.

Denise disse...

Isso é optimo...espero que agora tenha juizo... há coisas que não se justificam...!