4.6.07

A EMPREGADA DE LIMPEZA E A "SENHORA"

Já passava dos quarenta, usava óculos “fundo de garrafa” e tinha o cabelo muito curtinho. Costumava fazer a limpeza todas as semanas lá no atelier e na casa da “Senhora”, e acabava sempre por me contar a sua vida e me pôr a par dos últimos episódios da “Senhora”. Contou-me um dia que a filha queria ir para a Faculdade mas que o marido não deixava. Ele achava que as mulheres deviam era ficar em casa. Contou-me que ele lhe batia e que um dia a obrigou a ir à chuva às bombas de gasolina, comprar-lhe cigarros. E que no final da noite, depois de a insultar, de lhe bater e de dizer à miúda: “um dia ponho a tua mãe a render na via norte”, se deitava e dizia: “vá, vira-te para mim”. E não adiantava ela dizer: “não Carlos, não me apetece”, porque ele dizia logo: “mas apetece-me a mim, vira-te”. E chorava quando me contava dos pontapés nas costas enquanto ela esfregava o chão da cozinha. Um dia trouxe biscoitos para a cadela que a “Senhora” tinha encontrado no meio da rua perdida e com os bigodes queimados. Mas que a “Senhora”, agora nunca lhe dava comida e a cadela estava cada vez mais magra e pulava de alegria quando via os biscoitos. Então um dia comprou “arroz para os cães”, daquele muito miudinho em promoção no mini preço. E cozeu-o para a cadela. Encontrou um pedaço de bacon perdido no frigorífico e misturou no arroz para lhe dar um sabor. Mas a “Senhora” disse logo: “Deixe aí estar o arroz, fica pra o jantar logo à noite!” E ela mal podia acreditar. Tal como não acreditava no que os seus olhos viam quando limpavam a prateleira dos catorze pares de ténis, dez de sandálias, sete botas e dezassete pares de sapatos. Tal como não acreditava quando arrumava as camisolas e encontrava uma ainda com a etiqueta de cartão a dizer o preço. E também não acreditava naquele preço. Contou-me que no dia da passagem de ano a meio da discussão o Carlos lhe disse:”tens uma hora p’ra desapareceres, tu e a tua filha”. E ela assim fez. Guardou o máximo de roupa e tralha que conseguiu num saco, ligou ao irmão e apanhou um táxi coma pequena Vânia. Uns meses depois conseguiu juntar dinheiro para alugar uma casa e saiu de casa do irmão. Mas tinha medo de andar na rua porque o Carlos tinha uma vez ligado para o atelier a perguntar por ela e dizia que a matava se a visse com alguém. Ela caminhava assustada na rua, sempre a olhar para trás, com medo de estar a ser perseguida. Falava-me com alegria da sua nova casa. E da saboneteira azul que tinha comprado nos “trezentos”. Tinha-me contado uns dias antes que queria lavar a máquina de lavar roupa da “Senhora”, mas não havia detergente para a máquina. E um dia entrou com um ar muito estranho e disse-me:”Não vai acreditar menino! Hoje cheguei e a roupa estava toda lavada! E eu perguntei: já compraram detergente para a máquina de lavar roupa? E a filha da “Senhora” respondeu-me: Não! Pusemos detergente da loiça!” Foi quando eu dei uma gargalhada e ela riu-se comigo! “Não acho isto normal menino! Está sempre a comprar roupa e sapatos novos! No outro dia comprou umas calças de ganga daqueles costureiros italianos que devem de ser irmãos e doutro Mosque-qualquer coisa! E depois ouvi-a a falar ao telefone a perguntar às amigas se não tinham os livros de escola das filhas dos anos anteriores para emprestarem às suas filhas!” E eu olhava para aquela mulher a contar a vida da “Senhora” e via que o contraste era absurdo. Ali estava ela feliz por se ter conseguido livrar do Carlos, e contente com a sua saboneteira azul nova dos “trezentos”. E a “Senhora” comprava “Dolce and Gabana” e “Moschino” enquanto comia um croquete o dia todo. Duas vidas completamente diferentes e uma não conseguia compreender a outra. Então ela disse-me que a sua Vânia havia de ir para a Faculdade nem que ela se matasse a trabalhar. E eu fiquei tão feliz por ela. Um dia, já eu não trabalhava ali, contaram-me que ela tinha deixado a sua casa nova e tinha voltado para o Carlos. Parece que ele tinha tido um problema nos pulmões e na garganta por causa de tanto cigarro e ela depois de o ir visitar a primeira vez ao Hospital foi com ele para casa. E eu lembrava-me daquela senhora a dizer-me enquanto chorava: ”Sabe menino, é o único homem que conheço. O único com quem dormi na minha vida. Nunca conheci outro homem, e só o tenho a ele”.


(um beijinho à Sra. Dª Aurora)

10 comentários:

Jade disse...

Olá Pedro! A tua crónica retrata na perfeição várias realidades: a violência doméstica, o trabalho árduo, a honestidade, mas também, o novo-riquismo ou a hipocrisia, como lhe quiseres chamar. Mais do que isso retrata os opostos que compõem esta nossa sociedade...
Gostei muito! Parabéns!

Gi disse...

Gostei desta tua crónica do quotidiano. Há tantas Auroras e tantas "Senhoras" ...

Um beijinho

Arms disse...

Levou tempo para passar por aqui mas vim e vi como prometido.

Quanto à cróncia... Infelizmente são realidades que ainda acontecem. Mas gostei de ler.

Anónimo disse...

acontece muito mesmo...

Nuno disse...

é triste que as pessoas vítimas de violência doméstica voltem para a pessoa que as maltrata, e acontece tantas vezes...
Também é triste que as pessoas não saibam fazer uma gestão equilibrada do dinheiro.
Parabéns pela crónica.

Pedro Eleutério disse...

Muito boa esta crónica. Está muito bem escrita e descrita.

Abraço
Pedro

Klatuu o embuçado disse...

Boa crónica, bela escrita.

Denise Silva disse...

Só te digo uma coisa, leve eu escadas ou passe a ferro, seja empregada ou patroa, o primeiro gajo a encostar-me a mão em cima, ou foge rapidamente ou se arrepende de ter nascido.
Era o que faltava!!!

Não são mulheres, são vegetais...!
Beijinhos

Gemini disse...

Está muito bonita esta história. Consigo perfeitamente ver a situação: são personagens que todos nós conhecemos e que retrataste na perfeição.
By the way, não percebi porque te zangaste no comment que me deixaste.
Abraço

Graduated Fool disse...

Duro, real, triste. Há aquela esperança e, ao mesmo tempo, o perder da mesma.
Infelizmente, há por aí muitas "senhoras" mas mais infelizmente ainda, muitas Auroras.

Abraço para ti e se um dia vires a D.Aurora dá-lhe um apertado.